Educação & Cuidado
A Lente Relacional. Orientação, acolhimento, aprendizado. Este é o pilar voltado para o outro. É a categoria da instrução, da empatia, da cura e da formação de indivíduos. Abarca seus papéis de: Professor, Pastor e Conselheiro. O que entra aqui: Práticas de ensino, metodologias de educação (como o homeschooling), reflexões sobre cuidado pastoral, textos sobre saúde emocional, mentoria de vida e artigos sobre o desenvolvimento humano.
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O que a minha avó sabia
Boaventura de Sousa Santos chama de pensamento abissal a linha que separa o que conta como conhecimento do que sequer entra na disputa. O ponto dele é mais forte do que parece. Não se trata de considerar certos saberes inferiores. Trata-se de produzi-los como inexistentes, de modo que nem se apresentem como candidatos. O que está do outro lado da linha não é conhecimento ruim. Não é conhecimento. E a proposta dele, a ecologia dos saberes, é reconhecer que existe conhecimento válido produzido fora dos lugares que emitem certificado. Resumi esse artigo em 2024. Escrevi que a abordagem é inclusiva, democrática e necessária. E em abril de 2026 a minha…
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Quem tem o campo
Num projeto de pesquisa que escrevi, há uma única frase pessoal, e ela está na primeira linha da introdução. Diz que a escolha do tema veio da minha experiência profissional como profissional da educação e artista. É verdade. Sou servidor público federal na educação há quase vinte anos, coordeno, dou aula, prego, e me formei em Teatro aos quarenta. Depois dessa frase, o projeto tem vinte páginas e não volta a mencionar nada disso. O que vem é Adorno, Bourdieu, Freire, Gadamer, Rancière, Benjamin, Larrosa. Todos excelentes, todos pertinentes, todos citados corretamente. E nenhum deles esteve na escola que eu observei. Isso não é um erro de escrita acadêmica. É…
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O silêncio que não é meu
Escrevi sobre silêncio mais do que sobre qualquer outra coisa. Escrevi que existe um silêncio que gesta e outro que foge. Que a ansiedade prova que o silêncio também adoece, porque ela nasce na garganta, no limiar exato entre o dito e o não dito. Escrevi que sou o que não disse. Que o pensamento atravessava a sala e o corpo não saía do lugar. Que passei décadas calado não por falta de voz, mas por excesso de temor. Vinte anos de textos, e o silêncio é o assunto de quase todos. Depois estudei educação de surdos, por exigência de disciplina, e levei um tempo para entender o que estava…
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O projeto das cotas
Em 2017 escrevi um anteprojeto de mestrado. A pergunta era esta: como a implementação das políticas de ações afirmativas influenciou as práticas organizacionais e culturais do campus onde eu trabalho? A lei de cotas era de 2012, a implementação nos institutos federais começara em 2013, e eu queria saber o que tinha mudado ali dentro depois disso. Não fiz. O mestrado que defendi, três anos depois, foi sobre a aceitação do sistema eletrônico de ponto pelos servidores. Já escrevi sobre outros projetos meus que não aconteceram. Um sobre arte e formação de subjetividades estéticas. Outro sobre ética e formação cidadã no ensino médio. Outro sobre ler Weber através de um…
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Enquanto houver poeira
Vinte anos. Quando publiquei aquele primeiro texto em abril de 2006, eu mal sabia que estava dando o passo inaugural naquilo que hoje reconheço como uma escada escura. Ao fechar os olhos e olhar de cima para baixo, vejo que cada degrau dessa descida representou um ano da minha vida. Um ano de caminhada tateante, na tentativa desesperada, e muitas vezes bela, de capturar quem eu sou em meio aos escombros do tempo. Durante duas décadas, este espaço serviu como os meus cadernos de memória. Escrevi enquanto observava, pela janela, o mundo lá fora render-se ao tique-taque inflexível das máquinas e à frieza do aço e do silício. Enquanto a…
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Ouvir o próprio pé
Num exercício de percepção, pedi que os estudantes caminhassem de olhos fechados pela sala. Depois, um deles contou o que tinha acontecido. Disse que ouviu o próprio pé. Foram três palavras, ditas sem nenhuma solenidade, e é a melhor coisa que apareceu em seis meses de trabalho. Aquele menino tem dezesseis anos, faz curso técnico integrado ao ensino médio, entra na escola às sete da manhã e sai às cinco e meia da tarde. Passa dez horas por dia num prédio com muro alto, câmera, portão de ferro e horário rígido, aprendendo coisas que servem para operar sistemas. E numa tarde de sexta-feira, andando devagar de olhos fechados numa sala…
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Dois minutos de Romeu e Julieta
Em 2024 eu quis levar teatro para dentro do instituto onde trabalho. O plano era um projeto de extensão com uma turma do curso técnico em Administração integrado ao ensino médio. Para isso existe um caminho: preencher o formulário de cadastro da ação, obter a anuência da chefia imediata, abrir processo administrativo, encaminhar ao gestor de extensão do campus, aguardar o parecer, enviar a documentação à coordenadoria de ações de extensão, aguardar de novo, e então executar. Descrevi esse percurso inteiro no relatório, com nome de setor e sigla, porque foi o que me impediu. E aí veio a greve. Noventa dias, entre março e junho, servidores federais da educação…
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A porta do recomeço
Neste domingo, enquanto o eco da Escola Dominical ainda preenchia a igreja, o passado cruzou a porta. Reconheci-o de imediato. Um cumprimento rápido, um convite e, logo em seguida, o acolhimento ao redor do café no refeitório. Era um rapaz que congregara conosco anos atrás. Naquela época, havia aceitado a fé sob o nosso teto e logo começara a pregar. Mas, como uma chuva temporã que umedece a terra e logo evapora, o ímpeto passou, e ele se deixou levar pela correnteza dos dias. Tentamos resgatá-lo. Batemos em portas, buscamos pela família, e o esforço esbarrou no silêncio. Ele deixou a cidade, e as notícias que o vento trazia confirmavam…
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Vinte e cinco minutos
Em 2022 assisti a uma entrevista com um mamulengueiro e escrevi uma resenha. Aprendi ali que o mamulengo não se aprendia em oficina, que a transmissão era oral e prática, que se brincava a noite inteira e não duas horas, e que o mestre dizia precisar de um filho para tomar conta da arte quando partisse. E escrevi, com todas as letras, que a oficina toma o lugar da naturalidade transmissiva, entra numa matriz curricular e deixa a arte um pouco enlatada. Em 2023 eu escrevi um plano de aula sobre teatro de bonecos populares. Quatro aulas de sessenta minutos. Na aula dois, os alunos confeccionam bonecos. Tempo previsto para…
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Interseccionalidade sem brasileiras
Escrevi um artigo defendendo que a análise de gênero nas organizações precisa ser interseccional. Argumentei que as barreiras enfrentadas por mulheres negras, mulheres pobres e mulheres de minorias étnicas são ignoradas quando se fala apenas em gênero, e que uma teoria que não considera essas camadas produz uma exclusão adicional. Está certo, e continuo sustentando. Agora olhe a bibliografia daquele artigo. Nancy Fraser, estadunidense. Iris Marion Young, estadunidense. Seyla Benhabib, turca radicada nos Estados Unidos. Kimberlé Crenshaw, estadunidense. Pierre Bourdieu, francês. Jürgen Habermas, alemão. Max Weber, alemão. Boaventura de Sousa Santos, português. David Salsburg, estadunidense. Nenhuma autora negra brasileira. Nenhuma autora brasileira, aliás. Escrevi sobre a exclusão de mulheres em…



























