Artes & Narrativas
A Lente Criativa. Emoção, histórias, reflexão estética. Esta é a casa da palavra viva, do entretenimento com profundidade e da catarse. É onde o leitor vai para se emocionar e ser transportado. Abarca seus papéis de: Escritor de Literatura e Teatro. O que entra aqui: Contos, crônicas, roteiros, peças teatrais, poemas, críticas literárias e reflexões sobre o processo de escrita e a dramaturgia da vida.
-
Travei
Encontrei, revisando papéis antigos, o relatório de autoavaliação que entreguei em maio de 2022, no estágio supervisionado da licenciatura em Teatro. Num dos campos, o formulário perguntava quais estratégias eu havia usado para realizar as atividades. Respondi que li os textos propostos e assisti aos vídeos. E então escrevi, em letras maiúsculas, no meio de um documento acadêmico: TRAVEI. Foi a única palavra do relatório inteiro que eu escrevi assim. Não escolhi o caixa alta por ênfase. Escolhi porque era a palavra exata e porque nenhuma outra servia. Eu havia feito tudo o que antecede a tarefa. Tinha o material, tinha lido, tinha visto. E na hora de produzir, não…
-
Sitiado por livros
Entro no quarto e sou imediatamente sitiado por livros. No centro do meu comando repousa uma cadeira de rodinhas, despojo de algum escritório comercial, hoje convertida em memória enferrujada. Os braços descascados denunciam o peso das horas, e o encosto rasgado revela o que já não tem forças para sustentar. Diante dela, dois monitores que brilham como janelas, vigiados por duas webcams, olhos eletrônicos de azul e vermelho que me encaram com o silêncio atento das máquinas. Neste gabinete, as paredes deixaram de ser alvenaria. Tornaram-se muralhas de pensamento empilhadas que cercam o horizonte. Acima, instrumentos repousam em estojos mudos, e basta um olhar para que o jazz de Nova…
-
Eram apenas palavras
Havia um homem que não se diferenciava dos demais, exceto por uma marca invisível cravada no centro do peito: uma ferida sem nome, sem sangue e sem cura aparente. Um dia, ao estender a mão em busca de conexão, encontrou o vácuo da recusa. Não houve explicações nem ruídos, apenas o frio súbito do não-acolhimento e o eco de portas que se fecham em silêncio. Foi ali, no impacto da rejeição, que ele encontrou a entrada da caverna. Não havia mapas nem placas de advertência, apenas um portal aberto por uma dor tão profunda que ele não encontrou forças para declinar. Lá dentro, o tempo perdeu o compasso e o…
-
O relógio
Sobre 2008 e 2009. Eu estava ansioso. Depois daquele domingo, entendi que o problema era eu. A roupa, o cabelo, o jeito de falar. Se era isso, era isso que eu tinha que resolver. Comprei um relógio caro que não precisava comprar. Comprei na Amazon, que na época era só a americana, ainda não havia a brasileira. Um relógio suíço. Na foto ele parecia grande. Quando chegou, era pequeno, parecido com relógio feminino. Comprei outro, da mesma marca, grande. Esse ficou parado na alfândega. A UPS me mandou uma mensagem. Paguei oitocentos reais de imposto para resgatar o relógio. Achava que com aquele relógio as pessoas iriam olhar para mim.…
-
Eu acreditei
Estive em uma relação que eu pensava ser amizade. Ele era sozinho. Tinha dificuldade de fazer amigos por perto, e eu não fui escolha, fui o que tinha. Mas eu pensava que era amizade. Era uma amizade nutrida pela economia. Ele pagava com um dinheiro que não era dele, e eu não conseguia enxergar que ele não tinha, que a fonte era o pai. Ele não sabia o valor do que tinha, e eu não sabia da fonte. Por volta de 2006 a 2008, na época do Orkut, estreitamos vínculos. Por meio da pregação da palavra eu tinha acesso a igrejas, a bairros e a pessoas com quem, de outro…
-
Antes da primavera
O quintal, nos primórdios da memória, era um mundo em suspensão. A área dos fundos não passava de uma promessa arquitetônica: paredes erguidas pela metade, pilhas de tijolos e um chão de terra batida que exalava o cheiro seco de poeira e cimento. Era para ser uma extensão segura do lar e, para quem ainda dava os primeiros passos na compreensão da vida, convertia-se num labirinto de alvenaria inacabada. Foi no meio desse emaranhado de alicerces que a visita se materializou. Alguém da mesma estatura da minha própria ingenuidade, mas que trazia nos gestos uma intenção que o meu dicionário infantil ainda não sabia traduzir. O convite soou como um…
-
Sístole e diástole
Eu habito simultaneamente o agora e o além, navegando em um fluxo que desconsidera as fronteiras entre o presente e o eterno. Sou um movimento de sístole e diástole, uma passagem constante entre o que fui e o que ainda está por vir. Preso ao momento e impulsionado pela vastidão, carrego essa alternância onde cada passo revela não apenas o que sou, mas a integridade do que estou me tornando. Nesta travessia, procuro anular o peso da hostilidade alheia e dissolver as barreiras que tentam me acorrentar ao desassossego. Escolho repousar na frequência da minha própria voz. Ela deixou de ser apenas som para se tornar o meu refúgio, o…
-
Mestre de caminhos
Fui mestre de caminhos, mas confesso: temi pisar a estrada que eu mesmo pavimentei. Carreguei o mapa com a autoridade dos sábios, e os meus pés tremeram ao primeiro passo. Investi em conhecimento com a ousadia de um visionário, apenas para colher o silêncio de um futuro que nunca soube desembarcar. Fui aquele que trocou o agora pulsante por uma promessa embalada num anel de latão vindo de um chiclete, suplicando para que ali morasse o ouro de uma rara eternidade. Suspirei diante dos faróis que iluminaram a minha existência, mas recuei. Não foi a escuridão que me afugentou. Foi o brilho. Habitei casas sem morador e nelas sonhei. Abri…
-
Mestre de caminhos
Fui mestre de caminhos, mas confesso: temi pisar a estrada que eu mesmo pavimentei. Carreguei o mapa com a autoridade dos sábios, e os meus pés tremeram ao primeiro passo. Investi em conhecimento com a ousadia de um visionário, apenas para colher o silêncio de um futuro que nunca soube desembarcar. Fui aquele que trocou o agora pulsante por uma promessa embalada num anel de latão vindo de um chiclete, suplicando para que ali morasse o ouro de uma rara eternidade. Suspirei diante dos faróis que iluminaram a minha existência, mas recuei. Não foi a escuridão que me afugentou. Foi o brilho. Habitei casas sem morador e nelas sonhei. Abri…
-
Fome de ser
Existe em mim uma fome de ser, uma força oculta que vibra na fundação da existência. Sinto, de forma quase visceral, a intuição de que não estou completo, e é essa consciência da falta que me obriga a interrogar o mundo com uma pergunta: qual é, afinal, o meu lugar? Não procuro a resposta em um crachá, em um cargo ou em um rótulo transitório. O que me move é a busca por uma identidade que me defina na essência. Vivemos, no entanto, em uma engrenagem que detesta o infinito. A sociedade limita o sentido da existência a funções utilitárias, como se a complexidade da alma pudesse ser enjaulada em…



























