Arranhar a superfície
A vontade é uma chama interior que anseia obstinadamente por algo além de si mesma. Recusando-se a capitular diante do transitório, ela persegue a profundidade: é uma fome feroz por aquilo que é essencial.
Quando o nosso querer se alinha ao bem, ele é inundado por um amor que atua como bússola. Não se trata de um espasmo emocional nem de um afeto passageiro, mas de um impulso que aspira à verdade contida nesse bem. O amor converte-se, assim, na argamassa que sustenta a escolha e a torna autêntica.
E quando esse amor colide com as pessoas, ele não se contenta em arranhar a superfície. Ele perfura. Apresenta-se como presença silenciosa e reverbera na alma com a urgência de um chamado, resgatando-nos da distração rotineira.
O amor focado na verdade do bem reconfigura a nossa anatomia espiritual: calibra a forma como enxergamos, purifica a nossa escuta e transforma as nossas conexões. Ao expandir as fronteiras do nosso próprio ser, revela o traço divino escondido na fragilidade humana.


