Artes & Narrativas
A Lente Criativa. Emoção, histórias, reflexão estética. Esta é a casa da palavra viva, do entretenimento com profundidade e da catarse. É onde o leitor vai para se emocionar e ser transportado. Abarca seus papéis de: Escritor de Literatura e Teatro. O que entra aqui: Contos, crônicas, roteiros, peças teatrais, poemas, críticas literárias e reflexões sobre o processo de escrita e a dramaturgia da vida.
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A porta ficou de fora
No croqui de cenário que desenhei para um trabalho, há um elemento que eu descrevi e não desenhei. Escrevi assim: nos lados, um possível sofá à esquerda e provavelmente uma porta à direita. E depois expliquei a ausência: a porta como entrada e saída, ainda a se pensar, por isso não coloquei no desenho principal. Ainda a se pensar. Dos oito elementos daquela sala, a porta é o único que ficou fora do papel. As estantes eu desenhei. A janela, com o raio e o vento, eu desenhei. A mesa com os livros abertos, o candelabro, a xícara, a garrafa de tinta com pena, o sofá com a luz dourada:…
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Uma sala sem ninguém dentro
Precisei projetar um cenário para uma peça, num trabalho de licenciatura em Teatro. Tinha liberdade total: podia inventar qualquer lugar. Inventei uma biblioteca antiga, numa noite de chuva. Descrevi tudo. Ao fundo, uma grande janela de vidro transparente, através da qual se vê o outro lado. Nas laterais, estantes de madeira repletas de livros antigos, subindo quase até o topo do palco, com luzes turvas. Ao centro, uma janela semiaberta, com árvores balançando ao vento e um raio de vez em quando. No meio, uma grande mesa de madeira coberta de livros abertos. À esquerda, um sofá. Sobre a mesa, um candelabro com vela, uma xícara e uma garrafa de…
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Quando a técnica esconde
Num ensaio sobre cinema, registrei uma objeção que alguns críticos fazem ao plano-sequência: que a proeza técnica pode servir para encobrir a falta de conteúdo do roteiro, produzindo uma ilusão de complexidade e sofisticação. Escrevi isso num parágrafo e voltei a elogiar o filme no seguinte. Mas a objeção é séria, e ela não é sobre cinema. Existe um tipo de virtuosismo que funciona como distração. A câmera não corta durante vinte minutos, e o espectador fica tão ocupado admirando o feito que não pergunta se aquelas vinte cenas tinham o que dizer. A dificuldade da execução passa a valer como qualidade da obra. É um truque antigo e não…
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Travei
Encontrei, revisando papéis antigos, o relatório de autoavaliação que entreguei em maio de 2022, no estágio supervisionado da licenciatura em Teatro. Num dos campos, o formulário perguntava quais estratégias eu havia usado para realizar as atividades. Respondi que li os textos propostos e assisti aos vídeos. E então escrevi, em letras maiúsculas, no meio de um documento acadêmico: TRAVEI. Foi a única palavra do relatório inteiro que eu escrevi assim. Não escolhi o caixa alta por ênfase. Escolhi porque era a palavra exata e porque nenhuma outra servia. Eu havia feito tudo o que antecede a tarefa. Tinha o material, tinha lido, tinha visto. E na hora de produzir, não…
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Por que Birdman
Numa disciplina que pedia um ensaio sobre teatro e cinema, eu podia escolher qualquer filme. Escolhi Birdman. O filme é de Alejandro González Iñárritu, de 2014, e conta a história de Riggan Thomson, vivido por Michael Keaton. Riggan foi um ator famoso por interpretar um super-herói décadas antes, e agora tenta provar que é artista de verdade montando uma peça na Broadway, adaptada de um conto de Raymond Carver. Ele quer ser levado a sério. Passa o filme inteiro sendo perseguido por uma voz interna, a do personagem que o tornou famoso, que repete que ele é irrelevante, que ninguém liga, que aquilo tudo é patético. E, na cena mais…
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O boneco está na sala
Escrevi, num comentário de disciplina sobre teatro de formas animadas, uma frase que continuo achando a coisa mais precisa que já disse sobre arte: O objetivo não é tirar as pessoas da realidade e transportá-las para um mundo fictício. É fazer o caminho inverso: trazer o mundo fictício para dentro da realidade das pessoas. Formas animadas é o nome técnico do teatro de bonecos, de objetos e de sombras. E é a única linguagem cênica em que essa inversão é literal. Porque o boneco está na sala. Ele não é imagem de um boneco. É um objeto físico, com peso, feito de pano ou madeira, que ocupa espaço no mesmo…
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Três refletores
No projeto de iluminação que entreguei, escrevi uma frase que serve para quase tudo: É necessário estabelecer uma diferença entre o que é proposto como ideal e o que é possível. Nem sempre o ideal para iluminação será possível para realização. O ideal, ali, seriam projetores elipsoidais, que produzem foco definido e recorte limpo. O possível eram três refletores improvisados de cem watts, extensões elétricas puxadas até onde desse, e uma base montada para que alguém pudesse acender e apagar na hora certa. E foi com isso que projetei a cena. O que me interessa, relendo, não é a precariedade. É o que eu fiz com ela. Não escrevi um…
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Sitiado por livros
Entro no quarto e sou imediatamente sitiado por livros. No centro do meu comando repousa uma cadeira de rodinhas, despojo de algum escritório comercial, hoje convertida em memória enferrujada. Os braços descascados denunciam o peso das horas, e o encosto rasgado revela o que já não tem forças para sustentar. Diante dela, dois monitores que brilham como janelas, vigiados por duas webcams, olhos eletrônicos de azul e vermelho que me encaram com o silêncio atento das máquinas. Neste gabinete, as paredes deixaram de ser alvenaria. Tornaram-se muralhas de pensamento empilhadas que cercam o horizonte. Acima, instrumentos repousam em estojos mudos, e basta um olhar para que o jazz de Nova…
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Velocidades diferentes
Numa disciplina de laboratório de poéticas, construí duas performances. Uma se chamava Manifesto. A outra, Inventário. E, no memorial que escrevi depois, registrei uma descoberta que não era sobre teatro. Escrevi que o simbolismo do Manifesto estava, talvez, na falta de conexão imediata entre o falado e o movimento. Que nem sempre a fala consegue, ou pretende, se mover na mesma velocidade ou na mesma direção da ação. E completei, no parágrafo seguinte: o que é dito é uma mensagem, mas o que não é dito também é uma mensagem. O que é movimentado é uma mensagem, e também o que não é. Escrevi isso como observação técnica sobre construção…
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Parte da minha família
Um questionário de disciplina perguntou se eu tinha alguma lembrança de participação em festa, dança ou brincadeira que pudesse ser entendida como cultura popular. Respondi que sim: os festejos juninos. E escrevi assim: Mesmo quando era pequeno, eu e parte de minha família participávamos do arraial do bairro onde morava. Parte da minha família. Levei quatro anos para reparar nessas três palavras, e elas dizem mais do que o resto da resposta inteira. Porque a pergunta seguinte do questionário quis saber se aquelas manifestações estavam ligadas ao calendário cívico, religioso ou festivo da cidade. E eu respondi que não. Duas vezes, no mesmo parágrafo, com a gramática tropeçando nas duas.…



























