Artes & Narrativas
A Lente Criativa. Emoção, histórias, reflexão estética. Esta é a casa da palavra viva, do entretenimento com profundidade e da catarse. É onde o leitor vai para se emocionar e ser transportado. Abarca seus papéis de: Escritor de Literatura e Teatro. O que entra aqui: Contos, crônicas, roteiros, peças teatrais, poemas, críticas literárias e reflexões sobre o processo de escrita e a dramaturgia da vida.
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Cascalhos da Infância: Uma Lição de Perdão
Brincar com meu primo Rafael era uma das maiores alegrias da minha infância. Nossa conexão era natural, simples, como se fôssemos feitos para entender e completar as aventuras um do outro. Mas, como em toda convivência, às vezes as coisas saíam do trilho, e foi em uma dessas ocasiões que aprendi uma lição que jamais esquecerei. Era um dia como tantos outros no quintal de casa, no bairro Grande Vitória. Estávamos ao lado da banheira velha que usávamos como “mar”, um pequeno oceano alimentado pela nossa imaginação. A banheira ficava perto do muro que fazia divisa com a casa do Rafael, e aquele pedaço de quintal, com seu chão de…
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As Primeiras Pedaladas: Entre o Amparo e a Liberdade
Lembro com clareza do dia em que meu pai chegou em casa com uma bicicleta Monark verde e preta, novinha em folha. Ela era linda, brilhava à luz do sol, como se carregasse consigo a promessa de aventuras que ainda não conhecia. Para uma criança, ter uma bicicleta nova era como receber as chaves para um mundo maior, um mundo que se estendia além do quintal de casa. Mas, antes de conquistar esse mundo, havia um desafio: aprender a pedalar. No quintal de nossa casa, no bairro Grande Vitória, o chão era coberto de areia. Um terreno improvisado, mas perfeito para as primeiras lições. Meu pai, com sua paciência inabalável,…
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A Descida sem Freio: Entre o Medo e o Livramento
As imagens vêm como flashes na memória, cenas soltas de um tempo distante, mas que a alma jamais esquece. Era um dia de domingo, daqueles dias que pareciam maiores na infância, e minha avó Arlinda havia me levado à Igreja Católica no bairro Estrelinha. A igreja ficava no alto, quase ao final de uma rua calçada com bloquetes de concreto. Subindo o morro, ela surgia como um marco entre o céu e a terra, silenciosa e serena. Não sei o motivo de termos ido naquele dia, mas o que realmente marcou a minha lembrança aconteceu durante a semana, quando aquele morro se tornou o cenário de um livramento que nunca…
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O Choro do Meu Pai: Quando a Dor Visita os Fortes
Era uma manhã comum, ou pelo menos parecia ser. Estava sentado no tapete da sala, olhando ao redor com o olhar curioso e atento de criança. À minha esquerda, a estante com o aparelho de som repousava imóvel, como um guardião silencioso. Daquele ângulo, podia ver a porta, uma parte do meu quarto, o quarto dos meus pais e o corredor que levava à copa. Tudo parecia em seu lugar, um retrato de normalidade que logo seria interrompido. Foi então que ouvi um som inesperado. Um choro. Mas não era um choro qualquer, era potente, profundo, o tipo de choro que carrega o peso de algo irreparável. Virei a cabeça…
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A Música e a Infância: Uma Sala, um Som, e o Tempo que não Corria
Na sala de minha casa, no segundo andar, no bairro Grande Vitória, o relógio não era um adversário. O tempo não tinha pressa, as horas não eram perseguidas, e a ansiedade, essa palavra tão comum agora, não existia. Naquele espaço, onde o simples reinava, a vida acontecia com a leveza de um disco girando no aparelho de som. O toca-discos era um dos objetos mais valiosos da casa, um verdadeiro altar da memória sonora. Lá estavam os LPs evangélicos, discos que não sei se papai e mamãe compraram ou ganharam, mas sei que estavam ali, preenchendo aquele ambiente com hinos que ecoam até hoje em mim. Era uma sala comum,…
