Artes & Narrativas

A Burocracia da Morte e o Papel Amarelo

Hoje, exatamente hoje, a morte atravessou a sala. Meus olhos arderam, as bochechas se contorceram em um reflexo involuntário da alma, e as lágrimas, pesadas, traçaram o caminho inegável da perda. Minha avó passou pela porta. Passou pelo rio, passou pelo mar. Foi desaguar em um oceano onde o meu alcance já não existe.

A dor maior, o espinho que fica cravado na garganta, é o peso do “quase”. Eu havia desenhado na mente um roteiro de afeto e redenção: queria pegá-la pelo braço e levá-la a lugares onde seus pés cansados nunca haviam pisado. Minha intenção era surpreendê-la com algum conforto material, um bom plano de saúde, alguém para limpar sua casa e poupar-lhe o corpo. Queria ter colhido seu DNA, feito uma daquelas entrevistas profundas para mapear cada detalhe de seu passado e guardar sua narrativa. Tantos planos arquitetados no silêncio, tantas intenções nobres que esbarraram na minha maior falha: não dei urgência ao tempo. Tratamos a vida dos que amamos como se fosse um recurso infinito.

A manhã havia começado na inércia absoluta do cotidiano. Saí tarde de Estrelinha, perto das sete, quando ainda faziam poucas horas que ela respirava lá em Gurigica. Na pressa mecânica dos dias úteis, deixei minha filha na escola, minha esposa no trabalho e cheguei a Cariacica às sete e meia. Eu tenho essa fobia silenciosa de ligações fora de hora da minha esposa ou da minha mãe; o estômago sempre antecipa a tragédia. Mas quando a tela acendeu e eu atendi, era um recado do meu pai sobre a reforma dos bancos da igreja. Respirei, aliviado. O alarme falso do destino.

Pouco depois, a tela do celular acendeu no silencioso. Era minha esposa novamente. E então, a notícia. A mente, diante do choque, costuma buscar paralelos, e a história tem um jeito cruel de rimar. Lembrei-me instantaneamente de um outro fato, de quando minha outra avó faleceu: quem me deu a notícia também foi a minha esposa, por telefone, enquanto eu estava na minha sala de trabalho. Daquela vez foi à tarde; desta, pela manhã. Daquela vez, eu ocupava uma sala mais próxima à porta principal; desta, um pouco mais distante. Mas era rigorosamente do mesmo lado, no mesmo prédio, no mesmo pavimento. O mesmo cenário montado para o mesmo desmoronamento.

Eu te amo, talvez nunca soube expressar..

O céu desabou e o chão se abriu, me engolindo ali mesmo. A mente entrou naquele estado de hiperfoco que só as grandes rupturas provocam. A marmita que eu havia comprado ficou para uma colega. O único instinto era voltar, encontrar a família, ancorar em alguma coisa que ainda estivesse de pé.

Quando cheguei, a engrenagem fria da morte já estava em movimento. Meu pai atravessava a tarde resolvendo as burocracias do fim. No fim do dia, lá estava eu, na sala de espera para a liberação do corpo. Peguei o papel amarelo e caminhei com minha mãe até o cartório para expedir a certidão de óbito. Onde se registra o primeiro choro, averba-se o último suspiro.

E enquanto eu ali escrevia, tornando a vida ainda mais dura, o passado me assombrou novamente, completando o ciclo daquela memória da manhã. Anos atrás, eu havia feito o exato mesmo trajeto, com a mesma companhia, no mesmo cartório, para expedir a certidão de óbito da minha outra avó. Os mesmos passos. O mesmo objetivo. O mesmo grau de parentesco. Uma repetição de anos diferentes que só serviu para alargar o buraco existencial que carregamos no peito. Senti-me como um José de Arimatéia moderno, lidando com papéis e carimbos enquanto tentava processar a finitude.

A geografia da despedida é sempre irônica. Ela faleceu em Vitória, enquanto eu estava em Cariacica. Amanhã, ela estará em Cariacica, e eu em Vitória. Um desencontro de corpos que reflete a nova realidade: nunca mais estaremos no mesmo lugar.

Minha avó tinha desejos muito claros. Queria fechar os olhos na casa que resumia a sua história. Queria ser velada na Assembleia de Deus, em Gurigica, a mesma igreja da qual sempre fez parte, o mesmo lugar de onde minha bisavó saiu em cortejo fúnebre rumo ao cemitério de Maruípe. Da ali, minha avó também quis sair, herdando a rota de partida.

No fim, percebo que nossos últimos desejos são extremamente caros. Nós os lançamos ao vento, sem saber se os vivos terão o cuidado e a decência de honrá-los. Hoje, as cortinas se fecham para ela, e enquanto o papel amarelo sela o fim de uma era, iniciamos, irremediavelmente, um novo capítulo. Fica a lição mais dura: o tempo não espera a nossa prontidão.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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