Artes & Narrativas

Deuses efêmeros de bairro

O calendário marcava um dia de junho na década de 90, provavelmente um sábado, quando a luz do fim de tarde já começava a fraquejar. O cenário era a rua da casa da minha avó, que, na geografia dos meus afetos daquela época, eu reconhecia apenas como o domínio da minha tia Preta.

Bem ali, rasgando o meio da rua e desafiando a pacatez do bairro, ergueram um palco improvisado. Dois homens faziam a passagem de som. Para um menino que nunca havia estado diante de uma estrutura daquelas, não se tratava de um punhado de madeira e cabos: era um altar profano que parecia ter caminhado até mim.

Faltavam os canhões de luz, o neon e a suntuosidade dos grandes equipamentos, mas sobrava o encantamento bruto. Aqueles dois homens sem nome deram início a um rito que aniquilou a minha noção de tempo. Quando dei por mim, o breu já havia engolido a tarde, passando das sete e meia. Eles lá em cima, como deuses efêmeros de bairro. Eu cá embaixo, com os olhos vidrados, ignorando o frio de junho que varria o asfalto.

Vestiam calças apertadas, ostentavam cabelos compridos e emulavam os agudos de Zezé Di Camargo e Luciano. Aquela trilha sonora, que até então era apenas um ruído sem sentido no rádio dos adultos, transmutou-se subitamente em epifania.

Hoje, ao rebobinar o tempo, a cena roda na minha cabeça como um filme de textura granulada. A memória apagou os rostos de quem estava ao meu lado, talvez umas setenta pessoas, uma multidão colossal para a minha métrica infantil. Éramos apenas vizinhos envoltos na mesma brisa gelada, tentando extrair algum calor daquele instante incomum.

E lá no alto, a dupla sertaneja cover cantava para todos nós. Mas, na solidão deslumbrada daquele menino daquela rua, eles cantavam apenas para mim.

E a voz deles, de alguma forma, nunca mais foi embora.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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