Instantes
Continuando a reflexão iniciada em Ninguém me pediu para escrever…
Prometi escrever sobre a vida. Hoje descubro que é mais fácil prometer.
A vida não se entrega inteira a quem escreve. Oferece pistas, fragmentos, impressões, e recolhe o resto.
Pensei em falar dela como luta, como campo de batalha. Pensei em chamá-la de dádiva. As duas coisas são verdade e nenhuma basta, porque a vida é também aquilo que escapa justamente quando acreditamos ter compreendido.
O que ela exige de mim?
Presença. Não de corpo apenas, mas de alma desperta. Ela pede que eu esteja inteiro mesmo quando estou em pedaços.
O que ela oferece?
Instantes.
Não promessas eternas, lampejos breves. Um abraço que salva um dia difícil. Uma música que nos traduz. Brechas, portas entreabertas por onde entra a luz.
E o que ela sussurra?
Que tudo passa. E que tudo importa.
Que não somos tão fortes quanto fingimos, nem tão fracos quanto tememos.
Hoje não escrevo para explicar a vida. Escrevo para chegar mais perto, com a reverência de quem pisa em chão sagrado.
Não domínio. Escuta.


