A Casa da Vovó nos anos 1990-2002
Existe um tipo de felicidade que só se reconhece depois.
Enquanto está acontecendo, ela não tem nome, é apenas o estado natural das coisas, o ar que se respira sem perceber que é ar. Só mais tarde, quando o tempo a transforma em memória e a memória em saudade, é que ela ganha o seu contorno exato. É só de longe que se vê a forma do que se foi.
Meus dias mais felizes foram quando eu ainda não tinha uma imagem ruim do ser humano.
Quando acreditava, com aquela crença que não precisa de argumento porque nunca foi testada, que as pessoas são boas. Que o mundo as recebe e elas o devolvem melhor. Que a maldade é exceção e a bondade é regra. Essa inocência não era ingenuidade, era um estado de graça que a vida, com o tempo, foi retirando em camadas, tão devagar que eu mal percebi enquanto perdia.
A casa da vovó Arlete não era bela.
Não tinha a beleza das casas que se fotografa ou das fachadas que impressionam quem passa. Era a beleza de outro tipo, a beleza que só existe dentro, que não se anuncia para a rua, que reserva o seu calor para quem tem a chave. Uma casa que sabia o que era e não fingia ser outra coisa. E talvez seja exatamente isso, essa honestidade estrutural, essa recusa silenciosa à pretensão, que tornava possível aquilo que acontecia lá dentro.
A vida.
Não a vida administrada, não a vida que cumpre agenda e respeita horários e se comporta dentro dos limites do razoável. A vida que transborda, que ri sem motivo suficiente, que faz barulho sem pedir desculpa, que ocupa o espaço inteiro sem perguntar se há espaço. A casa da vovó Arlete era cheia dessa vida. Ela habitava cada cômodo, impregnava cada canto, subia pelas paredes com a naturalidade das coisas que não precisam de convite para existir.
E eu vivia aquela plenitude de uma forma específica: pela expectativa.
Sempre pela expectativa.
A felicidade não começava quando eu chegava, começava antes, no caminho, na antecipação de quem sabia o que ia encontrar. A chegada era a confirmação de uma promessa que o próprio desejo havia feito. E o que eu ia encontrar não era apenas a vovó Arlete, não era apenas a casa, não era apenas a fartura simples que aquele espaço guardava, era pessoas. Pessoas que eu considerava melhores do que eu. Que tinham algo que eu queria ter, que eram algo que eu queria ser, sem que eu soubesse ainda nomear o quê.
Essa é uma das formas mais puras de admiração: a que não sabe que é admiração.
Que se manifesta apenas como atração, como magnetismo, como o desejo de estar perto sem entender por quê estar perto é tão necessário. Eu buscava aquelas pessoas como quem busca uma régua, não para medir o outro, mas para entender a própria forma. Elas me diziam, pela sua simples presença, algo sobre o que eu poderia ser.
Ali eu existia inteiro.
Não a versão contida, não o Tiago que administra a vergonha e calcula o próximo passo e monitora o que os outros pensam. O Tiago que simplesmente estava, presente, poroso, disponível para o que viesse, sem a armadura que a vida adulta vai forjando ao longo dos anos com o material das decepções acumuladas.
Sei que aqueles dias não se repetirão.
Não porque a casa tenha desaparecido, as casas permanecem muito depois de nós. Mas porque o estado interno que tornava possível aquela experiência foi se modificando com o tempo. A inocência que acreditava no bem como regra foi cedendo espaço para o conhecimento que reconhece a complexidade. A expectativa que chegava antes de mim foi aprendendo a se proteger, a não se adiantar tanto, a não apostar tudo antes de ver as cartas.
É o preço da maturidade.
E é um preço caro.
Porque o que se ganha em discernimento se perde em deslumbramento. O adulto que já foi decepcionado vê mais claramente, mas vê com menos alegria. Conhece melhor o ser humano, mas admira menos. Chegou a mais lugares, mas com menos aquela expectativa luminosa que fazia o caminho valer tanto quanto o destino.
A ideia de poder estar lá era a ideia de que eu gostava de estar.
Essa frase, simples, quase redundante, carrega mais do que parece. Porque não era apenas o lugar que eu amava. Era o que o lugar fazia comigo. Era a versão de mim mesmo que só existia ali, leve, crente, inteiro, ainda sem as fraturas que o tempo distribui com a generosidade impiedosa das coisas inevitáveis.
A vovó Arlete já partiu.
E foi com ela, não de uma vez, mas em camadas, silenciosamente, aquele estado de graça que a sua casa sabia produzir. Aquela capacidade de chegar em algum lugar e encontrar pessoas melhores do que você e não sentir inveja, apenas gratidão. Apenas o desejo limpo de ser, um dia, à altura do que admirava.
Ainda busco isso.
Em outras casas, em outros lugares, em outros rostos.
Mas sei, com a clareza serena de quem já perdeu o suficiente para saber o que perdeu, que a casa da vovó Arlete foi o original. E que tudo que busco depois é, em alguma medida, a tentativa de reencontrar aquele estado de graça que eu tinha sem saber que tinha.
E que só soube nomear quando já não era mais possível voltar.


