Filosofia & Teologia
A Lente Investigativa e Espiritual. Profundidade, sentido, rigor acadêmico. Aqui reside a sua busca pela verdade, pelo sentido e pelas bases do pensamento humano e divino. É o seu espaço de maior densidade teórica. Abarca seus papéis de: Filósofo, Teólogo e Pesquisador. O que entra aqui: Ensaios sobre epistemologia, análises éticas, estudos teológicos aprofundados, recortes da sua pesquisa acadêmica de doutorado e reflexões sobre a condição existencial humana.
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Anima
Escrevi, numa resenha sobre teatro de bonecos, que no teatro de formas animadas a anima é o ator-manipulador. Que ele é o agente alma, o espírito que dá dinâmica à arte. Escolhi essa palavra sem pensar, e ela é a raiz de tudo. Animar é dar alma. Anima, em latim, é sopro, é aquilo que faz respirar. Formas animadas não são formas que se movem: são formas que receberam alma de alguém que tinha alma para dar. E o gesto é sempre o mesmo. Alguém pega uma coisa que não vive, pano, madeira, papelão, e sopra dentro dela alguma coisa que não estava lá. A matéria é inerte antes e…
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Não lembro quem era
Em 2010 escrevi um texto de despedida. Falava de constelações, de chuva tentando redesenhar traços no chão, de um reencontro futuro. Falava das digitais de amor que alguém tinha deixado impressas na minha pele. Reencontrei esse texto agora, ao revisar os arquivos antigos. A dor daquela época está inteira ali dentro, e era grande. Não lembro para quem escrevi. Não sei se a pessoa morreu ou se apenas foi embora. Hoje dói outra coisa: ter esquecido quem deixou marcas que eu jurei que não sairiam. Guardei o texto. Não guardei a pessoa.
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Talvez por medo, talvez por fé
Aos vinte e um anos eu via as moças no culto e não dirigia a palavra a nenhuma. Pedia que Deus escolhesse. Escrevi, naquele mesmo ano, uma frase que não consegui melhorar em duas décadas: assim me escondia atrás dessa verdade, talvez por medo, talvez por fé. Elas foram embora sem que eu conhecesse suas vozes. A frase permaneceu porque o problema permaneceu. Existe um silêncio que guarda e existe um silêncio que foge, e por dentro os dois são idênticos. Usam o mesmo vocabulário. Explicam-se com prudência, com espera, com discernimento, com confiança no tempo de Deus. Quem está calado por covardia não sente covardia: sente serenidade, ou coisa…
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O que permite o progresso
No meio de um relatório de estágio sobre jogos teatrais, escrevi um parágrafo que não tem nada a ver com teatro. Conhecer o caminho não é só um ato de seguir adiante, mas também uma ação de retrocesso. O conhecimento, inclusive, é um ato de retrocesso. É uma conversão. É um retorno ao estado anterior. É voltar e também é avançar. E terminei com a frase que resume: O que permite o progresso é o retrocesso. Escolhi a palavra conversão sem pensar, e é a palavra da minha outra vida. No púlpito, converter-se é mudar de direção. O termo bíblico traz exatamente isso: virar-se, dar meia-volta, voltar. Não é acrescentar…
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A moral provisória
Resumi o Discurso do Método e deixei de fora a parte que mais me diz respeito. Descartes decidiu duvidar de tudo. Suspender qualquer coisa que não se apresentasse com clareza suficiente para excluir a dúvida, e reconstruir o conhecimento a partir do que restasse. E aí ele fez uma coisa que quase ninguém comenta. Na terceira parte, antes de começar a demolição, ele adota o que chama de moral provisória: um conjunto de máximas para viver enquanto a dúvida estivesse em andamento. Decidiu obedecer às leis e aos costumes do seu país. Decidiu conservar a religião em que fora criado. Decidiu ser firme e resoluto nas ações, seguindo até as…
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O projeto que virou outra tese
Encontrei, revirando arquivos, um projeto de pesquisa de doutorado que escrevi e que não é o doutorado que eu faço. A pergunta de pesquisa daquele projeto era esta: Como a produção artística pode contribuir para a formação de subjetividades críticas e sensíveis nas práticas educacionais? O projeto queria estudar o que a arte faz com uma pessoa. Como a experiência estética muda o jeito de alguém olhar o mundo. Como a formação de um sujeito sensível acontece, e o que a escola tem a ver com isso. A tese que eu escrevo hoje investiga outra coisa: O que acontece quando o processo se emancipa do propósito. Levei um tempo para…
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O bem que já está dentro
A promessa central de quase todo livro de autoajuda é esta: o que você procura já está dentro de você. Basta descobrir, acreditar, cultivar. É uma frase bonita, e eu entendo por que ela vende. Ela dispensa qualquer coisa vinda de fora. Não exige pedir, não exige depender, não exige admitir falta. E é o oposto do que eu creio, e do que eu vi. Escrevi, em outro lugar, que a graça não opera no clube dos autossuficientes. Ela opera no solo dos quebrantados. E escrevi que Deus convoca a pessoa na condição de ruína, sem exigir que ela se apresente melhorada primeiro. Isso não é humildade retórica. É uma…
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A rota herdada
Existem dois procedimentos para a mesma morte. O primeiro acontece numa sala de espera e num balcão de cartório. Tem papel amarelo, carimbo, assinatura e um verbo próprio: averba-se. É rápido, é frio e é indispensável. Sem ele, o corpo não é liberado e a vida não é encerrada aos olhos do Estado. Atravessei esse primeiro procedimento na terça-feira, ao lado da minha mãe. O segundo acontece numa igreja. Não libera nada, não registra nada, não produz nenhum documento. E, sem ele, ninguém consegue seguir em frente. O velório é a parte inútil, no sentido exato em que a burocracia entende utilidade. Ninguém precisa cantar para que uma pessoa seja…
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Eu estudei o relógio de ponto
Em 2020 eu defendi um mestrado em Gestão Pública. O objeto era o módulo de registro eletrônico de frequência implantado no sistema de recursos humanos do instituto federal onde trabalho. O ponto eletrônico dos servidores. A pergunta era como os fatores psicossociais influenciavam a intenção de uso daquele sistema. Apliquei um questionário a 446 servidores, usei modelagem de equações estruturais e testei onze hipóteses sobre atitude, autoeficácia e ansiedade. Hoje eu escrevo um doutorado sobre racionalização e sistemas algorítmicos na educação. Levei seis anos para perceber que é o mesmo assunto, e que eu mudei de lado. O relógio de ponto é a racionalização na forma mais pura que existe.…
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Ler Weber por um brasileiro
Em um projeto de pesquisa não tinha pesquisa dentro. Mas tinha uma intuição, e a intuição era boa. A ideia era ler Max Weber através de Mário Ferreira dos Santos. Weber é o autor central da minha área. Racionalização, desencantamento. Mário Ferreira dos Santos é um filósofo brasileiro, gaúcho, que morreu em 1968 depois de produzir uma obra de dimensões quase impossíveis, incluindo uma enciclopédia filosófica escrita praticamente sozinho. Ele está fora do cânone universitário brasileiro. É pouco citado em programas de pós-graduação, quase não aparece em bibliografia de disciplina, e circula sobretudo fora da academia. E a ideia de ler um clássico europeu através de um pensador brasileiro é…




























