Artes & Narrativas
A Lente Criativa. Emoção, histórias, reflexão estética. Esta é a casa da palavra viva, do entretenimento com profundidade e da catarse. É onde o leitor vai para se emocionar e ser transportado. Abarca seus papéis de: Escritor de Literatura e Teatro. O que entra aqui: Contos, crônicas, roteiros, peças teatrais, poemas, críticas literárias e reflexões sobre o processo de escrita e a dramaturgia da vida.
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A Casa da Vovó nos anos 1990-2002
Existe um tipo de felicidade que só se reconhece depois. Enquanto está acontecendo, ela não tem nome, é apenas o estado natural das coisas, o ar que se respira sem perceber que é ar. Só mais tarde, quando o tempo a transforma em memória e a memória em saudade, é que ela ganha o seu contorno exato. É só de longe que se vê a forma do que se foi. Meus dias mais felizes foram quando eu ainda não tinha uma imagem ruim do ser humano. Quando acreditava, com aquela crença que não precisa de argumento porque nunca foi testada, que as pessoas são boas. Que o mundo as recebe…
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A Teologia do Portão: A Prece Cruzada e a Solidariedade de Trincheira
O lar, outrora um refúgio seguro de obviedades cotidianas, torna-se um palco estranho e hostil no dia do luto. Dentro de casa, depois que os papéis amarelos são assinados, a burocracia emocional finalmente nos alcança. Minha esposa, numa tentativa terna e inquieta de atenuar o peso esmagador do ambiente, tentou preencher o vazio com o som das pequenas coisas. A morte deixa um eco ensurdecedor nas paredes, e nós tentamos, em vão, abafá-lo com os ruídos da normalidade. Mas o cansaço da alma cobrou o seu preço; ela preferiu se ausentar, recolhendo-se na quietude do quarto para encontrar os seus próprios contornos e processar a dureza do dia. Os meus…
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O Peso do Quase e o José de Arimatéia Moderno: A Burocracia do Fim
Hoje, exatamente hoje, a morte atravessou a minha sala. Meus olhos arderam, as bochechas contorceram-se num reflexo involuntário da alma, e as lágrimas, pesadas, traçaram o caminho inegável da perda. Minha avó cruzou a porta. Passou pelo rio, passou pelo mar. Foi desaguar em um oceano onde o meu alcance humano já não existe. A dor maior, o espinho que fica cravado na garganta, é o peso do “quase”. Eu havia desenhado na mente um roteiro de afeto e redenção: queria pegá-la pelo braço e levá-la a lugares onde os seus pés cansados nunca haviam pisado. Minha intenção era surpreendê-la com algum conforto material, um bom plano de saúde, alguém…
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O Oceano e o Iceberg: A Técnica e a Planilha dos Nossos Afetos
A chuva espancava a janela com uma cadência que, de certa forma, emulava o tique-taque inflexível de um relógio. Da minha cadeira, eu observava a coreografia da rua lá embaixo: o fluxo contínuo dos carros, os semáforos alternando as suas cores com uma precisão milimétrica, os guarda-chuvas que desabrochavam quase em uníssono ao primeiro sinal do temporal. A mente, sempre viciada na concretude tátil do mundo, logo sussurrou a palavra mais óbvia e preguiçosa para descrever o cenário: máquinas. É assustadoramente fácil olhar para o nosso tempo e transferir a culpa para o aço, para o silício e para os motores. Crescemos condicionados a acreditar que a tecnologia é apenas…
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O Teatro das Sombras e a Coragem da Horizontalidade
A pesada porta de madeira cedeu com um rangido arrastado, revelando as entranhas de um teatro abandonado. Eu não fazia ideia de como havia chegado ali, mas o cheiro de poeira suspensa e veludo mofado era inconfundivelmente real. Como de costume, entrei de cabeça baixa. Meus olhos rastreavam o chão, os rodapés e as pontas dos meus próprios sapatos. Era um vício antigo: caminhar encolhido, como se tentar ocupar menos espaço no mundo me garantisse o benefício da invisibilidade. Sentei-me na última fileira, abrigado na poltrona mais escura que encontrei. Foi então que as luzes do palco estalaram, rasgando a penumbra. Lá em cima, sob o foco de uma luz…
