Filosofia & Teologia

A flecha e o eco

O relativismo transformou a verdade em uma commodity maleável, uma mercadoria intelectual adaptada ao sabor das ideologias da vez. Em nosso tempo, ela foi rebaixada a opinião passageira: uma construção estética e cultural que varia de grupo para grupo, e da qual cada um toma o que lhe convém.

Se assumirmos, porém, que Cristo não apenas diz a verdade, mas é a Verdade, todo esse castelo de cartas desmorona. A declaração “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” não negocia. Se Jesus é a Verdade, ela permanece inalterada e soberana, independente do consenso ou da discordância das multidões. Ela não é um cardápio do qual escolhemos o que nos agrada.

Em sua essência, a verdade não é uma conclusão lógica alcançada pelo esforço humano: é o movimento de revelação que parte de Deus em direção à criatura. Não é um conceito abstrato, mas a Palavra que rasga os céus, encarna na história e atravessa o coração humano para redimi-lo. É o vetor profético, o Criador rompendo o silêncio.

Esse desdobramento exige um eco. É aqui que nasce a oração. Se a verdade é a flecha que desce de Deus para o homem, a oração é o movimento de retorno do homem para Deus. É a nossa resposta sacerdotal ao convite de comunhão.

O movimento profético oferece a visão, a direção e a natureza do Criador. O movimento sacerdotal eleva o espírito da criatura. Nesse sentido, a oração abandona a miséria de ser um monólogo de petições e assume a sua vocação de diálogo.

Verdade e oração são realidades interdependentes. Uma oração que não se fundamenta na verdade é um ritual vazio, um delírio místico. E uma verdade que não encontra o eco da oração torna-se uma ortodoxia fria, uma teologia morta, desconectada da vida humana.

O chamado para viver a verdade não é um convite à rigidez intelectual, mas à transformação contínua. É a aceitação de que fomos atingidos por uma voz que transcende as modas da época. E esse Deus, sendo absoluto, teve a graça de não nos deixar no escuro.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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