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Anima
Escrevi, numa resenha sobre teatro de bonecos, que no teatro de formas animadas a anima é o ator-manipulador. Que ele é o agente alma, o espírito que dá dinâmica à arte. Escolhi essa palavra sem pensar, e ela é a raiz de tudo. Animar é dar alma. Anima, em latim, é sopro, é aquilo que faz respirar. Formas animadas não são formas que se movem: são formas que receberam alma de alguém que tinha alma para dar. E o gesto é sempre o mesmo. Alguém pega uma coisa que não vive, pano, madeira, papelão, e sopra dentro dela alguma coisa que não estava lá. A matéria é inerte antes e…
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Ouvir o próprio pé
Num exercício de percepção, pedi que os estudantes caminhassem de olhos fechados pela sala. Depois, um deles contou o que tinha acontecido. Disse que ouviu o próprio pé. Foram três palavras, ditas sem nenhuma solenidade, e é a melhor coisa que apareceu em seis meses de trabalho. Aquele menino tem dezesseis anos, faz curso técnico integrado ao ensino médio, entra na escola às sete da manhã e sai às cinco e meia da tarde. Passa dez horas por dia num prédio com muro alto, câmera, portão de ferro e horário rígido, aprendendo coisas que servem para operar sistemas. E numa tarde de sexta-feira, andando devagar de olhos fechados numa sala…
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A luta entre a voz e o corpo
Num trabalho de iluminação cênica, precisei projetar uma cena. Descrevi três momentos, cada um com um tipo de luz, e cada um com um estado do ator. Reli três anos depois e descobri que tinha escrito a minha própria biografia sem perceber. O primeiro momento. A cena se inicia com o ator de cabeça baixa, agachado, a se levantar lentamente, olhando fixamente para um ponto na plateia. Luz frontal, até que ele fique completamente ereto. Cabeça baixa. Agachado. Escrevi, sobre mim mesmo, num relato de sonho: entrei de cabeça baixa, os olhos rastreando o chão, os rodapés e as pontas dos meus próprios sapatos, porque era vício antigo caminhar encolhido,…
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Três refletores
No projeto de iluminação que entreguei, escrevi uma frase que serve para quase tudo: É necessário estabelecer uma diferença entre o que é proposto como ideal e o que é possível. Nem sempre o ideal para iluminação será possível para realização. O ideal, ali, seriam projetores elipsoidais, que produzem foco definido e recorte limpo. O possível eram três refletores improvisados de cem watts, extensões elétricas puxadas até onde desse, e uma base montada para que alguém pudesse acender e apagar na hora certa. E foi com isso que projetei a cena. O que me interessa, relendo, não é a precariedade. É o que eu fiz com ela. Não escrevi um…
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Velocidades diferentes
Numa disciplina de laboratório de poéticas, construí duas performances. Uma se chamava Manifesto. A outra, Inventário. E, no memorial que escrevi depois, registrei uma descoberta que não era sobre teatro. Escrevi que o simbolismo do Manifesto estava, talvez, na falta de conexão imediata entre o falado e o movimento. Que nem sempre a fala consegue, ou pretende, se mover na mesma velocidade ou na mesma direção da ação. E completei, no parágrafo seguinte: o que é dito é uma mensagem, mas o que não é dito também é uma mensagem. O que é movimentado é uma mensagem, e também o que não é. Escrevi isso como observação técnica sobre construção…
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As linhas do meu rosto
Para preparar um monólogo, precisei estudar maquiagem teatral. E o exercício começava assim: observar as linhas do ator. No caso, eu mesmo. Então sentei diante do espelho e olhei o meu rosto com atenção técnica, procurando onde ele tem estrutura. As laterais da testa. As maçãs. A linha do maxilar. A curvatura da testa. Os cantos dos olhos. Depois apliquei uma base do tom da minha pele, com uma esponja de louça mesmo, porque o orçamento não dava para mais. Sombra clara nas linhas naturais. Sombra escura para dar dimensão ao nariz. Traços pretos realçando o contorno. Lápis rente aos cílios e às sobrancelhas para destacar o olhar. Fiz o…
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Antes da primavera
O quintal, nos primórdios da memória, era um mundo em suspensão. A área dos fundos não passava de uma promessa arquitetônica: paredes erguidas pela metade, pilhas de tijolos e um chão de terra batida que exalava o cheiro seco de poeira e cimento. Era para ser uma extensão segura do lar e, para quem ainda dava os primeiros passos na compreensão da vida, convertia-se num labirinto de alvenaria inacabada. Foi no meio desse emaranhado de alicerces que a visita se materializou. Alguém da mesma estatura da minha própria ingenuidade, mas que trazia nos gestos uma intenção que o meu dicionário infantil ainda não sabia traduzir. O convite soou como um…
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Mestre de caminhos
Fui mestre de caminhos, mas confesso: temi pisar a estrada que eu mesmo pavimentei. Carreguei o mapa com a autoridade dos sábios, e os meus pés tremeram ao primeiro passo. Investi em conhecimento com a ousadia de um visionário, apenas para colher o silêncio de um futuro que nunca soube desembarcar. Fui aquele que trocou o agora pulsante por uma promessa embalada num anel de latão vindo de um chiclete, suplicando para que ali morasse o ouro de uma rara eternidade. Suspirei diante dos faróis que iluminaram a minha existência, mas recuei. Não foi a escuridão que me afugentou. Foi o brilho. Habitei casas sem morador e nelas sonhei. Abri…
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Mestre de caminhos
Fui mestre de caminhos, mas confesso: temi pisar a estrada que eu mesmo pavimentei. Carreguei o mapa com a autoridade dos sábios, e os meus pés tremeram ao primeiro passo. Investi em conhecimento com a ousadia de um visionário, apenas para colher o silêncio de um futuro que nunca soube desembarcar. Fui aquele que trocou o agora pulsante por uma promessa embalada num anel de latão vindo de um chiclete, suplicando para que ali morasse o ouro de uma rara eternidade. Suspirei diante dos faróis que iluminaram a minha existência, mas recuei. Não foi a escuridão que me afugentou. Foi o brilho. Habitei casas sem morador e nelas sonhei. Abri…
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Uma âncora que ninguém atirou
A dor da ansiedade é uma corrente invisível que esmaga a alma e asfixia o corpo. O seu nascedouro é a garganta, um nó que anseia por desatar-se e que se retorce. A garganta, esse limiar exato entre o dito e o não dito, converte-se no lugar onde a angústia inicia a sua marcha. É uma tensão que vibra como uma palavra aprisionada, um grito abortado. A partir dali, essa força despenca até o estômago, onde finalmente se aloja: um ponto de chegada denso e de chumbo, fixado como uma âncora que ninguém atirou. O estômago transforma-se no cemitério daquilo que deveria ter sido expelido e que se voltou contra…



























