O caminho que atravessa
Pode haver um impedimento no centro da sua jornada, um monólito silencioso e imóvel que surge sem aviso para interromper o fluxo do percurso.
Drummond escreveu o poema mais conhecido da língua sobre uma pedra assim, e vale dizer o que ele faz com ela: nada. A pedra não é vencida, não é removida e não ensina. Ela fica, e o que resta é nunca esquecer que ela estava ali. Essa recusa é o próprio escândalo do poema.
Diante da minha, escolho outra coisa. Se eu estagnar, ela permanecerá indiferente e inalterada. Se decidir encará-la como ferramenta de amadurecimento, o impedimento vira matéria-prima do caminho.
O único modo legítimo de avançar é o confronto. Não se trata de evitar o atrito, mas de habitá-lo. É preciso interrogar o obstáculo: o que ele revela sobre a minha visão, e o que ele revela sobre a urgência do meu desejo de avançar?
O caminho, com todas as suas arestas, não é um trajeto burocrático a ser concluído. É uma experiência que esculpe a identidade ao longo da travessia.
No fim das contas, não é apenas você que atravessa o caminho. É o caminho, com todas as suas pedras, que atravessa e refina quem você é.


