• Artes & Narrativas

    Nem toda brincadeira é jogo

    Numa atividade da licenciatura, escrevi uma distinção que continuo achando certa. Nem toda brincadeira é jogo. E entretenimento não é jogo. O jogo do faz de conta reúne quatro coisas: improvisação, enredo, cenário e uma estrutura lógica de execução. A criança assume um personagem, define um espaço e sustenta uma regra. Isso é teatro, ainda que ninguém ali saiba a palavra. O entretenimento não pede nada disso. Ele chega pronto, com enredo, cenário e personagem já decididos por outra pessoa, e o que se espera de quem recebe é atenção. A diferença é de posição. Numa, você é autor. Na outra, você é destinatário. E aqui eu preciso confessar de…

  • Artes & Narrativas

    Levantar da cadeira

    Em 2022, num relatório de estágio, escrevi uma frase sobre Augusto Boal que hoje me parece uma confissão. Escrevi que percebi no Teatro do Oprimido uma joia experiencial. E completei: não pude utilizar na minha experiência explícita, mas somente, até o momento, imaginativa. Uma joia que eu só consegui imaginar. O Teatro do Oprimido tem uma premissa única, e ela é radical: acabar com a separação entre quem atua e quem assiste. Boal chamava de espect-ator a pessoa que estava na plateia e se levanta. A cena mostra uma opressão, e o público não aplaude nem discute: alguém entra em cena, substitui o oprimido e tenta outra saída. O método…

  • Filosofia & Teologia

    Qual parte é arbitrária

    Foucault propõe uma pergunta de trabalho, e ela é a ferramenta mais útil que eu encontrei em um ano de leituras. Naquilo que nos é apresentado como universal, necessário e obrigatório, qual é a parte singular, contingente e produzida por imposições arbitrárias? Traduzindo para a linguagem de quem trabalha em repartição: isto aqui, que todo mundo trata como se fosse assim mesmo, precisa mesmo ser assim? Passei este ano relendo vinte anos de arquivos meus, e só agora percebo que fiz exatamente isso, sem o nome. Anotei, num diário de campo, que a coordenadora de uma escola abriu quatro portas até encontrar uma sala vazia. Registrei como detalhe de acolhimento.…

  • Artes & Narrativas

    Sitiado por livros

    Entro no quarto e sou imediatamente sitiado por livros. No centro do meu comando repousa uma cadeira de rodinhas, despojo de algum escritório comercial, hoje convertida em memória enferrujada. Os braços descascados denunciam o peso das horas, e o encosto rasgado revela o que já não tem forças para sustentar. Diante dela, dois monitores que brilham como janelas, vigiados por duas webcams, olhos eletrônicos de azul e vermelho que me encaram com o silêncio atento das máquinas. Neste gabinete, as paredes deixaram de ser alvenaria. Tornaram-se muralhas de pensamento empilhadas que cercam o horizonte. Acima, instrumentos repousam em estojos mudos, e basta um olhar para que o jazz de Nova…

  • Filosofia & Teologia

    O queijo da ratoeira

    A verdadeira riqueza jamais poderá ser mensurada apenas pelo tilintar de moedas. Ela é, na origem, uma qualidade do ser, uma expressão da essência que transborda. E há nisso a percepção de que, por mais generosos que sejamos, jamais empataremos com o Divino. Não competimos com a Fonte: apenas nos entregamos ao privilégio de participar dessa generosidade. Nessa caçada pelas nossas realizações, é vital manter a lucidez: o único queijo gratuito é o da ratoeira. Em um mundo que mercantiliza atalhos, esbarramos na armadilha da prosperidade ilusória, aquilo que parece ganho fácil e que atrofia a nossa liberdade. A gratuidade desprovida de esforço é uma prisão com paredes acolchoadas. A…

  • Artes & Narrativas

    Desprovido de pontes

    Estou posicionado do outro lado da margem, desprovido de pontes, contemplando um horizonte que se recusa a ser alcançado. É uma fronteira difusa onde o desejo pulsa, mas permanece represado. Trata-se do vislumbre de um amanhã que acena com a promessa de afeto e de uma liberdade que transcende o movimento geográfico, revelando-se como quietude interior. Habita em mim o paradoxo de querer voar e, ao mesmo tempo, de me recolher. Desejo desbravar rotas desconhecidas, mas sinto a urgência de proteger o que me resta de mais íntimo. Contudo, esse horizonte, por mais carregado de promessas que se apresente, torna-se obsessão. É um sonho que se dilacera ao menor toque,…

  • Filosofia & Teologia

    O somatório das nossas renúncias

    A vida apresenta-se como um vasto corredor de oportunidades, onde cada porta entreaberta nos convida à travessia. Contudo, a matemática da existência é implacável: para cada porta que decidimos cruzar, dezenas de outras ficam trancadas para trás. Escolher, portanto, transcende a decisão entre alternativas. É a arte de renunciar. No núcleo de qualquer decisão madura repousa o saber. O conhecimento precisa anteceder a posse: é ele que nos autoriza a extrair propósito daquilo que temos. Possuir um violão sem dominar os seus acordes é abrigar uma beleza muda, uma arte paralisada em um pedaço de madeira. Da mesma forma, antes de girar a chave de um veículo, é imperativo saber…

  • Filosofia & Teologia

    Alforria

    Quantos já morreram por um amor? E quantos, de fato, morreram pelo Amor? A finitude e o afeto entrelaçam-se em uma dança antiga que desafia o relógio e as frágeis certezas do mundo. Paradoxalmente, o ato de morrer é parte da própria existência: é um processo doloroso de transformação, uma poda rigorosa que carrega no cerne a promessa de um recomeço. A cada instante, de alguma forma, todos nós morremos um pouco. Despedimo-nos daquilo que fomos para abrir espaço àquilo que fomos chamados a ser. Mas a pergunta que ecoa no silêncio é outra: será que já morremos verdadeiramente para tudo aquilo que nos esvazia? E, se não, para o…

  • Artes & Narrativas

    O prisioneiro é o carcereiro

    A existência exige, a cada batida de coração, a coragem de desbravar o incerto. Contudo, é frequente a nossa inclinação para o abrigo das sombras conhecidas, aquele espaço de dormência onde a falsa segurança rapidamente se transmuta em cárcere. Quando nos fechamos nesse panteão de hábitos, tornamo-nos nossos próprios carcereiros. Essa jaula do passado não é habitada apenas por lembranças. É o depósito onde medos, traumas e arrependimentos se amontoam, forjando barreiras que nos exilam do agora e do amanhã. E o peso dessas correntes é tal que a mera intenção não basta para rompê-las. Surge, então, a necessidade de um Libertador: uma força que venha de fora e alcance…

  • Filosofia & Teologia

    Soberania sobre as próprias horas

    O mundo corre, mas quem decretou que precisamos correr com ele? Talvez seja esse o descompasso entre o corpo e o coração que nos causa um cansaço tão profundo, essa sensação crônica de atropelo nos próprios passos. Já me peguei questionando o espelho: sou eu que estou parando, ou é a vida que acelerou até perder o sentido? O corpo, treinado pelo mundo, quer pressa. Exige agenda, mantém-se em passos largos e tenta sobreviver à métrica implacável da produtividade. Já o coração é um peregrino de passadas suaves, que caminha no compasso do amor miúdo e da descoberta sutil. O coração recusa a urgência: sobrevive de aproximações e de demoradas…