As linhas do meu rosto
Para preparar um monólogo, precisei estudar maquiagem teatral.
E o exercício começava assim: observar as linhas do ator. No caso, eu mesmo.
Então sentei diante do espelho e olhei o meu rosto com atenção técnica, procurando onde ele tem estrutura. As laterais da testa. As maçãs. A linha do maxilar. A curvatura da testa. Os cantos dos olhos.
Depois apliquei uma base do tom da minha pele, com uma esponja de louça mesmo, porque o orçamento não dava para mais. Sombra clara nas linhas naturais. Sombra escura para dar dimensão ao nariz. Traços pretos realçando o contorno. Lápis rente aos cílios e às sobrancelhas para destacar o olhar.
Fiz o rosto ficar mais visível.
Preciso dizer o que isso significa, para quem não conhece o resto dos meus textos.
Passei a vida com vergonha do meu rosto. Escrevi isso com essas palavras: vergonha do próprio rosto, da voz, do corpo, do sobrenome e da casa. Escrevi que me acovardava em fotografias sombreadas, e que ao lado de amigas bonitas o pavor de sair torto na foto me encolhia.
Aos trinta e sete anos, uma disciplina de teatro me mandou sentar na frente do espelho, encontrar as linhas daquele rosto, e depois desenhá-las por cima para que ficassem mais evidentes.
Não menos. Mais.
Passei quatro décadas tentando ocupar menos espaço, e ali estava eu, com uma esponja de louça na mão, aumentando o meu próprio contorno para que ele chegasse ao fundo da sala.
E há uma palavra, no meio da minha própria descrição, que entrega tudo.
Escrevi: usei uma sombra escura para realçar a dimensionalidade do seu nariz.
Do seu nariz.
Estava descrevendo o meu rosto, no meu texto, sobre a minha própria maquiagem, e escorreguei para a terceira pessoa numa palavra só.
Faço isso com frequência. Sempre que o assunto é a minha vergonha, eu troco de pessoa. Escrevi um autorretrato inteiro chamando a mim mesmo de ele. Escrevi textos sobre humilhações minhas usando a distância da terceira pessoa como anestesia.
Aqui a troca durou uma palavra e voltou sozinha.
Talvez porque, naquele momento, o rosto no espelho realmente não fosse só meu. Era o rosto de um personagem, e eu estava construindo aquele personagem com as linhas que tinha à disposição, que por acaso eram as minhas.
É essa a permissão que o teatro dá, e eu não sabia que precisava dela.
No espelho de casa, olhar o próprio rosto com atenção é vaidade ou é acusação, e as duas coisas doem.
No espelho do camarim, é trabalho.
O mesmo homem, o mesmo rosto, a mesma luz. E, pela primeira vez, um motivo legítimo para olhar sem se punir.


