• Artes & Narrativas

    Spagnal

    Ao adentrar aquela rua de paralelepípedos banhada em tons de amarelo e alaranjado, tingida pelo barro que sangrava da encosta de pedra à direita, senti a espinha vibrar. Foi ali, na quebrada exata entre a saída da Vila Batista e a entrada de Pedra dos Búzios, que o fascínio me tomou de assalto. Fizemos a travessia a pé, eu e meus pais, caminhando em direção ao que seria o nosso novo lar. E fomos tateando cada vez mais fundo, engolidos pelo ponto onde a calçada minguava até a rua se estrangular, definitivamente, num beco. Foi lá, na profundidade daquele corredor de pedra e barro, que ouvi pela primeira vez a…

  • Artes & Narrativas

    O padeiro demitido

    Quando nos reuníamos na Assembleia de Deus do morro do Alagoano, houve um tempo em que celebrávamos o Natal em frente às casas de Dona Rosa, em memória, e do Natalino. A igreja também se abrigava na casa de Dona Menininha. Havia uma geografia peculiar naquelas ladeiras: saíamos da rua principal que contornava o campo de futebol, descíamos alguns degraus e, logo à direita, ficava a casa da Dona Menininha; à esquerda, a de Dona Rosa, que nutria um grande apreço pelo meu pai. Se seguíssemos um pouco mais, a escadaria cedia lugar ao chão de terra batida. Ali, à beira do caminho, erguia-se uma casa de portão gradeado. Diziam…

  • Artes & Narrativas

    A pasta do meu pai

    Eu busco. E, quando olho para trás, percebo que essa fome já me habitava desde a infância. Sentado no quintal de casa, no bairro Grande Vitória, eu brincava sobre o chão de areia que meu pai e minha mãe carregaram em baldes, suor após suor. Eles transformaram o presente do meu bisavô, um terreno que outrora fora apenas manguezal, em solo firme. De carrinho em carrinho, o barro moldou-se em quintal, e o quintal tornou-se o meu mundo. Foi ali, sobre aquele aterro recém-nascido, que eu comecei a buscar. Procurava algo que a minha idade não sabia nomear. A palavra executivo, não sei de qual rádio, conversa ou intuição ela…

  • Filosofia & Teologia

    O cansaço do escuro

    A rejeição é uma ferida que se recusa a sangrar. É uma pedra invisível atirada contra o peito, cujo impacto não deixa hematoma na pele, mas provoca um estrondo que reverbera na alma. Rejeitar é um ato. Ser rejeitado é um abalo sísmico. São duas margens de um mesmo abismo, e os abismos internos são irreconciliáveis. O primeiro raramente tem a dimensão do peso que acaba de depositar no outro. O segundo é reduzido a objeto descartado, exilado sem direito a sentença, sem a dignidade de uma palavra. Contudo, esse abalo não brota no vácuo. A rejeição só floresce no exato solo onde antes havia a intenção de permanecer, de…

  • Artes & Narrativas

    Fome de ser

    Existe em mim uma fome de ser, uma força oculta que vibra na fundação da existência. Sinto, de forma quase visceral, a intuição de que não estou completo, e é essa consciência da falta que me obriga a interrogar o mundo com uma pergunta: qual é, afinal, o meu lugar? Não procuro a resposta em um crachá, em um cargo ou em um rótulo transitório. O que me move é a busca por uma identidade que me defina na essência. Vivemos, no entanto, em uma engrenagem que detesta o infinito. A sociedade limita o sentido da existência a funções utilitárias, como se a complexidade da alma pudesse ser enjaulada em…

  • Educação & Cuidado

    Cor, CEP e fé

    Até 2008, o preconceito econômico e racial era, para mim, uma teoria distante. Uma realidade que girava o mundo e que ainda não havia esmagado os meus ombros. Eu caminhava amparado pela segurança da minha própria identidade, alheio à sensação asfixiante de ser rotulado por características que me são tão naturais quanto respirar. Ao ingressar em uma instituição de ensino, descobri da pior forma que a discriminação não habita apenas as calçadas. Ela prolifera, com requintes de sutileza, exatamente naqueles espaços que deveriam servir como santuários do desenvolvimento humano. Foi dentro daquela redoma, onde eu ingenuamente esperava encontrar pluralismo, que a parede invisível do elitismo colidiu comigo. As marcas do…

  • Filosofia & Teologia

    A primeira pessoa do plural

    A paixão é o instante em que duas realidades colidem e, em vez de seguirem paralelas, fundem-se. Cada um se dissolve para dar à luz algo inédito: a primeira pessoa do plural. Emerge um nós que não existia na véspera. Quando a paixão se instala, ela dilui limites e mescla identidades em um amálgama que desafia a matemática. A partir desse ponto, torna-se impossível decodificar a vida no singular. Cessa a divisão entre o eu e o você para que pulse uma nova entidade. O que um sente, o outro ecoa. O mundo passa a ser refletido pelos olhos dessa criatura, um espaço onde os gestos, os olhares e as…

  • Artes & Narrativas

    Madrugadas de 2006

    Sempre fui habitado por um paradoxo: o anseio pendular entre a distinção e o pertencimento. Desejava ostentar uma singularidade que me destacasse, uma superioridade silenciosa que, em vez de afastar, atraísse os outros. Ao mesmo tempo, mendigava aceitação. Queria diluir-me no grupo, sentir-me parte da tribo, ser igual o suficiente para não sobrar. Esse cabo de guerra me consumia, até que o mundo virtual, com as suas telas protetoras, ofereceu-se como o laboratório perfeito para testar essas facetas. Foi no epicentro dessa busca que as madrugadas de 2006, iluminadas pelo brilho pálido do MSN e do Orkut, surgiram como refúgio. A amizade mediada por redes não era apenas uma fuga:…

  • Pólis & Gestão

    Atrofiando em bando

    Deparei-me recentemente com um grupo online batizado de “Seleção Natural”. A ironia do título já gritava aos olhos, mas decidi transpor a porta e observar a dinâmica. Logo ficou claro o propósito do espaço: um tribunal digital onde insultos eram sistematicamente dirigidos aos diferentes, fossem eles rotulados como românticos, sentimentais ou qualquer outra tipologia que fugisse ao molde do grupo. Para todos os réus, a sentença era unânime: “Vaza, babaca.” O que constitui um babaca aos olhos dessa tribo? O termo ali servia para designar o sujeito que diverge da normalidade estipulada pela bolha, aquele que ousa não se adaptar ao padrão e, por isso, precisa ser rebaixado. Quanto mais…