Artes & Narrativas
A Lente Criativa. Emoção, histórias, reflexão estética. Esta é a casa da palavra viva, do entretenimento com profundidade e da catarse. É onde o leitor vai para se emocionar e ser transportado. Abarca seus papéis de: Escritor de Literatura e Teatro. O que entra aqui: Contos, crônicas, roteiros, peças teatrais, poemas, críticas literárias e reflexões sobre o processo de escrita e a dramaturgia da vida.
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O terceiro ato
Fiz um fichamento sobre construção de roteiro e anotei a estrutura clássica. Primeiro ato: apresentam-se os personagens, o mundo e o conflito central. Segundo ato: o conflito se desenvolve e surgem os obstáculos. Terceiro ato: o conflito se resolve e a história se encerra. É o desenho que sustenta quase tudo o que se conta no ocidente, e ele funciona. Um filme sem terceiro ato deixa a plateia irritada. Uma peça sem terceiro ato parece inacabada. E eu passei o último ano descobrindo que os meus melhores textos não têm o terceiro. Reli tudo o que escrevi desde 2006. E o que fui encontrando, texto após texto, era o mesmo…
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Ninguém ali conhece Oprah
Abra qualquer livro de autoajuda brasileiro no capítulo dos exemplos inspiradores e você vai encontrar as mesmas pessoas. Oprah Winfrey. Nelson Mandela. Malala. Madre Teresa. Steve Jobs. Um monge budista, geralmente Thich Nhat Hanh. São pessoas admiráveis, e nenhuma delas mora aqui. Reparei nisso porque passei o último ano relendo tudo o que escrevi em vinte anos, e os meus exemplos são outros. Um padeiro demitido no morro do Alagoano, que acendeu o forno em casa e passou a vender pão doce pelas frestas de um portão gradeado que nunca abria. Um professor de Artes de escola pública que comprou uma caixa de lápis de cor com mais de sessenta…
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As perdas rimam
Tenho habitado a convicção de que a sinfonia da vida só atinge a sua plenitude porque não hesita em acolher tanto os acordes dissonantes quanto os suaves. É o entrelaçar dessas notas opostas que confere gravidade ao choro de quem sofre e leveza ao riso de quem celebra. Aceitar a autoria dessa composição implica reconhecer que não nos é dado o luxo de escolher apenas os trechos fáceis. Hoje, enquanto a minha pauta toca acordes irremediavelmente tristes, a memória reverbera em uma simetria impressionante. A notícia dolorosa me alcançou pela voz da minha esposa, ao telefone, enquanto eu estava na minha sala de trabalho. Quando a minha outra avó faleceu,…
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Só se reconhece depois
Existe um tipo de felicidade que só se reconhece depois. Enquanto está acontecendo, ela não tem nome. É apenas o estado natural das coisas, o ar que se respira sem perceber que é ar. Só mais tarde, quando o tempo a transforma em memória e a memória em saudade, é que ela ganha o seu contorno exato. É só de longe que se vê a forma do que se foi. Meus dias mais felizes foram quando eu ainda não tinha uma imagem ruim do ser humano. Quando acreditava, com aquela crença que não precisa de argumento porque nunca foi testada, que as pessoas são boas. Que o mundo as recebe…
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Ar da vida, ar da morte
Não sou velho, mas a juventude incontestável também já me escapou. Aos 41 anos, encontro-me estacionado nesta exata encruzilhada, forçado a refletir logo após sepultar as minhas duas avós: Arlinda, em 2022, e agora, neste 15 de abril de 2026, a minha avó Arlete. Curioso notar o que a fonética esconde. Ambas traziam no nome o princípio do elemento vital, o fôlego inicial, começando com a sílaba ar. E, numa simetria que quase parece recado, as sílabas finais ecoam os dois extremos da existência: o da de vida e o te de morte. Desde que eu era criança, no meu imaginário, ambas já eram velhas. Talvez, àquela época, nem fossem…
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No cimento frio de um portão
O lar, outrora um refúgio seguro de obviedades cotidianas, torna-se um lugar estranho no dia do luto. Dentro de casa, depois que os papéis amarelos são assinados, a burocracia emocional finalmente nos alcança. Minha esposa, numa tentativa terna e inquieta de atenuar o peso do ambiente, tentou preencher o vazio com o som das pequenas coisas. A morte deixa um eco ensurdecedor nas paredes, e nós tentamos, em vão, abafá-lo com os ruídos da normalidade. Mas o cansaço cobrou o seu preço, e ela preferiu recolher-se na quietude do quarto para processar a dureza do dia. Os meus pais chegaram logo depois, trazendo nos ombros a exaustão de uma terça-feira…
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Onde se registra o primeiro choro
Hoje, exatamente hoje, a morte atravessou a minha sala. Meus olhos arderam, as bochechas contorceram-se num reflexo involuntário da alma, e as lágrimas, pesadas, traçaram o caminho inegável da perda. Minha avó cruzou a porta. Passou pelo rio, passou pelo mar. Foi desaguar em um oceano onde o meu alcance humano já não existe. A dor maior, o espinho que fica cravado na garganta, é o peso do quase. Eu havia desenhado na mente um roteiro de afeto e redenção: queria pegá-la pelo braço e levá-la a lugares onde os seus pés cansados nunca haviam pisado. Minha intenção era surpreendê-la com algum conforto material, um bom plano de saúde, alguém…
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Planilhamos os nossos afetos
A chuva espancava a janela com uma cadência que emulava o compasso de um relógio. Da minha cadeira, eu observava a coreografia da rua lá embaixo: o fluxo contínuo dos carros, os semáforos alternando as suas cores com precisão milimétrica, os guarda-chuvas que desabrochavam quase em uníssono ao primeiro sinal do temporal. A mente, sempre viciada na concretude tátil do mundo, logo sussurrou a palavra mais óbvia e preguiçosa para descrever o cenário: máquinas. É assustadoramente fácil olhar para o nosso tempo e transferir a culpa para o aço, para o silício e para os motores. Crescemos condicionados a acreditar que a tecnologia é apenas aquele objeto frio que repousa…
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O caixote
A pesada porta de madeira cedeu com um rangido arrastado, revelando as entranhas de um teatro abandonado. Eu não fazia ideia de como havia chegado ali, mas o cheiro de poeira suspensa e veludo mofado era inconfundivelmente real. Como de costume, entrei de cabeça baixa. Meus olhos rastreavam o chão, os rodapés e as pontas dos meus próprios sapatos. Era um vício antigo: caminhar encolhido, como se ocupar menos espaço no mundo me garantisse o benefício da invisibilidade. Sentei-me na última fileira, na poltrona mais escura que encontrei. Foi então que as luzes do palco estalaram, rasgando a penumbra. Lá em cima, sob o foco de uma luz amarelada, não…
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O fogo pelo avesso
A rua parecia ser a mesma de sempre, mas havia um desalinho sutil na arquitetura da realidade. O carro estacionado em frente à casa não pertencia a ninguém, assim como a própria casa do vizinho era uma invenção daquela noite. Dentro do veículo, o absurdo repousava em silêncio: um animal de grande porte, um híbrido monstruoso de boi e cavalo. Era feito de carne e osso, mas carregava a frieza rígida das estátuas. Estava paralisado e, de uma forma que a razão se recusa a alcançar, pulsava de vida. Eu o observava esmagado pelo peso de uma decisão inevitável. Havia em mim uma certeza muda e absoluta: para que o…




























