As três matrizes
Num trabalho da licenciatura, escrevi que a Base Nacional Comum Curricular apresenta a arte como área que dá acesso às matrizes culturais brasileiras, e que essas matrizes são três: a indígena, a africana e a portuguesa.
E escrevi a parte que importa:
Não se deve ficar apenas no passado. É preciso relacionar com o presente e identificar as formas de expressão dessas matrizes na contemporaneidade.
Está certo, e é a diferença entre ensinar cultura e embalsamar cultura.
A escola brasileira sabe falar das matrizes no pretérito. Indígena aparece no descobrimento, africano aparece na escravidão, português aparece na colonização, e as três ficam trancadas no século dezenove, como se tivessem produzido tudo o que iriam produzir e depois parado.
O aluno sai da aula sabendo que existiram e sem desconfiar de que estão do lado de fora, funcionando.
Eu escrevi isso em um documento, e num outro, escrito para a mesma disciplina e para a mesma escola, resolvi o problema sem perceber que estava resolvendo.
Precisava de uma proposta de regência. O calendário não me deixava dar teatro, e a saída foi entrar dentro da unidade de dança com uma proposta interdisciplinar. E aí escolhi o que colocar lá dentro.
Escolhi o Congo.
O Congo é a manifestação afro-capixaba viva: casaca, tambor, canto, cortejo. Não é registro de museu nem página de livro didático. Acontece em comunidades do Espírito Santo hoje, com gente que está ali agora, e a maioria dos adolescentes deste estado sabe que existe sem nunca ter feito.
É exatamente a matriz africana no presente. É o que o meu próprio trabalho teórico pedia, aplicado.
E eu não liguei uma coisa à outra.
Num arquivo eu defendia que as matrizes precisam ser encontradas na contemporaneidade. No outro, eu levava uma manifestação contemporânea para dentro de uma sala de aula. Dois documentos da mesma disciplina, no mesmo semestre, e nenhuma linha em nenhum dos dois dizendo que era a mesma ideia.
É o que acontece quando cada entrega cumpre a sua exigência formal e ninguém pede que elas conversem.
Levei quatro anos e uma releitura de tudo para reparar.
E fica a observação que me interessa mais, agora que enxergo as duas juntas.
A parte teórica do trabalho eu escrevi apoiado numa autora só, resumindo o que ela dizia, com citação repetida no fim de cada parágrafo.
A escolha do Congo eu fiz sozinho, sem bibliografia, porque era o que eu conhecia da terra onde nasci.
E é ela que valeu.


