Artes & Narrativas

A Teologia do Portão: A Prece Cruzada e a Solidariedade de Trincheira

O lar, outrora um refúgio seguro de obviedades cotidianas, torna-se um palco estranho e hostil no dia do luto. Dentro de casa, depois que os papéis amarelos são assinados, a burocracia emocional finalmente nos alcança.

Minha esposa, numa tentativa terna e inquieta de atenuar o peso esmagador do ambiente, tentou preencher o vazio com o som das pequenas coisas. A morte deixa um eco ensurdecedor nas paredes, e nós tentamos, em vão, abafá-lo com os ruídos da normalidade. Mas o cansaço da alma cobrou o seu preço; ela preferiu se ausentar, recolhendo-se na quietude do quarto para encontrar os seus próprios contornos e processar a dureza do dia. Os meus pais chegaram logo depois, trazendo nos ombros a exaustão de uma terça-feira que havia esmagado, sem piedade, todas as nossas convicções.

E então, contrariando a lógica do isolamento e do silêncio que a dor profunda costuma exigir, a campainha tocou.

Eram 23 horas daquele fatídico 14 de abril. No portão, iluminados pela luz fraca da rua, estavam inesperadamente o irmão Rodrigo, a irmã Natália e a Yasmin. Vieram emitir os seus sentimentos. Vieram tentar dividir a carga insuportável da perda da minha avó.

Quando a solidariedade chama no portão

A presença deles ali, cortando a noite fria, seria tocante por si só. Mas a grandeza absoluta do gesto residia em um detalhe que subverte qualquer expectativa humana de conforto: o irmão Rodrigo também vivia, naquele exato dia, o seu próprio luto. A sua tia havia partido para estar com o Senhor na madrugada. Ele, até instantes antes de bater à nossa porta, estava no velório dela.

A ironia cruel do tempo já havia cruzado os nossos destinos pela manhã, numa sincronicidade trágica. Foi por volta das nove horas, exatamente naquele instante em que eu falava com o meu pai ao telefone e respirei aliviado por estarmos tratando apenas da trivialidade da reforma dos bancos da igreja. Lembro-me, com uma clareza que agora dói, do meu pai interrompendo a conversa: “Vou desligar, o irmão Rodrigo está me ligando.”

Rodrigo ligara para comunicar a perda da sua tia e justificar a sua ausência no culto da noite. O meu pai, movido pelo instinto irrepreensível da fé e do afeto, orou por ele ali mesmo, através da linha telefônica. Intercedeu pela dor do amigo sem fazer ideia, na sua mais absoluta inocência, de que ele próprio já necessitava daquelas mesmíssimas orações, pelo exato mesmo motivo. O destino estava apenas aguardando na linha de espera. Minutos depois dessa prece cruzada, o telefone do meu pai tocou novamente. Era Magda, amiga e colega de trabalho da minha esposa. Com a objetividade seca que as más notícias exigem, ela comunicou a morte da minha avó. E ali, o homem que acabara de consolar o choro alheio, perdeu de vez o seu próprio chão.

Duas perdas simultâneas. Duas famílias atravessadas pela mesma lâmina invisível no mesmo dia. E, no entanto, o irmão Rodrigo deixou o seu próprio velório, engoliu o seu próprio pranto por alguns instantes e caminhou pela noite para vir chorar conosco, no nosso portão.

É essa presença física, improvável e desinteressada, que marca a nossa trajetória. Quando as fundações da vida cedem e o telhado desaba, não são as frases feitas ou as palavras ensaiadas que nos seguram. É a coragem daquela solidariedade de trincheira, de quem atravessa a cidade de luto para abraçar o luto do outro. A verdadeira teologia não se faz apenas na madeira nobre dos bancos reformados da igreja, mas no cimento frio de um portão, às onze horas da noite. São essas as presenças que ficam. E é sobre esses escombros que os laços inquebráveis são, de fato, firmados.

A verdadeira teologia se revela de forma mais contundente quando a estrutura da vida cede. Nos momentos de maior escuridão, muitas vezes o socorro vem de onde menos esperamos, através de pessoas que abrem mão do próprio conforto, ou até da própria dor, para nos amparar. Quem foi a presença improvável que teve a coragem de abraçar o seu luto ou a sua crise quando você mais precisou? Deixe nos comentários uma homenagem a essa pessoa que foi o seu “cimento firme” nas noites difíceis.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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