A porta jamais se tranca
Adentrei o abismo onírico como quem capitula diante do desconhecido, cruzando o limiar de uma porta colossal de madeira envernizada, cujo toque carregava a textura do tempo esculpido. Do outro lado, uma névoa espessa e acinzentada espraiava-se, cobrindo o horizonte. Por um instante, as minhas retinas não captaram nada além da vastidão difusa. Mas um vulto cruzou o espaço, e um vento de cadência grave começou a erguer as cortinas de neblina.
À medida que a ventania varria o cenário, a topografia emergia. Eu estava diante de um universo que parecia ser forjado no exato instante em que eu o contemplava. Fendas abissais e picos vertiginosos, rios que serpenteavam rumo ao nada, mares que esticavam os limites da sanidade. A fronteira entre a terra e o céu era uma linha tênue. O silêncio foi engolido por uma frequência profunda, um ritmo que conectava o magma da terra ao pulsar das minhas veias.
Era como se eu tivesse invadido a sala de máquinas da própria existência.
Quando olhei por cima do ombro, tateando em busca da porta de entrada, ela havia sido obliterada.
A claridade cedeu lugar a uma penumbra densa, convertendo os ruídos em sussurros. A sensação era a de penetrar em uma caverna alojada dentro do próprio sonho, um santuário subterrâneo de galerias infinitas. A cada avanço, um novo murmúrio emergia, soando como uma memória longínqua a soprar o meu nome. Era um convite para seguir adiante e perder-me de forma voluntária.
E assim continuei a marchar no escuro, desprovido de mapas. Cada travessia é um chamado para mapearmos a vastidão selvagem que nos habita.
Naquele espaço inominável, compreendi que a verdadeira porta jamais se tranca.


