O projeto das cotas
Em 2017 escrevi um anteprojeto de mestrado.
A pergunta era esta: como a implementação das políticas de ações afirmativas influenciou as práticas organizacionais e culturais do campus onde eu trabalho?
A lei de cotas era de 2012, a implementação nos institutos federais começara em 2013, e eu queria saber o que tinha mudado ali dentro depois disso.
Não fiz.
O mestrado que defendi, três anos depois, foi sobre a aceitação do sistema eletrônico de ponto pelos servidores.
Já escrevi sobre outros projetos meus que não aconteceram. Um sobre arte e formação de subjetividades estéticas. Outro sobre ética e formação cidadã no ensino médio. Outro sobre ler Weber através de um filósofo brasileiro.
Este é diferente dos demais, e a diferença é o que me faz escrever.
Porque a pergunta daquele projeto de 2017 é a pergunta que eu respondo hoje todos os dias, sem ter pesquisado.
Ou seja: o que acontece com um estudante que entra por reserva de vagas, se ele fica, se ele sai, o que ele encontra quando chega, quanto disso a instituição enxerga, é matéria do meu trabalho cotidiano.
Eu não estudei aquilo. Eu virei aquilo.
E há uma diferença enorme entre as duas coisas, que eu levei anos para entender.
Quem pesquisa produz um registro. Levanta dado, cruza informação, escreve, publica, e aquilo fica disponível para outras pessoas, inclusive para quem vier depois no mesmo cargo.
Quem só administra resolve casos. E o caso resolvido não deixa nada atrás de si, exceto um processo arquivado.
Nestes anos eu vi muita coisa que ninguém registrou.
Vi famílias desistirem de pedir auxílio porque a lista de documentos era impossível. Vi estudante sumir sem aviso. Vi a diferença entre o que a instituição relata sobre inclusão e o que acontece na sala do meu setor.
Nada disso está escrito em lugar nenhum, e boa parte já não está nem na minha memória com precisão suficiente para virar dado.
O projeto de 2017 poderia ter sido o registro.
E eu escrevi, na seção de viabilidade, uma frase que hoje me chama atenção: que o tempo era viável porque havia a possibilidade de licença remunerada para dedicação exclusiva à pesquisa.
Não houve licença.
Faço doutorado sem bolsa, sem afastamento e sem redução de carga horária, trabalhando quarenta horas e escrevendo à noite.
Não escrevo isso como queixa, porque é a condição de quase todo servidor que estuda no Brasil.
Escrevo porque explica o que aconteceu com aquele projeto.
Ele não foi abandonado por falta de interesse. Foi abandonado porque a pergunta exigia tempo de campo, e o tempo de campo teria que sair do mesmo lugar de onde saem todas as minhas horas.
E o que sobreviveu, no fim, foi o tema que cabia dentro da rotina.
Um estudo sobre o relógio de ponto se faz com questionário eletrônico enviado por e-mail institucional.
Um estudo sobre o que acontece com estudantes cotistas exige estar com eles.