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Jesus Menino: O Hospital que Acolheu Minha Infância
Meu sonho inicial era ser médico. Não, não era pelo status ou pelo dinheiro, nem mesmo por qualquer razão fútil que o mundo costuma impor como justificativa. Meu sonho era médico porque, em algum momento da infância, descobri o poder curativo do cuidado, o peso das mãos que tratam feridas, aliviam dores e trazem esperança a quem sofre. Esse sonho nasceu em um hospital, entre paredes brancas, camas de ferro e lençóis dobrados de maneira impecável. Quando criança, passei um tempo significativo internado. Não era apenas um hospital; era um espaço entre o medo e o alívio, onde as horas ganhavam um peso diferente. Ao lado do Hospital Infantil de…
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O Folheto no Vento
Transições são tempos de movimento e inquietação. Elas nos afastam do conforto do conhecido e nos lançam no turbilhão do incerto. Era exatamente assim que me sentia: desorientado, cheio de perguntas que pareciam ecoar sem resposta. Minhas orações eram constantes, mas os céus permaneciam silenciosos. Cada dia parecia um mergulho mais fundo em uma névoa de dúvidas e hesitações. Era uma tarde como tantas outras, mas que se tornaria inesquecível. Aproximadamente às quatro da tarde, eu caminhava pela calçada próxima ao Palácio Anchieta. O sol começava a inclinar-se, tingindo o céu de tons mais suaves, mas dentro de mim, não havia suavidade, apenas uma tempestade de pensamentos. Atravessava aquele espaço…
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Memórias na Piscina: O Reflexo do Passado
A adolescência é marcada por fases, por vezes intensas, que moldam nosso olhar para o mundo e para nós mesmos. Em minha adolescência, um dos lugares que mais amava frequentar era o Vitória Futebol Clube, um espaço que se tornou uma extensão da minha casa, quase como um santuário de descobertas e superações. Foi lá que me conectei com a natação, uma prática que abracei por dois ou três anos, graças ao programa da Secretaria de Esportes da Prefeitura de Vitória. Não era apenas um lugar para nadar; era um espaço onde construí memórias que ainda vivem em mim. As pessoas me conheciam ali, e essa familiaridade me fazia sentir…
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Executivo: A Imaginação Como Projeção do Futuro
Há momentos na infância que parecem insignificantes no instante em que ocorrem, mas, com o passar dos anos, ganham contornos quase proféticos. Lembro-me vividamente de uma tarde no quintal de casa, no bairro Grande Vitória. Um quintal que mais parecia uma pequena chácara, com espaços amplos que alimentavam minhas brincadeiras e onde a imaginação fazia morada. Ali, entre as paredes de alvenaria que seriam, no futuro, parte de uma piscina que nunca veio a existir, um episódio aparentemente simples se tornou uma marca em minha memória. Naquele dia, eu segurava uma pasta executiva que pertencera ao meu pai. Uma pasta robusta, de couro preto, que ele usava para carregar papéis…
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Caminhos Que se Cruzaram na Infância e se Recriaram no Tempo
A infância tem o dom de nos presentear com laços que, mesmo desfeitos pelo tempo, permanecem em nossa memória com a intensidade de algo que nunca se perdeu. Os primeiros amigos que fizeram parte da minha vida e circularam pela minha casa, cada um à sua maneira, moldaram um período de descobertas e aprendizados. Daniel, Ana Paula, Aline e Keila, nomes que carregam histórias compartilhadas, risadas inocentes e momentos que ainda ecoam na minha lembrança. Keila, com seu jeito determinado, era a mais marcante entre eles. Cresceu e se tornou policial, uma profissão que combina com o espírito firme que ela já demonstrava mesmo em suas brincadeiras de criança. Lembro…


























