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A caneta que escreve o valor
Existe uma violência silenciosa que não se traduz em golpes, mas em insinuações e na presença sufocante de quem habita a obsessão pelo domínio. É a figura que se vale da hierarquia de crachá para projetar uma sombra sobre o outro, por meio de um olhar que tenta desautorizar e de um esmagamento que nunca precisa tocar ninguém. Não é apenas ocupação de espaço: é a intenção de punir a autenticidade alheia, e o incômodo com aquilo que não se consegue controlar. Nesse tribunal das aparências, características deixam de ser características e viram alvos. A cor da pele e a fé de alguém passam a ser lidas como demérito por…
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Andaime
Ser escolhido como o provisório pode soar como uma sentença de insignificância, uma posição que sugere substituibilidade e uma espera amarga até que o definitivo ocupe o lugar. Mas essa leitura ignora a profundidade do gesto. Há uma sabedoria em aceitar a interinidade, porque escolhas nunca são neutras. Ser o provisório é revelar uma força que o permanente raramente exige: a coragem de ser a resposta quando o futuro ainda é uma neblina. Assumir esse papel significa que, no momento crítico, você se apresentou como a solução para um vazio que não podia esperar. É um ato de resistência contra a neurose da permanência, um sinal de que, mesmo sem…
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Não peça desconto na vida
Há uma máxima implacável: não peça desconto na vida. Pague o preço integral de cada sonho, de cada lágrima e de cada conquista. Quando construímos o nosso caminho à custa de suor e propósito, descobrimos que a verdadeira soberania nasce do compromisso com a própria história. Não aceite lutar por migalhas, nem se permita virar refém de esmolas emocionais ou materiais. A luta diária é para forjar uma realidade onde tudo o que possuímos seja fruto legítimo da nossa coragem, e não do acaso. Não se perca no tribunal dos julgamentos alheios. Julgar o outro é desviar os olhos da própria estrada, uma distração que consome energia e turva a…
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Catracas invisíveis
A trajetória na carreira pública é atravessada por uma fome de expansão: a urgência de romper barreiras, dilatar o próprio conhecimento e testar os limites da própria capacidade. Movido por isso, um jovem concursado decide arriscar-se no processo seletivo de uma pós-graduação, território que prometia as chaves para o próximo salto. Sabia que pisaria fora da zona de conforto e longe do reduto das exatas, e ainda assim o frio na barriga foi engolido pelo desejo de provar a si mesmo até onde poderia chegar. O veredito das bancas foi um espetáculo. Ele não apenas garantiu a vaga: cravou o nome no topo da lista. O desempenho na prova escrita…
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Um tribunal improvisado
Existe uma subversão profunda no sorriso que incomoda. Não se trata de um clichê romântico, mas de uma resposta que desarma. Em cenários onde o objetivo é a nossa desestabilização, onde o ar pesa com a tentativa de controle, o simples repuxar dos lábios converte-se em ato de resistência. Esse gesto, frequentemente decodificado pelo agressor como deboche, é a constatação espontânea de que a tentativa de cerceamento fracassou. Quem já foi alvo dessa dinâmica conhece a artilharia pesada do gesto. Ele opera como escudo, uma mensagem não verbal que decreta: eu permaneço inteiro, independentemente da sua fúria. E é exatamente essa autonomia que desconcerta quem aguardava submissão. A tranquilidade desestabiliza…
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A igreja entre as palmeiras
Quando morávamos em Pedra dos Búzios, meu pai teve um sonho que lhe roubou o sossego. Ele caminhava por uma estrada ladeada por palmeiras imponentes. A imagem era nítida, o significado mudo. Guardou o mistério no peito. A tradução veio meses depois, a caminho de um sítio para buscar mangas com um colega. Ao dobrar uma curva na estrada, o cenário do sonho saltou para a realidade: as palmeiras estavam lá, enfileiradas. Ele entendeu que estava pisando em solo sagrado. Ao chegar ao sítio, a carência espiritual do lugar era palpável. Longe de tudo, os moradores não tinham onde congregar. O dono da terra, percebendo a sensibilidade do meu pai,…
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O segundo
Quando nos mudamos de Vitória para Vila Velha em 1996, nossa família foi recebida com cordialidade e respeito pelo pastor João Torres. Ele acolheu meu pai com honras, reconhecendo nele a experiência e o chamado pastoral que carregava. Nomeou meu pai como o “segundo” da igreja, um termo utilizado na época para designar o co-pastor, aquele que estava ao lado do líder principal para apoiar e somar na condução da obra de Deus. A igreja era de cor verde, um templo que abrigava a Assembleia de Deus que, outrora, havia sido uma congregação da Assembleia de Deus em São Torquato. Com o passar do tempo, a congregação foi emancipada, recebendo…




















