Pólis & Gestão
Ordem, crítica social, soluções práticas. A Lente Estrutural e Social. Ordem, crítica social, soluções práticas. Esta categoria abriga a sua visão pragmática sobre como o mundo, as instituições e a sociedade devem funcionar e se organizar. É o espaço do impacto em larga escala. Abarca seus papéis de: Administrador, Gestor Público e Político. O que entra aqui: Análises sobre políticas públicas, estruturação e gestão de projetos educacionais, críticas institucionais, liderança administrativa e visões sobre a organização da cidade (a pólis).
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A linha passa na minha mesa
Sousa Santos descreve a linha abissal como aquilo que separa o que conta como conhecimento válido do que sequer é considerado conhecimento. Resumi o artigo dele e escrevi sobre saberes tradicionais, coloniais e subalternos, como quem discute um problema que acontece longe. A linha passa na minha mesa. Coordeno assistência estudantil num campus de instituto federal. Boa parte do meu trabalho consiste em decidir, com a equipe, quem recebe auxílio. E o processo funciona assim. Uma família diz qual é a situação dela. E essa declaração, sozinha, não conta. O que conta é o comprovante. Contracheque, extrato, declaração de trabalho informal reconhecida em cartório, conta de luz no nome de…
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Corredores de autorregulação
Escrevi, no meu trabalho de conclusão de licenciatura em Teatro, que muitas escolas da região onde atuo se estruturam sob uma estética que se assemelha à de uma prisão. Listei o que se vê: muros altos, vigias armados, grades nas janelas, portões de ferro, câmeras de videomonitoramento, portas de vidro. E escrevi uma expressão que eu não inventei, apenas registrei: corredores de autorregulação. É assim que se chama, em algumas escolas, o espaço para onde vai o aluno que se descontrolou. Repare no nome. Ele não diz corredor de castigo, nem sala de contenção, nem lugar onde a gente põe quem atrapalhou a aula. Diz autorregulação, que é uma palavra…
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Analisar o poder de dentro dele
Propus, num projeto de pesquisa, analisar como as decisões são tomadas no instituto federal onde trabalho, e como o poder é distribuído entre os agentes da instituição. É um bom objeto. Poucas coisas importam mais numa organização pública do que saber quem decide de fato, e quase ninguém pesquisa isso por dentro. Reli o documento e ele não analisa poder nenhum. O que ele faz é elogiar. A instituição é descrita como renomada, que aparece três vezes. O plano de desenvolvimento institucional é apresentado como instrumento que garante que o poder seja exercido de acordo com as necessidades e objetivos da instituição. As políticas educacionais promovem educação inclusiva, igualdade de…
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Quem carrega o piano
A atual corrida eleitoral para a Mesa Diretora da CADEESO tem mobilizado lideranças e ampliado o debate sobre o futuro da nossa convenção. Ao analisar as propostas e, sobretudo, a composição das chapas, em especial a encabeçada pelo respeitado Pr. Kemuel Sotero, deparo-me com reflexões que exigem ser compartilhadas com honestidade. O peso de um nome é importante, mas a solidez de uma instituição exige um plano de governança claro e propostas que saiam do papel. Embora a referida chapa levante frequentemente a bandeira da união, a sua estrutura revela uma contradição prática. Caso seja eleita, teremos dois pastores da mesma igreja local ocupando os cargos mais estratégicos da convenção:…
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Foucault virado do avesso
Escrevi um projeto de pesquisa sobre distribuição de poder no instituto federal onde trabalho, e usei Michel Foucault como referencial teórico. Reli e encontrei frases como estas. Que as técnicas de si são incorporadas de maneira transversal no plano de desenvolvimento institucional. Que o plano define as práticas e técnicas que moldam o comportamento dos estudantes, promovendo a autonomia e a responsabilidade de cada membro. Que a subjetividade dos estudantes é moldada pelas interações educacionais, enquadrando-a dentro de parâmetros desejados que visam à formação de profissionais capacitados. Que essas técnicas de poder são aplicadas para garantir a efetivação das políticas estabelecidas. Tudo isso escrito em tom aprovador. E aqui está…
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A ansiedade como resultado
No meu mestrado, medi a ansiedade tecnológica de 446 servidores diante do sistema eletrônico de ponto. Dois resultados apareceram, e os dois foram confirmados estatisticamente. Quanto maior a ansiedade, menor o uso do sistema. E quanto maior a ansiedade, maior a percepção de dificuldade para usá-lo. Também apareceu, na análise por subgrupos, que as servidoras relataram níveis um pouco mais altos de ansiedade que os servidores. Escrevi, na conclusão, que esses achados destacam a necessidade de suporte técnico e treinamento adequados para mitigar esses sentimentos e facilitar a transição para o novo sistema. Ou seja: encontrei ansiedade e recomendei tratá-la para que a adesão aumentasse. Hoje eu leio de outro…
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Uma senhora toma chá
Usei, num artigo sobre a invisibilidade das contribuições femininas, o livro de David Salsburg que se chama Uma Senhora Toma Chá. Escrevi que Salsburg narra a história de uma mulher cujas observações simples e rigorosas resultaram em avanços significativos para a estatística moderna, e que foram desconsideradas por causa do gênero dela. Não foi bem isso, e a história verdadeira serve melhor ao meu argumento. O episódio é dos anos vinte, em Cambridge. Numa reunião com chá, uma mulher afirmou que conseguia distinguir se o leite tinha sido colocado antes ou depois do chá na xícara. Os homens presentes acharam graça. Um deles, Ronald Fisher, não achou. Propôs testar: preparou…
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A autoavaliação que não avalia
Escrevi duas autoavaliações de disciplina durante a licenciatura, com um ano de diferença. Uma delas é o documento mais honesto que eu já entreguei a uma universidade. A outra não diz absolutamente nada. A primeira é de maio de 2022. O formulário pedia os pontos fracos do meu percurso, e eu respondi com uma lista de marcadores: o retorno presencial depois da pandemia, o acúmulo de trabalho deixado por colegas que saíram do meu setor, problemas de saúde, mortes na família, dívidas que eu não estava conseguindo pagar. E, num campo sobre estratégias de estudo, escrevi em letras maiúsculas, no meio de um documento acadêmico, que eu havia travado. A…
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Um projeto sobre cotas sem cotistas
Reli o anteprojeto que escrevi em 2017 sobre a política de cotas no campus onde trabalho, e há uma coisa nele que só se vê olhando os objetivos em bloco. Eram quatro. Estabelecer um paralelo entre as práticas organizacionais antes e depois da implementação. Verificar a correlação entre práticas organizacionais e políticas de ações afirmativas. Identificar mudanças nas práticas organizacionais e culturais na transição. Avaliar as práticas organizacionais e culturais conforme a execução da política. Quatro objetivos. Quatro vezes a expressão práticas organizacionais. Nenhum deles menciona os estudantes. O projeto pergunta o que a política de cotas fez com a instituição. Não pergunta o que ela fez com as pessoas…
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A lista
O que Humphreys produziu, no fim das contas, foi uma lista. Nomes e endereços de homens cuja exposição destruiria a vida deles. Ele nunca a divulgou, e não há registro de que alguém tenha sido prejudicado. Mas a lista existiu, e existiu porque um pesquisador teve acesso a uma coisa que aquelas pessoas só faziam sob a condição de que ninguém soubesse quem eram. E é isso que faz aquele caso continuar servindo cinquenta anos depois, mesmo para quem nunca vai fazer sociologia da sexualidade. Ele descreve uma situação que é bem mais comum do que parece: a de alguém que, por causa da própria posição, vê o que as…

























