O toca-discos
Na sala de minha casa, no segundo andar, no bairro Grande Vitória, o relógio não era um adversário. O tempo não tinha pressa, e a ansiedade, essa palavra tão comum agora, não existia. O toca-discos era um dos objetos mais valiosos da casa. Lá estavam os LPs evangélicos, discos que não sei se papai e mamãe compraram ou ganharam, mas sei que estavam ali, preenchendo aquele ambiente com hinos que ecoam até hoje em mim.
O som estava ligado, e na simplicidade daquele momento, eu estava aprendendo a cantar. Cantava porque cantar era natural, tão natural quanto brincar ou sonhar. A voz era o único veículo necessário para dar vida àquelas melodias.
Cantei um hino que era uma ode à criação divina, à beleza do mundo que uma criança pode ver com olhos puros. Eu me encantava com cada palavra. Eu cantava simplesmente para existir, para ser feliz naquele instante em que tudo parecia perfeito.
Outro hino guardo na memória e se repetia como um mantra. Eu me via como um príncipe, alguém que fazia parte de um reinado celestial, onde meu Pai era o Rei. Isso, naquela infância despretensiosa, dava uma firmeza à minha identidade.
Anos depois, essas músicas continuaram a me acompanhar, mas agora com um outro tom, mais pessoal, mais direto. Cantei, certa vez, um hino ensaiado especialmente para minha mãe. A igreja, que naquele período acontecia na casa da dona Minininha, foi o palco dessa homenagem.
Naquele instante, a voz tremia e os olhos dela se enchiam d’água.