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A Criatura Estava Viva no Veículo. O Que Fiz a Seguir Explica o Medo Humano
A rua parecia ser a mesma de sempre, mas havia um desalinho sutil na arquitetura da realidade. O carro estacionado em frente à casa não pertencia a ninguém, assim como a própria casa do vizinho era uma invenção daquela noite. Dentro do veículo, o absurdo repousava em silêncio: um animal de grande porte, um híbrido monstruoso de boi e cavalo. Era feito de carne e osso, mas carregava a frieza rígida das estátuas. Estava paralisado, mas, de uma forma que a razão se recusa a alcançar, pulsava de vida. Eu o observava esmagado pelo peso de uma decisão inevitável. Havia em mim uma certeza muda e absoluta, quase um dogma…
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A Métrica da Cegueira: O Homem na Prisão dos Gráficos
O escritório de Inácio cheirava a café oxidado e papel carbono. Sobre a sua mesa, relatórios empilhavam-se em torres cinzentas que ameaçavam desabar a qualquer instante. Ele ocupava a cadeira de Analista Chefe do Departamento de Medição do Progresso, um cargo que, segundo a cúpula do governo, era o coração pulsante da nação. Para Inácio e os seus pares, o mundo era de uma assepsia reconfortante: o “progresso técnico” reduzia-se a uma linha em um gráfico que tinha a obrigação moral de apontar sempre para cima. E como se mensura tal grandeza? Com toneladas de aço escoadas, sacas de grãos empilhadas e a fúria rítmica das linhas de montagem. Naquela…
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O Mapa no Sofá Vermelho
Há uma forma de espera que não se admite. A espera que se disfarça de presença, o corpo na sala, o livro na mão, os olhos fingindo que leem enquanto na verdade apenas aguardam. Aguardam um som, um movimento, um sinal de que ela acordou, de que se levantou, de que o dia finalmente começou de verdade. Porque há dias que só começam quando ela aparece. Esse é um dado que o orgulho recusa registrar, mas que o corpo anota com precisão contábil. Ela me influenciava. Eu sabia disso. Saber não ajudava. O som veio da sala. Ela estava ali, deitada em cima do sofá vermelho naquela pequena sala que…
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A Escada Escura: O Porão da Memória e os Trilhos do Destino
Ouço um ruído surdo que ecoa lá do fundo do peito. Quando fecho os olhos, materializo-me subitamente no topo de uma escada. A minha visão projeta-se de cima para baixo, e é para o abismo que eu olho. Vejo uma escada preta: o piso de pedra escura, o corrimão absorvendo as sombras, uma casa desprovida de iluminação. A única coisa que emite uma leve claridade é a própria escada, exercendo uma gravidade íntima que me convida à descida. De olhos fechados, a visão se expande, e eu desço. Cada degrau é um ano. Um ano de solidão, de caminhada tateante, na tentativa desesperada de capturar quem sou nos escombros do…
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A Vertigem do Degrau: A Anatomia de uma Queda e a Ilusão do Controle
Quando somos submetidos à restrição, a tendência imediata é fixarmos o olhar naquilo que nos falta, tornando-nos subitamente cegos ao que já possuímos. É uma miopia existencial notória: a ênfase na escassez perfura o nosso senso de pertencimento e nos empurra a buscar abrigo naquilo a que não pertencemos. É nesse estágio de vulnerabilidade que surgem as pequenas oportunidades — ínfimas, se comparadas ao alvo que nossa alma realmente almejava. Na sabedoria popular, usa-se a metáfora da escada: “Você não alcançou o topo, mas é de degrau em degrau que se chega lá”. Agarrado a essa premissa, convenci-me de que aquela pequena oportunidade era apenas uma fase, um trampolim para…

























