A Síndrome da Peça Faltante: O Inventário das Ausências aos Quarenta Anos
Ele não alimentava sonhos fáceis de travesseiro, mas daqueles que exigem vigília crônica: desejos que esticam o corpo para muito além das fronteiras do presente. Entre os seis e os nove anos de idade, ele foi legião. Viu-se executivo, o primeiro e mais fulminante clarão, pastor adornado por dons, bombeiro, militar de todas as fardas; administrador, político, médico e juiz; gari, cantor, estrangeiro na Europa e filósofo. Tantas vidas desfilaram por dentro do seu peito, mas, diante do espelho inflexível do tempo, ele não pôde ser todas elas.
Ao cruzar o marco dos quarenta anos, foi assaltado pela vertigem de que a vida correu sem jamais autorizar um pouso. Carrega a convicção sombria de ter desperdiçado duas décadas, sangrando por feridas de infância que o tempo não cauterizou. Desde 2008, o seu roteiro tem sido uma sucessão de ápices e quedas, vitórias das quais se furtou a celebrar, opressões silenciosas e os traços indeléveis do trauma. O futuro era um credor sempre convocado; o presente, um prato servido quase sem sabor. Há, no centro da sua arquitetura interna, um lugar vago, uma peça teimosa fora do encaixe. Ele recusa-se a morrer sem antes encontrá-la, caçando desesperadamente a significação de existir.
Quando a mãe indagava o que ele seria ao crescer, a pergunta brilhava com a força de um destino inegociável. Ele sentia-se talhado para a grandeza. A desilusão veio a galope: percebeu que possuía apenas fagulhas, não a completude do fogo. Ao deparar-se com pessoas mais fluentes, mais belas, polidas por múltiplos idiomas, o seu chão cedeu. A vergonha instalou-se como inquilina: vergonha do próprio rosto, da voz, do corpo, do sobrenome e da casa. Acovardou-se em fotografias sombreadas e em textos herméticos que camuflavam a sua dor. Ao lado de amigas bonitas, o pavor de sair “torto” na foto o encolhia perante o mundo. Houve uma época de pregações fervorosas, mas, nos bastidores, a autoconfiança nunca comparecia ao culto. Líderes o empurraram para fora da moldura, julgando-o incapaz, enquanto ele soava ambíguo e esquisito aos próprios ouvidos.
Ainda hoje, ele é refém da alfândega do olhar alheio. Escava obcecadamente o passado e projeta o futuro, pagando o preço com a perda absoluta do agora. O tempo escorre, e a incompletude faz morada. Na infância, tateando na neblina dos preconceitos da época, a mãe quis saber se ele escolheria uma moça preta para casar; ele respondeu que a estética era indiferente. Mais tarde, quando o desejo se materializou, a realidade lhe negou a posse. Recorda as mulheres que poderiam ter sido; assombra-se com aquelas que ele próprio rejeitou. Chama a si mesmo de tolo. Queria possuir uma planta baixa dos seus cômodos internos para saber exatamente o que cada um guarda em segredo. Doeu-lhe a alma constatar que quem o rejeitou encontrou a prosperidade, assim como doeu saber que quem ele rejeitou naufragou. “Poderia ter sido diferente”, é o mantra que o tortura.
O medo, outrora um visitante, tornou-se o seu hábito mais enraizado: medo de tocar, de abraçar, de sentir, de falar e de assumir o próprio tamanho. Essa corrosão insiste. Sente-se aprisionado, ferindo a mulher que dorme ao seu lado por não conseguir entregar o amor na voltagem que ela espera. Ele implora aos céus por um mapa que o tire desse buraco. E, no escuro, enumera as suas falhas: convence-se de que não está com a mulher idealizada, nem tão feliz quanto os manuais exigem; lamenta não morar na casa dos sonhos, não dirigir o carro de luxo, não oferecer aos pais o orgulho inatingível que projetou, nem à filha a educação utópica que desenhou. Acredita não ocupar o emprego que a sua mente infantil exigiu. Para ele, no rigoroso tribunal de si mesmo, falta a peça e falta o gesto capaz de encaixá-la.
Chegar à marca dos quarenta anos costuma nos colocar frente a frente com o tribunal implacável das nossas próprias idealizações. É o momento em que comparamos o “currículo” do que sonhávamos ser com o saldo do que realmente nos tornamos. Muitas vezes, a sensação de que “falta uma peça” nos impede de celebrar as montanhas que já escalamos. Você já sentiu que o peso do que você “poderia ter sido” está roubando o sabor e a paz do que você é hoje? A caixa de comentários é o nosso espaço de acolhimento e reflexão.


