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A Casa da Vovó nos anos 1990-2002
Existe um tipo de felicidade que só se reconhece depois. Enquanto está acontecendo, ela não tem nome, é apenas o estado natural das coisas, o ar que se respira sem perceber que é ar. Só mais tarde, quando o tempo a transforma em memória e a memória em saudade, é que ela ganha o seu contorno exato. É só de longe que se vê a forma do que se foi. Meus dias mais felizes foram quando eu ainda não tinha uma imagem ruim do ser humano. Quando acreditava, com aquela crença que não precisa de argumento porque nunca foi testada, que as pessoas são boas. Que o mundo as recebe…
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O Mapa no Sofá Vermelho
Há uma forma de espera que não se admite. A espera que se disfarça de presença, o corpo na sala, o livro na mão, os olhos fingindo que leem enquanto na verdade apenas aguardam. Aguardam um som, um movimento, um sinal de que ela acordou, de que se levantou, de que o dia finalmente começou de verdade. Porque há dias que só começam quando ela aparece. Esse é um dado que o orgulho recusa registrar, mas que o corpo anota com precisão contábil. Ela me influenciava. Eu sabia disso. Saber não ajudava. O som veio da sala. Ela estava ali, deitada em cima do sofá vermelho naquela pequena sala que…
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O Leviatã Invisível: A Biblioteca Fraturada e a Ilusão do Tempo
Houve uma época em que a memória operava como uma biblioteca meticulosamente organizada. Até o limiar de 2008, cada lembrança minha possuía uma lombada de couro com o ano gravado a ouro. Eu podia caminhar por esses corredores mentais, retirar um volume da prateleira e saber exatamente onde cada evento começava e terminava. O tempo era uma estrada reta, e eu, um caminhante seguro com um mapa confiável nas mãos. Mas, a partir de 2010, a bússola magnética da mente entrou em colapso. Não sei dizer com precisão em qual curva o ponteiro do relógio quebrou. Parece que o tempo deu um salto no escuro e, ao aterrissar, espalhou todas…
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O Beco de Barro e Pedra: A Travessia e o Batismo de Spagnal
No meu mundo, ao adentrar aquela rua de paralelepípedos banhada em tons de amarelo e alaranjado, tingida pelo barro que sangrava da encosta de pedra à direita, senti a espinha vibrar. Foi ali, na quebrada exata entre a saída da Vila Batista e a entrada de Pedra dos Búzios, que o fascínio me tomou de assalto. Parecia que eu acabara de cruzar um limiar invisível, inaugurando a força de um ciclo de possibilidades inéditas. Fizemos a travessia a pé, eu e meus pais, caminhando em direção ao que seria o nosso novo lar. Mas nós não apenas chegamos; nós avançamos para além da margem. Fomos tateando cada vez mais fundo,…
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A Cartografia do Pão: Fornos Anônimos e a Liturgia do Cotidiano
Quando nos reuníamos na Assembleia de Deus do morro do Alagoano, houve um tempo em que celebrávamos em frente às casas de Dona Rosa (em memória) e do Natalino, o Natal. A igreja também se abrigava na casa de Dona Menininha. Havia uma geografia peculiar naquelas ladeiras: saíamos da rua principal que contornava o campo de futebol, descíamos alguns degraus e, logo à direita, ficava a casa da Dona Menininha; à esquerda, a de Dona Rosa, que nutria um grande apreço pelo meu pai. Se seguíssemos um pouco mais, a escadaria cedia lugar ao chão de terra batida. Ali, à beira do caminho, erguia-se uma casa de portão gradeado. Diziam…
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O Túmulo Digital e a Ilusão das Urgências
Há poucos dias, vasculhando os arquivos mais antigos deste site em um exercício de nostalgia e limpeza, tropecei em um túmulo digital. Era uma postagem minha, feita há muitos anos, composta apenas por uma breve frase e um link de vídeo. A legenda, escrita com o ardor típico de quem acaba de descobrir algo revolucionário, trazia um ultimato: “Ouça essa pregadora, uma mensagem que todos precisam ouvir”. O problema? O vídeo não existe mais. A tela exibe apenas o cinza opaco do erro de reprodução, o atestado de óbito de um arquivo deletado em algum servidor esquecido. Não me lembro do rosto da pregadora. Não me lembro da sua voz,…
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O Chocolate Curvado
Há uma forma de presença que não é desejo. Ou melhor, é desejo, mas domesticado por algo maior que ele. Governado. Conduzido pela mão firme do respeito, da responsabilidade, da consciência de que certas distâncias não existem para ser vencidas, mas para ser honradas. E há uma nobreza específica nesse tipo de contenção, não a nobreza fácil de quem não sente, mas a nobreza difícil de quem sente e mesmo assim escolhe não avançar. Não era aversão. Era precisamente o oposto. Era o temor que nasce da estima, esse medo delicado de comprometer o que existe pelo que poderia existir. A fala era pouca. O trato, cuidadoso. A conduta permeada…
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O Choro do Meu Pai: Quando a Dor Visita os Fortes
Era uma manhã comum, ou pelo menos parecia ser. Estava sentado no tapete da sala, olhando ao redor com o olhar curioso e atento de criança. À minha esquerda, a estante com o aparelho de som repousava imóvel, como um guardião silencioso. Daquele ângulo, podia ver a porta, uma parte do meu quarto, o quarto dos meus pais e o corredor que levava à copa. Tudo parecia em seu lugar, um retrato de normalidade que logo seria interrompido. Foi então que ouvi um som inesperado. Um choro. Mas não era um choro qualquer, era potente, profundo, o tipo de choro que carrega o peso de algo irreparável. Virei a cabeça…
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A Música e a Infância: Uma Sala, um Som, e o Tempo que não Corria
Na sala de minha casa, no segundo andar, no bairro Grande Vitória, o relógio não era um adversário. O tempo não tinha pressa, as horas não eram perseguidas, e a ansiedade, essa palavra tão comum agora, não existia. Naquele espaço, onde o simples reinava, a vida acontecia com a leveza de um disco girando no aparelho de som. O toca-discos era um dos objetos mais valiosos da casa, um verdadeiro altar da memória sonora. Lá estavam os LPs evangélicos, discos que não sei se papai e mamãe compraram ou ganharam, mas sei que estavam ali, preenchendo aquele ambiente com hinos que ecoam até hoje em mim. Era uma sala comum,…


























