A Sinfonia das Despedidas: A Geografia da Dor e a Serenidade da Espera
A verdade é uma metáfora da vida; o seu sentido só se revela àqueles que se dispõem a recolher os detalhes. Hoje, o dia exige que eu junte essas pequenas notas, instantes minúsculos, quase como respiros que sustentam o ritmo de uma existência aparentemente simples, mas de uma beleza formidável. Neste exato momento, tudo o que nos resta é a vigília, aguardando pela serenidade que apenas o tempo tem a decência de trazer.
Tenho habitado a convicção absoluta de que a sinfonia da vida só atinge a sua plenitude porque não hesita em acolher tanto os acordes dissonantes quanto os suaves, os tons maiores e os menores, forjando uma harmonia que é, a um só tempo, esplêndida e melancólica. É o entrelaçar dessas notas opostas que preenche o vazio, que confere gravidade ao choro de quem sofre e leveza ao riso de quem celebra. Aceitar a autoria dessa composição implica reconhecer que não nos é dado o luxo de escolher apenas os trechos fáceis; a beleza e a tristeza se enlaçam em uma valsa inseparável e exigem ser vividas em sua dolorosa totalidade.
Hoje, enquanto a minha pauta toca acordes irremediavelmente tristes, a memória reverbera em uma simetria impressionante. A notícia dolorosa me alcançou pela voz da minha esposa, ao telefone, enquanto eu estava na minha sala de trabalho. O compasso repetiu-se: quando a minha outra avó faleceu, a melodia da despedida chegou exatamente do mesmo modo. Daquela vez foi à tarde; desta, pela manhã. Daquela vez, eu ocupava uma sala mais próxima à porta principal; desta vez, um pouco mais distante. Contudo, era o mesmo lado, no mesmo prédio, no mesmo pavimento. As perdas parecem gostar de rimar na nossa geografia interior. Diante da repetição desse cenário, busco refúgio no carinho dos que caminham ao meu lado, dos que me amam e sustentam o meu bem. Só assim consigo suportar este trecho da música que, embora passageiro, golpeia com uma intensidade esmagadora.
Creio, com cada fibra do meu ser, que Deus, na posição de Maestro supremo, conduz esta obra complexa. No movimento irretocável de Seus braços invisíveis, Ele trará, na fração de segundo exata, a paz que silencia o luto. Sei que, em breve, os Seus acordes guiarão o meu coração de volta aos sons da alegria e do alívio, preenchendo as pausas silenciosas com o frescor da esperança.
A sinfonia da vida é lindamente dolorosa. Mas a maturidade, esse fruto precioso que somos obrigados a colher em cada interlúdio de tristeza, é o único prêmio que nos permite enxergar, enfim, a beleza da obra completa.
A dor costuma marcar a nossa memória com detalhes geográficos inesquecíveis, o lugar, a hora, a voz que trouxe a notícia. Deixe nos comentários uma palavra de força para todos aqueles que hoje também enfrentam os “acordes dissonantes” da saudade.


