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No cimento frio de um portão
O lar, outrora um refúgio seguro de obviedades cotidianas, torna-se um lugar estranho no dia do luto. Dentro de casa, depois que os papéis amarelos são assinados, a burocracia emocional finalmente nos alcança. Minha esposa, numa tentativa terna e inquieta de atenuar o peso do ambiente, tentou preencher o vazio com o som das pequenas coisas. A morte deixa um eco ensurdecedor nas paredes, e nós tentamos, em vão, abafá-lo com os ruídos da normalidade. Mas o cansaço cobrou o seu preço, e ela preferiu recolher-se na quietude do quarto para processar a dureza do dia. Os meus pais chegaram logo depois, trazendo nos ombros a exaustão de uma terça-feira…
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Eu acreditei
Estive em uma relação que eu pensava ser amizade. Ele era sozinho. Tinha dificuldade de fazer amigos por perto, e eu não fui escolha, fui o que tinha. Mas eu pensava que era amizade. Era uma amizade nutrida pela economia. Ele pagava com um dinheiro que não era dele, e eu não conseguia enxergar que ele não tinha, que a fonte era o pai. Ele não sabia o valor do que tinha, e eu não sabia da fonte. Por volta de 2006 a 2008, na época do Orkut, estreitamos vínculos. Por meio da pregação da palavra eu tinha acesso a igrejas, a bairros e a pessoas com quem, de outro…
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Querer e rejeitar as mesmas coisas
“Querer as mesmas coisas e rejeitar as mesmas coisas: nisso, enfim, está a amizade firme.” A frase é de Salústio, na Conjuração de Catilina. Ela passa longe de um mero alinhamento de preferências ou de afinidades de salão. Trata-se da união de duas vontades que, ao colidirem no tempo, criam um espaço onde cada desejo e cada aversão ecoam de forma harmônica. É onde duas identidades se reconhecem e, ao partilharem uma fome comum pelo bem e pela verdade, tornam-se cúmplices. Querer as mesmas coisas é enxergar no outro o espelho da própria sede por aquilo que é imutável. É como se as almas de dois amigos, ao se alinharem,…
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A fratura do outro
Há uma beleza singular no retorno. Sentir o peso leve de estar em casa, recolher as correspondências adormecidas sob a porta, escancarar as janelas para o vento. Voltar é também o assombro de reassumir com doçura o que antes nos parecia um fardo. É sorrir diante dos objetos largados sobre a cama no instante da partida, naquela urgência desordenada de quem nunca está verdadeiramente pronto para a ausência. Desfazer as malas é um ato de simplicidade que ancora o ser humano no presente: ao recolocar as roupas no armário, aceitamos o que ficou para trás. Neste parêntese entre a partida e o regresso, vivenciei um tempo denso. Um tempo de…
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A empatia do traidor
Existe uma ingenuidade perigosa na forma como imaginamos os nossos adversários. Fomos treinados, pelos contos de fadas e pelas narrativas rasas, a esperar que o mal se anuncie com trombetas, que o inimigo venha marchando de longe, com a espada em punho e o ódio estampado no rosto. Mas a lâmina que fere mais fundo nunca vem de fora da nossa tenda. Ela é forjada do lado de dentro. O inimigo declarado é, de certa forma, leal: ele avisa que quer a nossa ruína. O traidor, não. O traidor precisa do nosso afeto para sobreviver. A anatomia da traição íntima segue um roteiro de covardia meticulosa. O falso amigo não…
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Cercar-se de palhaços
Fábio, um sábio homem do interior, Deus o tenha, sempre foi um grande amante do circo. Lembro-me bem de quando ele, com seus dedos amarelados pelo cigarro, me levou a um espetáculo quando eu ainda era garoto. Apontou para o palhaço que me arrancava gargalhadas e disse algo que só agora entendo por completo: “Pense nesse palhaço quando for escolher as pessoas para ter ao seu lado.” Ele mesmo parecia ser uma dessas figuras que carregam alegria consigo. Como o palhaço daquele circo distante, tinha uma habilidade incomum de arrancar um riso genuíno até dos momentos mais sombrios. O sorriso é uma atitude perante a vida, uma virtude que revela…
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Por fora e por dentro
O que é, afinal, um bom relacionamento? Talvez seja algo simples e profundo ao mesmo tempo: a consistência da minha felicidade entrelaçada à busca da felicidade do outro, um laço sustentado na verdade e no amor. A busca frenética por uma rede de contatos, por “amigos” adquiridos através da técnica e de interesses mascarados, forma estruturas frágeis, construídas sobre a areia do fingimento. Amizades superficiais corroem a humanidade, formando pessoas insatisfeitas e solitárias, que enxergam no outro um objeto de manipulação, uma peça a ser ajustada para atender interesses. Nossos julgamentos e opiniões nascem de um ponto inicial em nós, uma série de pressupostos que trazemos na nossa bagagem interna.…
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Por terceiros
Os primeiros amigos que fizeram parte da minha vida e circularam pela minha casa: Daniel, Ana Paula, Aline e Keila. Keila era a mais marcante entre eles. Cresceu e se tornou policial. Aline seguiu outro rumo, tornou-se empresária no ramo de supermercados e material de construção. A vida a levou a construir estruturas, enquanto a Keila passou a proteger as mesmas ruas onde um dia brincamos. Ana Paula se tornou médica. E Daniel, cujo caminho exato me escapa, foi o amigo que mais me acompanhou nas aventuras do cotidiano. Depois da infância, nossos laços se afrouxaram, as visitas cessaram, e cada um tomou seu rumo. Nunca mais tive contato direto,…
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O barracão
Pastor Sebastião, marido da irmã Nelza, presidia uma igreja independente chamada Assembleia de Deus Ministério Ide, no bairro Primeiro de Maio. Conhecíamos o pastor Sebastião desde antes, quando meu pai pastoreava uma igreja na mesma rua, que mais tarde se fundiria ao Ministério de Jardim Colorado. Minhas lembranças mais marcantes com o Ministério Ide remontam aos idos de 1997, quando seu templo ainda era um simples barracão de tábuas, erguido no meio do canal que dividia os bairros de Primeiro de Maio e Pedra dos Búzios. Minha primeira visita ao barracão foi marcada pela simplicidade. O culto era modesto, previsível, quase sem movimento. Poucas pessoas estavam ali, e o ambiente…
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Adolfina
Era 1999, e eu estava na turma da então 8ª série da EEPG Adolfina Zamprogno. Sentava na frente, ao lado da Simone, uma menina inteligente e de conversa agradável. Havia muitos colegas que marcaram minha vida: Márcio, que até certo ponto era meu “melhor amigo”, morava em Vila Garrido, numa casa à beira do morro, de onde se podia ver uma parte do bairro Pedra dos Búzios. Estive lá uma única vez. Havia também o Wilson, o Alexsandro Melo, o Wadvan, a Tasciana, o Paulo Rogério, o Renan, e outros nomes que o tempo levou. Alexsandro Melo era um menino que se destacava. Ele tocava pandeiro como ninguém, e sua…





























