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O fogo pelo avesso
A rua parecia ser a mesma de sempre, mas havia um desalinho sutil na arquitetura da realidade. O carro estacionado em frente à casa não pertencia a ninguém, assim como a própria casa do vizinho era uma invenção daquela noite. Dentro do veículo, o absurdo repousava em silêncio: um animal de grande porte, um híbrido monstruoso de boi e cavalo. Era feito de carne e osso, mas carregava a frieza rígida das estátuas. Estava paralisado e, de uma forma que a razão se recusa a alcançar, pulsava de vida. Eu o observava esmagado pelo peso de uma decisão inevitável. Havia em mim uma certeza muda e absoluta: para que o…
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Nem toda brincadeira é jogo
Numa atividade da licenciatura, escrevi uma distinção que continuo achando certa. Nem toda brincadeira é jogo. E entretenimento não é jogo. O jogo do faz de conta reúne quatro coisas: improvisação, enredo, cenário e uma estrutura lógica de execução. A criança assume um personagem, define um espaço e sustenta uma regra. Isso é teatro, ainda que ninguém ali saiba a palavra. O entretenimento não pede nada disso. Ele chega pronto, com enredo, cenário e personagem já decididos por outra pessoa, e o que se espera de quem recebe é atenção. A diferença é de posição. Numa, você é autor. Na outra, você é destinatário. E aqui eu preciso confessar de…
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Dois minutos de Romeu e Julieta
Em 2024 eu quis levar teatro para dentro do instituto onde trabalho. O plano era um projeto de extensão com uma turma do curso técnico em Administração integrado ao ensino médio. Para isso existe um caminho: preencher o formulário de cadastro da ação, obter a anuência da chefia imediata, abrir processo administrativo, encaminhar ao gestor de extensão do campus, aguardar o parecer, enviar a documentação à coordenadoria de ações de extensão, aguardar de novo, e então executar. Descrevi esse percurso inteiro no relatório, com nome de setor e sigla, porque foi o que me impediu. E aí veio a greve. Noventa dias, entre março e junho, servidores federais da educação…
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A porta ficou de fora
No croqui de cenário que desenhei para um trabalho, há um elemento que eu descrevi e não desenhei. Escrevi assim: nos lados, um possível sofá à esquerda e provavelmente uma porta à direita. E depois expliquei a ausência: a porta como entrada e saída, ainda a se pensar, por isso não coloquei no desenho principal. Ainda a se pensar. Dos oito elementos daquela sala, a porta é o único que ficou fora do papel. As estantes eu desenhei. A janela, com o raio e o vento, eu desenhei. A mesa com os livros abertos, o candelabro, a xícara, a garrafa de tinta com pena, o sofá com a luz dourada:…
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O boneco está na sala
Escrevi, num comentário de disciplina sobre teatro de formas animadas, uma frase que continuo achando a coisa mais precisa que já disse sobre arte: O objetivo não é tirar as pessoas da realidade e transportá-las para um mundo fictício. É fazer o caminho inverso: trazer o mundo fictício para dentro da realidade das pessoas. Formas animadas é o nome técnico do teatro de bonecos, de objetos e de sombras. E é a única linguagem cênica em que essa inversão é literal. Porque o boneco está na sala. Ele não é imagem de um boneco. É um objeto físico, com peso, feito de pano ou madeira, que ocupa espaço no mesmo…
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Brincar dando aula
A peça do dia 13 de dezembro não aconteceu. As aulas aconteceram. Depois de todos os entraves, das assinaturas que não vinham, das quarenta e cinco horas exigidas e das dez oferecidas, do trimestre que não batia com o semestre e da negociação para entrar dentro da unidade de dança, eu finalmente entrei numa sala de aula como professor de teatro. E foi assim que registrei, no relatório final: Foi possível brincar dando aula e dar aula brincando. É a melhor frase de tudo o que escrevi naquele ano. E é a única que não descreve um problema. Trabalhei com os jogos teatrais de Viola Spolin, adaptados. E, pela primeira…
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A porta jamais se tranca
Adentrei o abismo onírico como quem capitula diante do desconhecido, cruzando o limiar de uma porta colossal de madeira envernizada, cujo toque carregava a textura do tempo esculpido. Do outro lado, uma névoa espessa e acinzentada espraiava-se, cobrindo o horizonte. Por um instante, as minhas retinas não captaram nada além da vastidão difusa. Mas um vulto cruzou o espaço, e um vento de cadência grave começou a erguer as cortinas de neblina. À medida que a ventania varria o cenário, a topografia emergia. Eu estava diante de um universo que parecia ser forjado no exato instante em que eu o contemplava. Fendas abissais e picos vertiginosos, rios que serpenteavam rumo…
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Outro costume, a mesma procura
Primeiro de Maio, 1996 — Pedra dos Búzios, Vila Velha. Mudamos para Pedra dos Búzios, em Vila Velha, e por alguns dias ficamos sem reunir. Meu pai seguia pastor pela CADEESO, mas já não estávamos no antigo ministério, a Assembleia de Deus no Alagoano, aquela que ele mesmo fundara e entregara ao pastor Manoel Samora. Foi um breve silêncio de igrejas, um intervalo entre um rebanho e outro. Não demorou e uma menina, um pouco mais velha do que eu, apareceu com um convite: “Vamos à Primeira Igreja Batista do Primeiro de Maio?” Morávamos na Alameda Caboclo Tamandaré; a igreja ficava ao fim da alameda, à direita. Pedi permissão aos…
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Linha de anzol
O céu estava azul. Algumas nuvens espalhavam-se pelo horizonte. Meu pai trabalhava fora, enquanto minha mãe, em sua labuta doméstica incansável, parecia nunca parar. Ela acordava antes de todos e só encontrava repouso muito depois que meu pai. Suas mãos moldavam o dia, enquanto meu universo infantil se desenrolava no quintal de nossa casa. Era um quintal vasto, um território onde cada grão de areia parecia ter uma história. Minha brincadeira favorita era contá-los, sem pressa, sem compromisso. Nessa vastidão, encontrei um canto especial: um amontoado de cascalhos, pedaços de lajotas e rebocos que um dia sustentaram uma casa. Agora, aquelas ruínas do passado haviam se tornado chão. Em meio…
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Eu sou um executivo
Lembro-me vividamente de uma tarde no quintal de casa, no bairro Grande Vitória. Um quintal que mais parecia uma pequena chácara, com espaços amplos. Ali havia paredes de alvenaria que seriam, no futuro, parte de uma piscina que nunca veio a existir. Naquele dia, eu segurava uma pasta executiva que pertencera ao meu pai. Uma pasta robusta, de couro preto, que ele usava para carregar papéis importantes para a igreja. Por algum motivo, a pasta havia sido descartada, e agora estava em minhas mãos. Na companhia de alguns amigos, cujos rostos e nomes o tempo apagou, olhei para aquela pasta com um misto de curiosidade e fascínio. Segurei a pasta…




























