A umidade da tinta
Há uma ausência que me invade, uma distância silenciosa entre quem sou e quem espero encontrar. Onde estou? Procuro-me entre as palavras, nos fragmentos de cada frase, em cada letra que deixo gravada no papel. Sou a presença que se oculta nas entrelinhas, no vão entre um vocábulo e outro, na umidade da tinta que ainda não secou.
O meu autoencontro acontece na exata interseção entre o papel e a caneta, nesse toque simultaneamente sensível e firme, onde cada movimento de caligrafia é um traço incontestável de mim.
Encontro-me e perco-me no bloco de notas, no rascunho caótico da vida e nos esboços trêmulos que acabam se tornando definitivos. Investigo a minha identidade na página onde os erros e os acertos colidem, onde aquilo que foi escrito já não pode ser apagado nem ignorado. Em cada parágrafo, represento a tentativa obstinada de me reconhecer, de decodificar essa presença que exige expressão e que insiste em permanecer indefinida.
Rastreio a minha essência nas frases descartadas. Naquelas palavras que sequer chegaram a ser escritas e que morreram no silêncio rigoroso da intenção. Procuro-me nas confissões que estavam destinadas a existir, mas que nunca ganharam corpo físico.
Sou o fantasma daquilo que ainda não foi dito.


