-
Quem tem o campo
Num projeto de pesquisa que escrevi, há uma única frase pessoal, e ela está na primeira linha da introdução. Diz que a escolha do tema veio da minha experiência profissional como profissional da educação e artista. É verdade. Sou servidor público federal na educação há quase vinte anos, coordeno, dou aula, prego, e me formei em Teatro aos quarenta. Depois dessa frase, o projeto tem vinte páginas e não volta a mencionar nada disso. O que vem é Adorno, Bourdieu, Freire, Gadamer, Rancière, Benjamin, Larrosa. Todos excelentes, todos pertinentes, todos citados corretamente. E nenhum deles esteve na escola que eu observei. Isso não é um erro de escrita acadêmica. É…
-
O projeto que virou outra tese
Encontrei, revirando arquivos, um projeto de pesquisa de doutorado que escrevi e que não é o doutorado que eu faço. A pergunta de pesquisa daquele projeto era esta: Como a produção artística pode contribuir para a formação de subjetividades críticas e sensíveis nas práticas educacionais? O projeto queria estudar o que a arte faz com uma pessoa. Como a experiência estética muda o jeito de alguém olhar o mundo. Como a formação de um sujeito sensível acontece, e o que a escola tem a ver com isso. A tese que eu escrevo hoje investiga outra coisa: O que acontece quando o processo se emancipa do propósito. Levei um tempo para…
-
O silêncio que não é meu
Escrevi sobre silêncio mais do que sobre qualquer outra coisa. Escrevi que existe um silêncio que gesta e outro que foge. Que a ansiedade prova que o silêncio também adoece, porque ela nasce na garganta, no limiar exato entre o dito e o não dito. Escrevi que sou o que não disse. Que o pensamento atravessava a sala e o corpo não saía do lugar. Que passei décadas calado não por falta de voz, mas por excesso de temor. Vinte anos de textos, e o silêncio é o assunto de quase todos. Depois estudei educação de surdos, por exigência de disciplina, e levei um tempo para entender o que estava…
-
Corredores de autorregulação
Escrevi, no meu trabalho de conclusão de licenciatura em Teatro, que muitas escolas da região onde atuo se estruturam sob uma estética que se assemelha à de uma prisão. Listei o que se vê: muros altos, vigias armados, grades nas janelas, portões de ferro, câmeras de videomonitoramento, portas de vidro. E escrevi uma expressão que eu não inventei, apenas registrei: corredores de autorregulação. É assim que se chama, em algumas escolas, o espaço para onde vai o aluno que se descontrolou. Repare no nome. Ele não diz corredor de castigo, nem sala de contenção, nem lugar onde a gente põe quem atrapalhou a aula. Diz autorregulação, que é uma palavra…
-
Dois minutos de Romeu e Julieta
Em 2024 eu quis levar teatro para dentro do instituto onde trabalho. O plano era um projeto de extensão com uma turma do curso técnico em Administração integrado ao ensino médio. Para isso existe um caminho: preencher o formulário de cadastro da ação, obter a anuência da chefia imediata, abrir processo administrativo, encaminhar ao gestor de extensão do campus, aguardar o parecer, enviar a documentação à coordenadoria de ações de extensão, aguardar de novo, e então executar. Descrevi esse percurso inteiro no relatório, com nome de setor e sigla, porque foi o que me impediu. E aí veio a greve. Noventa dias, entre março e junho, servidores federais da educação…
-
Levantar da cadeira
Em 2022, num relatório de estágio, escrevi uma frase sobre Augusto Boal que hoje me parece uma confissão. Escrevi que percebi no Teatro do Oprimido uma joia experiencial. E completei: não pude utilizar na minha experiência explícita, mas somente, até o momento, imaginativa. Uma joia que eu só consegui imaginar. O Teatro do Oprimido tem uma premissa única, e ela é radical: acabar com a separação entre quem atua e quem assiste. Boal chamava de espect-ator a pessoa que estava na plateia e se levanta. A cena mostra uma opressão, e o público não aplaude nem discute: alguém entra em cena, substitui o oprimido e tenta outra saída. O método…
-
Vinte e cinco minutos
Em 2022 assisti a uma entrevista com um mamulengueiro e escrevi uma resenha. Aprendi ali que o mamulengo não se aprendia em oficina, que a transmissão era oral e prática, que se brincava a noite inteira e não duas horas, e que o mestre dizia precisar de um filho para tomar conta da arte quando partisse. E escrevi, com todas as letras, que a oficina toma o lugar da naturalidade transmissiva, entra numa matriz curricular e deixa a arte um pouco enlatada. Em 2023 eu escrevi um plano de aula sobre teatro de bonecos populares. Quatro aulas de sessenta minutos. Na aula dois, os alunos confeccionam bonecos. Tempo previsto para…
-
Aprendi a escutar
Numa autoavaliação de disciplina, escrevi que desenvolvi habilidades de escuta atenta e que aprendi a cultivar a empatia. Eu tinha trinta e oito anos. Fazia mais de vinte que eu pregava, o que significa ficar semanalmente diante de gente que chega com alguma coisa quebrada e espera que você diga algo que sirva. Fazia mais de dez que eu trabalhava com assistência estudantil, recebendo adolescentes que sentam na cadeira e contam coisas que não contaram a mais ninguém. E escrevi, num formulário de licenciatura, que naquele semestre eu havia aprendido a escutar. Não é mentira. É pior: é a resposta que o formulário exige. A pergunta era “quais saberes eu…
-
A autoavaliação que não avalia
Escrevi duas autoavaliações de disciplina durante a licenciatura, com um ano de diferença. Uma delas é o documento mais honesto que eu já entreguei a uma universidade. A outra não diz absolutamente nada. A primeira é de maio de 2022. O formulário pedia os pontos fracos do meu percurso, e eu respondi com uma lista de marcadores: o retorno presencial depois da pandemia, o acúmulo de trabalho deixado por colegas que saíram do meu setor, problemas de saúde, mortes na família, dívidas que eu não estava conseguindo pagar. E, num campo sobre estratégias de estudo, escrevi em letras maiúsculas, no meio de um documento acadêmico, que eu havia travado. A…
-
Um projeto sobre cotas sem cotistas
Reli o anteprojeto que escrevi em 2017 sobre a política de cotas no campus onde trabalho, e há uma coisa nele que só se vê olhando os objetivos em bloco. Eram quatro. Estabelecer um paralelo entre as práticas organizacionais antes e depois da implementação. Verificar a correlação entre práticas organizacionais e políticas de ações afirmativas. Identificar mudanças nas práticas organizacionais e culturais na transição. Avaliar as práticas organizacionais e culturais conforme a execução da política. Quatro objetivos. Quatro vezes a expressão práticas organizacionais. Nenhum deles menciona os estudantes. O projeto pergunta o que a política de cotas fez com a instituição. Não pergunta o que ela fez com as pessoas…




























