Educação & Cuidado

O plano

Depois de meses observando aquela turma, eu tive que projetar um curso para ela.

Cinquenta encontros, dois por semana, de junho a dezembro de 2022. Cem horas de teatro para o 7º Ano 1 da Escola Viva de São Pedro. Dezessete meninas e catorze meninos, entre onze e catorze anos, de famílias com renda per capita abaixo de meio salário mínimo.

Reli o plano meses depois e descobri uma coisa que não percebi enquanto escrevia: cada peça dele responde a alguma coisa que eu tinha anotado nos diários.

O objetivo geral do projeto é este, e está escrito assim: promover a participação de todo o grupo nos exercícios e apresentações, sem distinções de sexo, etnia, ritmos e temperamentos, favorecendo o processo intergrupal.

Todo o grupo. Sem distinções. Processo intergrupal.

Eu tinha visto dois alunos sentados sozinhos numa biblioteca, sem interagir com ninguém, nem entre si. Tinha visto um menino sair da sala porque três colegas riram do desenho dele. Tinha visto um aluno sem uniforme atravessar uma aula inteira sem que ninguém dirigisse a palavra a ele.

E então escrevi um objetivo geral que diz, em linguagem de projeto pedagógico: ninguém fica de fora.

Na metodologia, coloquei três ações. A primeira é conectar os alunos entre si com base no respeito. A terceira é reconhecer o território por meio de uma caminhada pelo bairro, identificando pontos de contato cultural.

No meu relatório final, eu havia escrito que a escola está na comunidade e não participa dela, que não leva a escola até o bairro nem traz o bairro para dentro.

E aí planejei uma caminhada.

O aluno número catorze do cronograma chama-se “Dominando o território”.

E há um detalhe de proporção que só se vê contando. Das cinquenta aulas, sete são sobre emoção. Cinco encontros seguidos chamados “Dominando as emoções”, numerados de um a cinco, e mais três sobre emoções e movimento corporal.

Quatorze por cento de um curso de teatro dedicados a uma coisa só.

Eu tinha registrado, nos diários, palavrões trocados com intenção de ferir, ameaças de agressão física entre alunos e um episódio de humilhação pública que eu, na época, não tive coragem de nomear direito.

O currículo não mente. Ele mostra o que o professor achou que aquela turma mais precisava, e eu achei que era isto: aprender o que fazer com o que se sente.

Não escrevi nenhuma dessas ligações no documento. Um projeto pedagógico não é lugar para dizer que a aula quatorze existe porque a escola virou as costas para o bairro, ou que as aulas vinte e duas a vinte e seis existem porque um menino saiu chorando de uma biblioteca.

Você escreve objetivo geral, objetivos específicos, fundamentação teórica, metodologia e cronograma. E a dor que originou tudo aquilo fica embaixo, sem aparecer.

Mas ela está lá, linha por linha.

Todo plano de aula honesto é uma resposta a alguma coisa que alguém viu e não conseguiu esquecer.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *