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A linha passa na minha mesa
Sousa Santos descreve a linha abissal como aquilo que separa o que conta como conhecimento válido do que sequer é considerado conhecimento. Resumi o artigo dele e escrevi sobre saberes tradicionais, coloniais e subalternos, como quem discute um problema que acontece longe. A linha passa na minha mesa. Coordeno assistência estudantil num campus de instituto federal. Boa parte do meu trabalho consiste em decidir, com a equipe, quem recebe auxílio. E o processo funciona assim. Uma família diz qual é a situação dela. E essa declaração, sozinha, não conta. O que conta é o comprovante. Contracheque, extrato, declaração de trabalho informal reconhecida em cartório, conta de luz no nome de…
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A porta do recomeço
Neste domingo, enquanto o eco da Escola Dominical ainda preenchia a igreja, o passado cruzou a porta. Reconheci-o de imediato. Um cumprimento rápido, um convite e, logo em seguida, o acolhimento ao redor do café no refeitório. Era um rapaz que congregara conosco anos atrás. Naquela época, havia aceitado a fé sob o nosso teto e logo começara a pregar. Mas, como uma chuva temporã que umedece a terra e logo evapora, o ímpeto passou, e ele se deixou levar pela correnteza dos dias. Tentamos resgatá-lo. Batemos em portas, buscamos pela família, e o esforço esbarrou no silêncio. Ele deixou a cidade, e as notícias que o vento trazia confirmavam…
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O padeiro demitido
Quando nos reuníamos na Assembleia de Deus do morro do Alagoano, houve um tempo em que celebrávamos o Natal em frente às casas de Dona Rosa, em memória, e do Natalino. A igreja também se abrigava na casa de Dona Menininha. Havia uma geografia peculiar naquelas ladeiras: saíamos da rua principal que contornava o campo de futebol, descíamos alguns degraus e, logo à direita, ficava a casa da Dona Menininha; à esquerda, a de Dona Rosa, que nutria um grande apreço pelo meu pai. Se seguíssemos um pouco mais, a escadaria cedia lugar ao chão de terra batida. Ali, à beira do caminho, erguia-se uma casa de portão gradeado. Diziam…
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Depois do diagnóstico
A crítica mais comum à Dialética do Esclarecimento é que ela não oferece saída. O livro mostra como a razão que prometia libertar virou instrumento de dominação, como a cultura virou indústria, como o indivíduo foi sendo esvaziado. E termina sem programa. Sem proposta. Sem o que fazer na segunda-feira. Isso costuma ser dito como acusação, e não é injusto. Mas é o meu problema também, e é por isso que eu preciso escrever sobre ele. Escrevo uma tese sobre racionalização e sistemas algorítmicos na educação. Descrevo uma jaula. Mostro como decisões que ninguém votou passaram a organizar o dia de estudantes e professores, e como o indicador foi tomando…
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A lista
O que Humphreys produziu, no fim das contas, foi uma lista. Nomes e endereços de homens cuja exposição destruiria a vida deles. Ele nunca a divulgou, e não há registro de que alguém tenha sido prejudicado. Mas a lista existiu, e existiu porque um pesquisador teve acesso a uma coisa que aquelas pessoas só faziam sob a condição de que ninguém soubesse quem eram. E é isso que faz aquele caso continuar servindo cinquenta anos depois, mesmo para quem nunca vai fazer sociologia da sexualidade. Ele descreve uma situação que é bem mais comum do que parece: a de alguém que, por causa da própria posição, vê o que as…
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Orvalhos de conteúdo
Escrevi, sobre o professor que eu observava, em meu estágio obrigatório do curso de Licenciatura em Teatro, que ele havia entrado no jogo da turma. Que dançava conforme a música. Que não impunha, e que tentava conciliar alguns orvalhos de conteúdo com uma torrente de interações discentes. Reli isso quatro anos depois e reconheço que aquela frase é a coisa mais precisa que eu escrevi em todo o estágio. Orvalho contra torrente. Ele tinha gotas para oferecer e a sala tinha enxurrada. O ciclo era sempre o mesmo, e eu o anotei com a paciência de quem observa por semanas. Ele entrava, ligava o computador, projetava slides para serem copiados.…
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Aula 01: café
O cronograma tem cinquenta linhas. Da aula dois em diante, é o que se espera de um curso de teatro: possibilidades do corpo, danças populares, consciência corporal, linguagem postural, voz em harmonia com o movimento, improviso, roteiro, cenário, figurino, jogo de luz, quatro ensaios gerais e a apresentação. A primeira linha é outra coisa. Aula 01, 28 de junho de 2022: apresentação do projeto e coffee break especial com dinâmica de apresentação. A primeira aula é um café. Eu tinha acabado de passar meses observando aquela turma. Alunos de famílias com renda per capita abaixo de meio salário mínimo, na Grande São Pedro, numa escola de tempo integral, dentro de…
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O plano
Depois de meses observando aquela turma, eu tive que projetar um curso para ela. Cinquenta encontros, dois por semana, de junho a dezembro de 2022. Cem horas de teatro para o 7º Ano 1 da Escola Viva de São Pedro. Dezessete meninas e catorze meninos, entre onze e catorze anos, de famílias com renda per capita abaixo de meio salário mínimo. Reli o plano meses depois e descobri uma coisa que não percebi enquanto escrevia: cada peça dele responde a alguma coisa que eu tinha anotado nos diários. O objetivo geral do projeto é este, e está escrito assim: promover a participação de todo o grupo nos exercícios e apresentações,…
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De onde vem essa convicção
Entrevistei alunos de uma escola durante um estágio supervisionado. Perguntei o que achavam das aulas de Artes. Disseram que não tinham muito interesse, porque não consideravam a disciplina importante. Anotei no relatório que era possível perceber um pragmatismo nas declarações deles. E então escrevi, no meio de um documento acadêmico, uma pergunta que eu não sabia responder: De onde vem esta convicção pragmática em alunos tão novos? Eram meninos e meninas de doze, treze anos. E eles já sabiam, com segurança, qual conhecimento vale e qual não vale. Ninguém nasce sabendo isso. Não existe criança que chegue ao mundo hierarquizando saberes por utilidade. A convicção de que Artes é secundária…
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Sessenta cores
O professor me contou, durante o estágio na Escola Viva em São Pedro, que havia comprado uma caixa de lápis de cor com mais de sessenta cores para um aluno. O menino sonhava com aquela caixa. A família não podia comprar. Então o professor comprou. Anotei o episódio no diário e escrevi, logo em seguida, que ele havia se envolvido emocional e economicamente na realidade social do aluno. E acrescentei uma ressalva: que essa proximidade pode ser boa ou ruim, dependendo de como as relações se desenvolvem. É uma frase correta. É o que se ensina em qualquer formação sobre vínculo profissional. É o que eu diria hoje a um…


























