• Filosofia & Teologia

    O que permite o progresso

    No meio de um relatório de estágio sobre jogos teatrais, escrevi um parágrafo que não tem nada a ver com teatro. Conhecer o caminho não é só um ato de seguir adiante, mas também uma ação de retrocesso. O conhecimento, inclusive, é um ato de retrocesso. É uma conversão. É um retorno ao estado anterior. É voltar e também é avançar. E terminei com a frase que resume: O que permite o progresso é o retrocesso. Escolhi a palavra conversão sem pensar, e é a palavra da minha outra vida. No púlpito, converter-se é mudar de direção. O termo bíblico traz exatamente isso: virar-se, dar meia-volta, voltar. Não é acrescentar…

  • Filosofia & Teologia

    A moral provisória

    Resumi o Discurso do Método e deixei de fora a parte que mais me diz respeito. Descartes decidiu duvidar de tudo. Suspender qualquer coisa que não se apresentasse com clareza suficiente para excluir a dúvida, e reconstruir o conhecimento a partir do que restasse. E aí ele fez uma coisa que quase ninguém comenta. Na terceira parte, antes de começar a demolição, ele adota o que chama de moral provisória: um conjunto de máximas para viver enquanto a dúvida estivesse em andamento. Decidiu obedecer às leis e aos costumes do seu país. Decidiu conservar a religião em que fora criado. Decidiu ser firme e resoluto nas ações, seguindo até as…

  • Filosofia & Teologia

    O bem que já está dentro

    A promessa central de quase todo livro de autoajuda é esta: o que você procura já está dentro de você. Basta descobrir, acreditar, cultivar. É uma frase bonita, e eu entendo por que ela vende. Ela dispensa qualquer coisa vinda de fora. Não exige pedir, não exige depender, não exige admitir falta. E é o oposto do que eu creio, e do que eu vi. Escrevi, em outro lugar, que a graça não opera no clube dos autossuficientes. Ela opera no solo dos quebrantados. E escrevi que Deus convoca a pessoa na condição de ruína, sem exigir que ela se apresente melhorada primeiro. Isso não é humildade retórica. É uma…

  • Filosofia & Teologia

    Roberto e Clarisse

    Terminei o trabalho de conclusão da licenciatura em Teatro. Quase cem páginas sobre o corpo silenciado e o corpo percebido, com dez estudantes, um semestre de encontros e uma peça apresentada. Ao longo do trabalho inteiro, cinco estudantes falam. Chamei-os de Ana, Lucas, Júlia, Joana e Luiza, nomes fictícios, como declarei numa nota. E no penúltimo parágrafo aparecem mais dois. Roberto, dizendo que nunca tinha prestado atenção no que o outro sentia enquanto atuava. Clarisse, dizendo que o corpo começou a falar sozinho. Roberto e Clarisse não existem em nenhum outro lugar do trabalho. Não estão na metodologia, não estão na análise, não estão na tabela de categorias, não estão…

  • Filosofia & Teologia

    Não por falta de entendimento

    Kant define menoridade como a incapacidade de servir-se do próprio entendimento sem a direção de outro. E acrescenta uma cláusula que muda tudo. Ele diz que essa menoridade é culpada quando a causa não está na falta de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem para usá-lo sem a direção alheia. Não é burrice. É medo. Por isso o lema que ele dá ao esclarecimento não é uma exortação a estudar. É uma exortação a ousar: tem coragem de te servires do teu próprio entendimento. Li isso, resumi para uma disciplina e não parei um segundo na palavra culpada. Deveria ter parado, porque essa é a acusação exata…

  • Filosofia & Teologia

    O que a síntese não conta

    Resumi para uma disciplina o estudo de Laud Humphreys sobre encontros sexuais anônimos entre homens em banheiros públicos, publicado em 1970. Escrevi que a metodologia foi ousada e controversa, e que o trabalho levanta questões éticas relacionadas à privacidade dos participantes. Está tudo errado por omissão, e a omissão é justamente o que faz aquele estudo ser lembrado. O que aconteceu foi o seguinte. Humphreys se colocou no papel de vigia, a pessoa que fica na porta e avisa quando a polícia se aproxima. Isso lhe deu acesso de observador sem participar dos atos. Até aqui, é observação encoberta de comportamento em espaço público, e há discussão legítima sobre isso.…

  • Filosofia & Teologia

    Um pastor que tem consciência por mim

    Kant explica por que é tão confortável permanecer na menoridade, e dá três exemplos. Se eu tenho um livro que entende por mim, um diretor espiritual que tem consciência por mim, e um médico que decide a minha dieta por mim, então não preciso me esforçar. Não preciso pensar, contanto que possa pagar. Outros se encarregarão do negócio incômodo. O segundo exemplo é o meu ofício. Prego há mais de vinte anos. Todo domingo, alguém senta num banco e recebe de mim uma leitura do mundo já organizada. E boa parte do que se espera de um pastor é exatamente isso: que ele resolva a questão, que diga o que…

  • Filosofia & Teologia

    Um diálogo sem diálogo

    Escrevi um resumo de O Sobrinho de Rameau, de Diderot, e não usei uma única fala. O texto de Diderot é um diálogo. É a forma inteira dele. Duas vozes numa mesa de café, marcadas apenas como Eu e Ele: de um lado o filósofo, do outro o sobrinho do célebre compositor, músico fracassado, parasita profissional, que vive das mesas alheias e sabe disso. Eles conversam, discordam, se interrompem, e o sobrinho, num certo momento, se levanta e imita uma ópera inteira, fazendo com o corpo os instrumentos e as vozes, no meio do estabelecimento, enquanto as pessoas olham. É por essa cena que o livro é lembrado. E eu…

  • Educação & Cuidado

    O livro que ficou na bibliografia

    Escrevi um ensaio sobre educação inclusiva e teatro. Doze páginas, dez referências, e uma tese: que o teatro é uma metodologia inclusiva capaz de promover o desenvolvimento de alunos com deficiência. Na bibliografia, no fim de tudo, há uma última entrada que não aparece nenhuma vez no corpo do texto. É um livro chamado A cena contaminada: um teatro das disfunções. Eu o listei e não o abri. E o título sozinho já fazia a pergunta que o meu ensaio inteiro não fez. Porque o meu ensaio parte de um pressuposto que parece generoso e não é. Ele supõe que existe o teatro, que é uma coisa pronta, e que…

  • Educação & Cuidado

    Sapatilha de ponta

    Em um projeto de curso de dança que desenvolvi, a aula cinco era sobre ballet clássico. Escrevi que exploraríamos os princípios do ballet, como postura, alinhamento e técnicas de ponta. E que faríamos exercícios de barra e de centro, desenvolvendo a técnica e a graciosidade do movimento. Sessenta minutos. Turma de sexto ano. Escola pública. Trabalho de ponta é uma das coisas mais exigentes que existem na dança. Exige anos de preparo anterior, força de tornozelo construída aos poucos, e maturação óssea que nem toda criança de onze anos alcançou. Uma professora de ballet responsável leva anos decidindo quando uma aluna pode subir na ponta, e às vezes decide que…