Qual parte é arbitrária
Foucault propõe uma pergunta de trabalho, e ela é a ferramenta mais útil que eu encontrei em um ano de leituras.
Naquilo que nos é apresentado como universal, necessário e obrigatório, qual é a parte singular, contingente e produzida por imposições arbitrárias?
Traduzindo para a linguagem de quem trabalha em repartição: isto aqui, que todo mundo trata como se fosse assim mesmo, precisa mesmo ser assim?
Passei este ano relendo vinte anos de arquivos meus, e só agora percebo que fiz exatamente isso, sem o nome.
Anotei, num diário de campo, que a coordenadora de uma escola abriu quatro portas até encontrar uma sala vazia. Registrei como detalhe de acolhimento.
Não era. Era a demonstração de que aquela escola não tinha folga, e a falta de folga explicou depois por que um projeto meu de cinquenta aulas nunca aconteceu.
Anotei que a escola chama de descaracterizado o aluno sem uniforme. Registrei como termo corrente.
Não é corrente coisa nenhuma. É uma palavra que diz, ao pé da letra, privado de características, e ela informa o que a instituição faz com quem sai do padrão.
Preenchi um formulário de autoavaliação listando mortes, dívidas e travamento. Achei que era um campo de formulário.
Era, e o fato de ser apenas um campo de formulário, arquivado sem consequência, é a informação.
Escrevi num plano de curso a expressão danças africanas para uma aula de sessenta minutos. Achei que era o nome do conteúdo.
Era o guarda-chuva que apaga um continente.
Em todos os casos, o que eu havia registrado como necessário era contingente. Alguém decidiu, em algum momento, e depois virou como as coisas são.
E o mesmo vale para o que eu escrevia sobre mim.
Passei décadas tratando o meu silêncio como natureza. Eu era assim. Tímido, encolhido, incapaz de dizer no momento certo.
Natureza não se examina, só se lamenta. E eu lamentei por muito tempo.
Quando finalmente examinei, com data e nome, o que apareceu não foi natureza nenhuma. Apareceram episódios: um comentário sobre a minha roupa, um riso numa cantina, uma sala que leu o meu endereço, um chefe que ridicularizava em público.
Escrevi, num texto, que a parede da caverna não era de pedra, e sim feita de sentenças.
É a mesma coisa que Foucault está dizendo, e a diferença prática é enorme.
Pedra não se atravessa. Sentença se examina, se datava, se responde e às vezes se derruba.
O trabalho, então, não é ganhar coragem. É separar.
De tudo o que parece necessário na minha vida, na minha instituição e na minha igreja, qual parte é de fato inescapável e qual parte foi decidida por alguém, num dia qualquer, e nunca mais revisada?
A segunda pilha é sempre maior do que parece.
E é a única em que dá para trabalhar.


