Pólis & Gestão

Ordem, crítica social, soluções práticas. A Lente Estrutural e Social. Ordem, crítica social, soluções práticas. Esta categoria abriga a sua visão pragmática sobre como o mundo, as instituições e a sociedade devem funcionar e se organizar. É o espaço do impacto em larga escala. Abarca seus papéis de: Administrador, Gestor Público e Político. O que entra aqui: Análises sobre políticas públicas, estruturação e gestão de projetos educacionais, críticas institucionais, liderança administrativa e visões sobre a organização da cidade (a pólis).

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    Quem carrega o piano

    A atual corrida eleitoral para a Mesa Diretora da CADEESO tem mobilizado lideranças e ampliado o debate sobre o futuro da nossa convenção. Ao analisar as propostas e, sobretudo, a composição das chapas, em especial a encabeçada pelo respeitado Pr. Kemuel Sotero, deparo-me com reflexões que exigem ser compartilhadas com honestidade. O peso de um nome é importante, mas a solidez de uma instituição exige um plano de governança claro e propostas que saiam do papel. Embora a referida chapa levante frequentemente a bandeira da união, a sua estrutura revela uma contradição prática. Caso seja eleita, teremos dois pastores da mesma igreja local ocupando os cargos mais estratégicos da convenção:…

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    O corredor

    Naquela escola, todos me trataram bem. O vigilante do portão me cumprimentou e abriu para o carro entrar. A secretária me atendeu ao telefone, não sabia responder e me orientou a ligar de novo vinte minutos depois. A coordenadora marcou entrevista para a mesma tarde. Anotei tudo isso no diário e usei a palavra cordial quatro vezes em duas páginas. Menos uma vez. Num dia de aula, cheguei e fui procurar o professor de Artes. Entrei no corredor que dá na sala dos professores. E fui abordado por um professor da escola, de maneira hostil, que me questionou, com pouca educação, o que eu estava fazendo naquela área. Expliquei que…

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    Tenho como provar

    Naquele relatório de estágio, depois de listar tudo o que havia dado errado no semestre, eu escrevi esta frase: Tenho como provar os contatos que fiz e algumas negativas de escolas. Ninguém tinha me acusado de nada. O formulário não pedia comprovação. Era um campo de autoavaliação, aberto, em que o aluno relata o próprio percurso. E ainda assim eu ofereci provas. Havia motivo. Eu precisava de uma escola para estagiar e não conseguia. Procurei várias, e várias me recusaram. Consegui uma no limite do prazo. Não recebi do polo nenhum apoio prático de intermediação, e o registro disso também está no relatório, escrito com o cuidado de quem mede…

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    Pontos fracos em seu percurso

    O campo do formulário chamava-se assim: pontos fracos em seu percurso. Era um relatório de autoavaliação de estágio do curso de Teatro, dos que toda licenciatura exige. O aluno descreve o que deu errado, a coordenação lê, arquiva, e o semestre se encerra. Eu respondi com uma lista de marcadores. O retorno presencial depois da pandemia, com todas as demandas que ele trouxe de uma vez. O acúmulo de trabalho deixado por colegas que saíram do meu setor e não foram repostos. Problemas de saúde física e mental. Falecimento de parentes. Dívidas que eu não estava conseguindo pagar. Escrevi tudo isso com marcadores, um embaixo do outro, porque era o…

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    A assinatura

    Quando terminei o primeiro estágio, continuei frequentando as aulas do professor de Artes. Não era obrigado. Fiz de propósito, para não perder o contato, para que quando chegasse a hora do estágio dois eu já tivesse vínculo com a escola e não precisasse recomeçar as articulações do zero. Foi uma estratégia razoável, e ela não funcionou. A formalização do segundo estágio foi pior que a do primeiro. Liguei várias vezes para a direção. Mandei mensagem pelo aplicativo. Não obtinha resposta. Quando obtinha, a resposta era que iriam assinar. E não assinavam. E aí veio o pior. O professor me pediu que eu não fosse mais às aulas, até que o…

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    Quarenta e cinco horas

    A disciplina de Estágio Supervisionado 2 exigia quarenta e cinco horas de regência. O professor da escola me ofereceu duas aulas por turma. Eram seis turmas. Duas aulas de cinquenta minutos cada. Seiscentos minutos. Dez horas. Quarenta e cinco exigidas. Dez disponíveis. Anotei a diferença no relatório e escrevi, na frase seguinte, a única coisa que dava para escrever: considerando toda a dificuldade em se encontrar um estágio, aceitei a proposta. Aceitei porque a alternativa era não ter estágio nenhum. Eu havia procurado várias escolas antes. Várias me recusaram. Aquela foi a última que procurei e a única que me acolheu, e eu já tinha atravessado, no semestre anterior, um…

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    O documento que ninguém escreveu

    Duas observações do meu relatório de estágio, feitas com quinze dias de diferença, dizem a mesma coisa. A primeira: o projeto de desenvolvimento institucional da escola é fechado e exclui os agentes da escola de participar diretamente da sua construção. A segunda: o professor não segue o projeto de desenvolvimento institucional, e defende autonomia para escolher os conteúdos que ministra. Ninguém precisa de mestrado em gestão pública para ligar as duas frases. Mas eu tenho um, e foi ele que me fez escrever as duas. Um documento de planejamento redigido sem as pessoas que vão executá-lo não é ignorado por rebeldia. É ignorado porque não foi feito para ser executado.…

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    A caneta que escreve o valor

    Existe uma violência silenciosa que não se traduz em golpes, mas em insinuações e na presença sufocante de quem habita a obsessão pelo domínio. É a figura que se vale da hierarquia de crachá para projetar uma sombra sobre o outro, por meio de um olhar que tenta desautorizar e de um esmagamento que nunca precisa tocar ninguém. Não é apenas ocupação de espaço: é a intenção de punir a autenticidade alheia, e o incômodo com aquilo que não se consegue controlar. Nesse tribunal das aparências, características deixam de ser características e viram alvos. A cor da pele e a fé de alguém passam a ser lidas como demérito por…

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    Andaime

    Ser escolhido como o provisório pode soar como uma sentença de insignificância, uma posição que sugere substituibilidade e uma espera amarga até que o definitivo ocupe o lugar. Mas essa leitura ignora a profundidade do gesto. Há uma sabedoria em aceitar a interinidade, porque escolhas nunca são neutras. Ser o provisório é revelar uma força que o permanente raramente exige: a coragem de ser a resposta quando o futuro ainda é uma neblina. Assumir esse papel significa que, no momento crítico, você se apresentou como a solução para um vazio que não podia esperar. É um ato de resistência contra a neurose da permanência, um sinal de que, mesmo sem…

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    Catracas invisíveis

    A trajetória na carreira pública é atravessada por uma fome de expansão: a urgência de romper barreiras, dilatar o próprio conhecimento e testar os limites da própria capacidade. Movido por isso, um jovem concursado decide arriscar-se no processo seletivo de uma pós-graduação, território que prometia as chaves para o próximo salto. Sabia que pisaria fora da zona de conforto e longe do reduto das exatas, e ainda assim o frio na barriga foi engolido pelo desejo de provar a si mesmo até onde poderia chegar. O veredito das bancas foi um espetáculo. Ele não apenas garantiu a vaga: cravou o nome no topo da lista. O desempenho na prova escrita…