Filosofia & Teologia

A Arte de Esquecer para Conseguir Andar

 

Existe uma ingenuidade perigosa na forma como lidamos com a passagem do tempo: acreditamos que o simples virar da página no calendário é suficiente para nos libertar de quem fomos ontem. Mas a verdade é que o passado possui uma força gravitacional esmagadora. Se não fizermos um esforço consciente para romper com ele, seremos eternamente reféns das nossas memórias, falhas e frustrações.

É exatamente contra essa inércia existencial que o apóstolo Paulo nos adverte em Filipenses 3. Quando ele diz que faz apenas “uma coisa” — esquecer o que fica para trás —, ele não está propondo um exercício de amnésia tola. Ele está revelando uma estratégia de sobrevivência. Esquecer, no sentido bíblico, é um ato de amputação. É desvincular a nossa identidade dos erros, das dores e até das glórias passadas que, se alimentadas, tornam-se âncoras que nos afundam no mesmo lugar.

Mas apenas cortar a âncora não faz o barco navegar. O esquecimento é apenas o esvaziamento necessário para o próximo passo: avançar.

A vida em Cristo é essencialmente tração. Exige deslocamento. O avanço demanda a coragem brutal de olhar para o desconhecido e dar o passo, sabendo que permanecer estático é a forma mais silenciosa de morrer por dentro. O alvo de que Paulo fala — o prêmio da soberana vocação — não é uma meta de produtividade humana; é a própria eternidade puxando o nosso presente para frente.

Viver com propósito não é ter todas as respostas, mas é ter a disciplina diária de não deixar o passado ditar a velocidade dos nossos pés. Que o chamado de Deus nos puxe com mais força do que os nossos medos conseguem nos segurar.

 

O passado possui uma força gravitacional esmagadora. Qual é aquela memória, frustração ou glória antiga que você precisa "amputar" hoje para conseguir finalmente sair do lugar? A caixa de comentários é sua.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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