Uma teoria bonita, porém frágil
Há uma crença entre os religiosos, quase um axioma, que insiste: devemos acreditar no impossível. Dizem isso com convicção, como uma verdade que ultrapassa a razão. Mas o que acontece quando essa crença precisa virar ação viva?
É uma tarefa fácil, quase trivial, falar de fé ao outro. Exortar alguém a confiar naquilo que não vê é um exercício seguro quando estamos de fora. Contudo, quando o impossível se aproxima de nós com sua face fria e densa, nossas palavras titubeiam. A fé, tão valente em teoria, começa a oscilar.
Então construímos uma fé ao avesso: passamos a acreditar apenas no que vemos e a duvidar do que é invisível. Os milagres, que antes evocavam uma esperança inquebrantável, tornam-se símbolos opacos, e nos perguntamos se eram realmente divinos.
Há um abismo entre o que dizemos e o que realmente acreditamos. É fácil manter a fé quando o impossível é uma ideia romântica, distante e sem ameaças. Quando ele se torna presença incômoda, que desafia nosso chão seguro, a mente começa a desfazer tudo aquilo que pregamos. É nesse ponto que muitos se afastam. É aí que surge a desilusão com o divino, a mesma que repousa em tantos que se abrigam nas igrejas, feridos por uma promessa que nunca se concretizou.
Quantas vezes fomos ensinados a acreditar em uma teoria bonita, porém frágil, uma fé que se dissolve ao menor toque do real?
Ter fé é perceber a morte tão próxima quanto a vida, aceitar a presença da perda e, ainda assim, crer que a vida é mais vasta.


