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Ninguém ali conhece Oprah
Abra qualquer livro de autoajuda brasileiro no capítulo dos exemplos inspiradores e você vai encontrar as mesmas pessoas. Oprah Winfrey. Nelson Mandela. Malala. Madre Teresa. Steve Jobs. Um monge budista, geralmente Thich Nhat Hanh. São pessoas admiráveis, e nenhuma delas mora aqui. Reparei nisso porque passei o último ano relendo tudo o que escrevi em vinte anos, e os meus exemplos são outros. Um padeiro demitido no morro do Alagoano, que acendeu o forno em casa e passou a vender pão doce pelas frestas de um portão gradeado que nunca abria. Um professor de Artes de escola pública que comprou uma caixa de lápis de cor com mais de sessenta…
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Ler Weber por um brasileiro
Em um projeto de pesquisa não tinha pesquisa dentro. Mas tinha uma intuição, e a intuição era boa. A ideia era ler Max Weber através de Mário Ferreira dos Santos. Weber é o autor central da minha área. Racionalização, desencantamento. Mário Ferreira dos Santos é um filósofo brasileiro, gaúcho, que morreu em 1968 depois de produzir uma obra de dimensões quase impossíveis, incluindo uma enciclopédia filosófica escrita praticamente sozinho. Ele está fora do cânone universitário brasileiro. É pouco citado em programas de pós-graduação, quase não aparece em bibliografia de disciplina, e circula sobretudo fora da academia. E a ideia de ler um clássico europeu através de um pensador brasileiro é…
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Spagnal
Ao adentrar aquela rua de paralelepípedos banhada em tons de amarelo e alaranjado, tingida pelo barro que sangrava da encosta de pedra à direita, senti a espinha vibrar. Foi ali, na quebrada exata entre a saída da Vila Batista e a entrada de Pedra dos Búzios, que o fascínio me tomou de assalto. Fizemos a travessia a pé, eu e meus pais, caminhando em direção ao que seria o nosso novo lar. E fomos tateando cada vez mais fundo, engolidos pelo ponto onde a calçada minguava até a rua se estrangular, definitivamente, num beco. Foi lá, na profundidade daquele corredor de pedra e barro, que ouvi pela primeira vez a…
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O padeiro demitido
Quando nos reuníamos na Assembleia de Deus do morro do Alagoano, houve um tempo em que celebrávamos o Natal em frente às casas de Dona Rosa, em memória, e do Natalino. A igreja também se abrigava na casa de Dona Menininha. Havia uma geografia peculiar naquelas ladeiras: saíamos da rua principal que contornava o campo de futebol, descíamos alguns degraus e, logo à direita, ficava a casa da Dona Menininha; à esquerda, a de Dona Rosa, que nutria um grande apreço pelo meu pai. Se seguíssemos um pouco mais, a escadaria cedia lugar ao chão de terra batida. Ali, à beira do caminho, erguia-se uma casa de portão gradeado. Diziam…
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A pasta do meu pai
Eu busco. E, quando olho para trás, percebo que essa fome já me habitava desde a infância. Sentado no quintal de casa, no bairro Grande Vitória, eu brincava sobre o chão de areia que meu pai e minha mãe carregaram em baldes, suor após suor. Eles transformaram o presente do meu bisavô, um terreno que outrora fora apenas manguezal, em solo firme. De carrinho em carrinho, o barro moldou-se em quintal, e o quintal tornou-se o meu mundo. Foi ali, sobre aquele aterro recém-nascido, que eu comecei a buscar. Procurava algo que a minha idade não sabia nomear. A palavra executivo, não sei de qual rádio, conversa ou intuição ela…
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O cansaço do escuro
A rejeição é uma ferida que se recusa a sangrar. É uma pedra invisível atirada contra o peito, cujo impacto não deixa hematoma na pele, mas provoca um estrondo que reverbera na alma. Rejeitar é um ato. Ser rejeitado é um abalo sísmico. São duas margens de um mesmo abismo, e os abismos internos são irreconciliáveis. O primeiro raramente tem a dimensão do peso que acaba de depositar no outro. O segundo é reduzido a objeto descartado, exilado sem direito a sentença, sem a dignidade de uma palavra. Contudo, esse abalo não brota no vácuo. A rejeição só floresce no exato solo onde antes havia a intenção de permanecer, de…
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Interseccionalidade sem brasileiras
Escrevi um artigo defendendo que a análise de gênero nas organizações precisa ser interseccional. Argumentei que as barreiras enfrentadas por mulheres negras, mulheres pobres e mulheres de minorias étnicas são ignoradas quando se fala apenas em gênero, e que uma teoria que não considera essas camadas produz uma exclusão adicional. Está certo, e continuo sustentando. Agora olhe a bibliografia daquele artigo. Nancy Fraser, estadunidense. Iris Marion Young, estadunidense. Seyla Benhabib, turca radicada nos Estados Unidos. Kimberlé Crenshaw, estadunidense. Pierre Bourdieu, francês. Jürgen Habermas, alemão. Max Weber, alemão. Boaventura de Sousa Santos, português. David Salsburg, estadunidense. Nenhuma autora negra brasileira. Nenhuma autora brasileira, aliás. Escrevi sobre a exclusão de mulheres em…
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O prédio que era da medicina
A Escola Viva de São Pedro funciona nas antigas instalações do Campus II da FAESA. A FAESA foi a maior faculdade privada do Espírito Santo, e o Campus II abrigava os cursos da área da saúde. Quando a instituição desocupou o espaço, o Estado aproveitou parte dele para instalar uma escola pública de tempo integral. Anotei isso no meu diário de estágio, em 2022, dentro de um item que eu havia chamado de observações estéticas. Escrevi que as instalações eram dignas de espaço de ensino superior. Escrevi sobre a vista panorâmica para a baía de Vitória, sobre a circulação de ar, sobre o amplo estacionamento, a quadra poliesportiva e o…
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As três matrizes
Num trabalho da licenciatura, escrevi que a Base Nacional Comum Curricular apresenta a arte como área que dá acesso às matrizes culturais brasileiras, e que essas matrizes são três: a indígena, a africana e a portuguesa. E escrevi a parte que importa: Não se deve ficar apenas no passado. É preciso relacionar com o presente e identificar as formas de expressão dessas matrizes na contemporaneidade. Está certo, e é a diferença entre ensinar cultura e embalsamar cultura. A escola brasileira sabe falar das matrizes no pretérito. Indígena aparece no descobrimento, africano aparece na escravidão, português aparece na colonização, e as três ficam trancadas no século dezenove, como se tivessem produzido…
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Congo
O problema parecia insolúvel, e era de calendário. A escola dividia o ano em três trimestres. Artes visuais no primeiro, música no segundo, dança e teatro no terceiro. E o terceiro trimestre terminava em dezembro. O meu estágio de regência terminava em setembro. Ou seja: um estudante de licenciatura em Teatro faria o seu estágio de docência numa escola onde o teatro só aconteceria depois que ele fosse embora. Propus ao professor adiantar a unidade de teatro e deixar a dança para depois. Ele não ficou à vontade com a sugestão e manteve o planejamento dele, o que era direito dele. E eu fiquei com um plano de regência sem…



























