O que permite o progresso
No meio de um relatório de estágio sobre jogos teatrais, escrevi um parágrafo que não tem nada a ver com teatro.
Conhecer o caminho não é só um ato de seguir adiante, mas também uma ação de retrocesso. O conhecimento, inclusive, é um ato de retrocesso. É uma conversão. É um retorno ao estado anterior. É voltar e também é avançar.
E terminei com a frase que resume:
O que permite o progresso é o retrocesso.
Escolhi a palavra conversão sem pensar, e é a palavra da minha outra vida. No púlpito, converter-se é mudar de direção. O termo bíblico traz exatamente isso: virar-se, dar meia-volta, voltar. Não é acrescentar alguma coisa ao que já se era. É desfazer o caminho até o ponto em que se errou a entrada.
Levei anos para reparar que digo isso desde sempre.
Em 2007, escrevi sobre arrependimento como o gesto de enfrentar o que ficou para trás incompleto. Em 2013, sobre a maturidade que exige colher no tempo certo, sob pena de apodrecer no galho. Escrevi sobre a marcha à ré como salvação de quem descobre que pegou a via errada, e sobre um homem caminhando a passos largos em direção a um precipício, para quem o único movimento que garante a vida é o passo para trás. E escrevi, há poucos meses, sobre um rapaz que voltou à igreja entrando pela mesma porta por onde havia decidido sair.
Cinco vezes, em vinte anos, em contextos que não têm nada em comum: teologia, maturidade, direção de vida, retorno à fé, e agora pedagogia do teatro.
Sempre a mesma estrutura. Avançar exige antes recuar. O que parece perda de tempo é a condição do ganho.
E no relatório de 2022 eu dei a essa ideia a forma mais completa que já consegui: uma espiral dialética, em que tese e antítese formam síntese, e a síntese vira tese de novo. Escrevi que a construção se dá pelo retrocesso.
Não sei se isso é filosofia, teologia ou apenas a maneira como a minha cabeça funciona.
Sei que é a coisa que eu mais repeti sem perceber que estava repetindo, e que ela aparece sempre quando o assunto é como alguém aprende ou como alguém muda.
E sei que ela explica o que eu venho fazendo neste último ano, relendo vinte anos de textos guardados.
Voltar não é nostalgia.
É método.


