O Aterro Existencial: A Pasta do Meu Pai e a Vocação Inevitável
Eu busco. E, quando olho para trás, percebo que essa fome já me habitava desde a infância. Sentado no quintal de casa, no bairro Grande Vitória, eu brincava sobre o chão de areia que meu pai e minha mãe carregaram em baldes, suor após suor. Eles transformaram o presente do meu bisavô, um terreno que outrora fora apenas manguezal, em solo firme. De carrinho em carrinho, o barro moldou-se em quintal; e o quintal tornou-se o meu mundo.
Foi ali, sobre aquele aterro recém-nascido, que eu comecei a buscar. Procurava algo que a minha idade não sabia nomear, mas que já pulsava em minhas veias. A palavra executivo, não sei de qual rádio, conversa ou intuição ela veio, instalou-se em mim. Em 1991, essa não era uma palavra comum no nosso vocabulário diário, mas ela saiu da minha boca com o peso de quem decreta uma identidade.
Naquele chão improvisado, eu me via segurando a pasta do meu pai. Era uma pasta executiva, mas o seu conteúdo era sagrado: ele a levava à igreja guardando seus documentos, sua Bíblia e a Harpa Cristã. Com a mente fervilhante de menino, eu empunhava aquela maleta e reproduzia os gestos de um futuro ainda inexistente. Eu me imaginava de terno. Não era uma mera brincadeira infantil; era uma anunciação. Não era um brinquedo; era um arquétipo. Ali, no quintal parido das águas do mangue, a infância vestia-se, prematuramente, de destino.
A palavra escapou da minha boca como uma semente atirada ao vento, mas o seu sentido ancorou em mim. Ficou ressoando entre a areia do chão e o silêncio do meu peito, como uma promessa que nunca se cumpria por completo, mas que também se recusava a morrer.
Hoje, prestes a cruzar a fronteira dos quarenta anos, ainda estou aqui. Buscando. Mas compreendi que crescer não é chegar a uma linha de chegada estática, e sim continuar escutando aquela mesma voz que me convocou no quintal. Aquela voz que falava de uma pasta, de um terno e de um gesto firme, mas que, na verdade, me chamava para a mais alta das liturgias humanas: o exato lugar onde a alma e o ofício se encontram.
Talvez o que eu buscava não fosse uma nomenclatura corporativa, mas um propósito. Ao liderar, ao coordenar e ao servir, percebo que a busca já não é mais sobre o que eu vou ser quando o futuro chegar. É sobre reconhecer, com reverência e gratidão, quem eu de fato já me tornei, toda vez que me permito lembrar do menino que ergueu um império de sentido sobre o chão de barro da Grande Vitória.
Muitas vezes, os nossos sonhos de infância carregam mensagens cifradas sobre o nosso verdadeiro propósito. O menino que brincava de “executivo” com a pasta da igreja do pai não estava apenas imitando uma profissão; estava anunciando uma vocação para a liderança e para a organização do mundo ao seu redor. Qual era a “brincadeira” ou o fascínio da sua infância que, olhando hoje para a sua vida adulta, provou ser uma verdadeira bússola do seu destino? Compartilhe essa memória conosco na caixa de comentários.


