Artes & Narrativas

Ele foi legião

Ele não alimentava sonhos fáceis de travesseiro, mas daqueles que exigem vigília crônica: desejos que esticam o corpo para muito além das fronteiras do presente.

Entre os seis e os nove anos de idade, ele foi legião. Viu-se executivo, o primeiro e mais fulminante clarão, pastor adornado por dons, bombeiro, militar de todas as fardas, administrador, político, médico e juiz, gari, cantor, estrangeiro na Europa e filósofo. Tantas vidas desfilaram por dentro do seu peito, e diante do espelho inflexível do tempo ele não pôde ser todas elas.

Ao cruzar o marco dos quarenta anos, foi assaltado pela vertigem de que a vida correu sem jamais autorizar um pouso. Carrega a convicção sombria de ter desperdiçado duas décadas, sangrando por feridas de infância que o tempo não cauterizou. O futuro era um credor sempre convocado; o presente, um prato servido quase sem sabor.

Há, no centro da sua arquitetura interna, um lugar vago, uma peça teimosa fora do encaixe.

Quando a mãe indagava o que ele seria ao crescer, a pergunta brilhava com a força de um destino inegociável. Ele sentia-se talhado para a grandeza. A desilusão veio a galope: percebeu que possuía apenas fagulhas, não a completude do fogo. Ao deparar-se com pessoas mais fluentes, mais polidas, o seu chão cedeu.

A vergonha instalou-se como inquilina. Vergonha do próprio rosto, da voz, do corpo, do sobrenome e da casa. Acovardou-se em fotografias sombreadas e em textos herméticos que camuflavam a dor. Ao lado de amigas bonitas, o pavor de sair torto na foto o encolhia. Houve uma época de pregações fervorosas, mas nos bastidores a autoconfiança nunca comparecia ao culto. Líderes o empurraram para fora da moldura, julgando-o incapaz, enquanto ele soava ambíguo e esquisito aos próprios ouvidos.

Ainda hoje é refém da alfândega do olhar alheio. Escava obcecadamente o passado e projeta o futuro, pagando o preço com a perda do agora.

Queria possuir uma planta baixa dos seus cômodos internos, para saber exatamente o que cada um guarda em segredo. Recorda as pessoas que poderiam ter sido e assombra-se com aquelas que ele próprio recusou. Doeu-lhe a alma constatar que quem o rejeitou encontrou a prosperidade, assim como doeu saber que quem ele rejeitou naufragou.

Poderia ter sido diferente é o mantra que o tortura.

O medo, outrora um visitante, tornou-se o seu hábito mais enraizado. Medo de tocar, de abraçar, de sentir, de falar e de assumir o próprio tamanho.

No rigoroso tribunal de si mesmo, falta a peça e falta o gesto capaz de encaixá-la.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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