• Filosofia & Teologia

    A moral provisória

    Resumi o Discurso do Método e deixei de fora a parte que mais me diz respeito. Descartes decidiu duvidar de tudo. Suspender qualquer coisa que não se apresentasse com clareza suficiente para excluir a dúvida, e reconstruir o conhecimento a partir do que restasse. E aí ele fez uma coisa que quase ninguém comenta. Na terceira parte, antes de começar a demolição, ele adota o que chama de moral provisória: um conjunto de máximas para viver enquanto a dúvida estivesse em andamento. Decidiu obedecer às leis e aos costumes do seu país. Decidiu conservar a religião em que fora criado. Decidiu ser firme e resoluto nas ações, seguindo até as…

  • Filosofia & Teologia

    O gamão

    Escrevi que Hume tem uma moral provisória. Não tem. Moral provisória é de Descartes, e eu misturei os dois porque tinha acabado de resumir um antes do outro. E a confusão vale a pena examinar, porque as duas respostas ao mesmo problema são bem diferentes, e a de Hume é a verdadeira no meu caso. O problema é este: o que se faz enquanto a dúvida não se resolve? Descartes responde com uma decisão. Antes de derrubar a casa, aluga um alojamento: mantém as leis do país, conserva a religião em que foi criado, age com firmeza mesmo em opiniões incertas. Tudo declarado por escrito, tudo provisório, tudo consciente. É…

  • Filosofia & Teologia

    Por que ninguém lavou as mãos

    Hempel abre o capítulo sobre investigação científica com Ignaz Semmelweis, e usa o caso para mostrar como se formula e se testa uma hipótese. Resumi o capítulo para uma disciplina e mencionei a história sem contá-la. Vale contar. Viena, década de 1840. O hospital geral tinha duas alas de maternidade. Na primeira, atendida por médicos e estudantes de medicina, a mortalidade por febre puerperal chegava a mais de dez por cento. Na segunda, atendida por parteiras, ficava em torno de quatro. As mulheres sabiam disso. Imploravam para ser levadas à segunda ala, e algumas preferiam dar à luz na rua a entrar na primeira. Semmelweis foi eliminando hipóteses, uma por…

  • Filosofia & Teologia

    Construção não quer dizer invenção

    Escrevi, resumindo um livro de filosofia da ciência, que a objetividade é uma construção social, moldada por convenções culturais e linguísticas, e que ela é sempre relativa a um contexto específico. Está fiel ao autor. E, solta desse jeito, é uma frase perigosa. Porque em 1995, quando aquele livro chegou ao Brasil, dizer que a objetividade é construída servia para uma coisa: lembrar que cientistas são gente, que trabalham dentro de instituições, com financiamento, disputa e vocabulário herdado, e que a ciência não desce pronta do céu. Isso continua verdadeiro e continua necessário. Só que hoje a mesma frase circula com outra função. Ela virou a chave universal para descartar…

  • Filosofia & Teologia

    Projeto de vida

    Numa das respostas daquele questionário, transcrevi um trecho da Base Nacional Comum Curricular: É papel da escola auxiliar os estudantes a aprender a se reconhecer como sujeitos, considerando suas potencialidades e a relevância dos modos de participação e intervenção social na concretização de seu projeto de vida. E comentei favoravelmente. Escrevi que o projeto de vida vem ao encontro da necessidade das juventudes, que a escola possui as ferramentas para mediar a conexão dos estudantes com o espaço e com o outro, e que isso promove equidade, diversidade e protagonismo. Foi o que eu pensei em 2022. Hoje eu leio a mesma frase e reparo em outra coisa. Ela pede…

  • Educação & Cuidado

    A coragem de se localizar

    A cartografia do sagrado exige um marco zero. O livro de Gênesis abre com “no princípio”, e é essa a lição que ele oferece antes de qualquer conteúdo: nenhuma travessia começa sem princípio declarado. O texto tem o seu, e quem lê precisa do seu. Assim como o viajante depende de um mapa, o estudante precisa de um ponto de origem para que a sua jornada ganhe tração. Todo aprendizado autêntico repousa sobre uma localização precisa. Ninguém se lança ao mar sem conhecer o próprio porto. Na teologia, a consciência dessa latitude espiritual é o primeiro pré-requisito. Você pode ainda não ter delineado a sua linha de chegada, mas ocupa,…

  • Filosofia & Teologia

    A qualidade das perguntas

    Spurgeon deixou um alerta incômodo: não desconfie de ninguém mais do que de si mesmo, porque trazemos os nossos piores inimigos dentro de nós. A trincheira mais hostil ao nosso avanço raramente é cavada pelas circunstâncias externas. É cavada pelos medos enraizados, pelas inseguranças crônicas e pelas limitações que nós mesmos nos impomos. Para desenhar um amanhã de escolhas intencionais, é preciso encarar o passado com a honestidade de um auditor. Esse exercício não deve ser um tribunal de culpa nem um poço de arrependimentos. Trata-se de um inventário, no qual rastreamos as trilhas que desbravamos e pesamos as consequências das nossas apostas. Exige um olhar imparcial, desidratado de vaidades…

  • Filosofia & Teologia

    Deus não concorre com a nossa agenda

    O conforto não produz descrença. Há crentes com a vida inteira resolvida e há quem não tenha nada e não creia em coisa alguma. O que o conforto produz é a desnecessidade. Quando o cenário ao redor é confortável, quando a conta bancária traz segurança e o amanhã parece apenas uma repetição lógica do hoje, o milagre não chega a ser refutado. Ele deixa de ser requerido. A realidade está domada, ao alcance das mãos, e ninguém pede socorro de dentro de casa. Mas o que acontece quando a vida, em suas reviravoltas implacáveis, nos empurra para fora do nosso domínio? É no exato milissegundo em que o chão cede…

  • Filosofia & Teologia

    Saber vazio

    Há uma inquietação que me acompanha há tempos, uma pergunta que, por teimosia ou necessidade, recuso-me a silenciar. Fomos ensinados que ter dúvidas é um sintoma de fraqueza espiritual. Mas hoje percebo que expor a nossa incerteza é a única porta de entrada para a luz. Muitos vivem aprisionados em meias-verdades e fés superficiais simplesmente porque nunca tiveram a coragem de confessar a própria ignorância. Para sermos preenchidos, precisamos primeiro ter a coragem de nos esvaziar. O ato de entregar a nossa dúvida a Deus, reconhecendo que o nosso conhecimento é incompleto, trêmulo, mas sincero, é o que chamo de “saber vazio”. O saber vazio não é a ausência de…

  • Filosofia & Teologia

    Seria alienação?

    Desde os tempos mais remotos, os homens experimentaram a presença de Deus. Os primeiros homens, imersos em um mundo inexplorado e indomável, eram profundamente religiosos. Diante das forças da natureza, as chuvas, os trovões, o brilho do sol, o mistério da lua e das estrelas, o homem primitivo sentia algo além de si, algo grandioso e inefável, e reverenciava essa força superior. O homem moderno parece ter perdido esse contato direto com a natureza. Vivendo em cidades de concreto, isolado pela tecnologia e pelas preocupações imediatas, sua sensibilidade diminui. O que antes era uma ponte para o divino, para o mistério, tornou-se um cenário indiferente. Não nos propondo ao panteísmo,…