Filosofia & Teologia

Medir o oceano com uma régua escolar

Em meio ao ceticismo contemporâneo, onde o afã materialista tenta confinar o real às fronteiras do tangível, ergue-se uma inquietação: seria possível, por vias puramente físicas, abarcar aquilo que é, por natureza, eterno?

A ciência moderna, com toda a sua grandeza e utilidade inegáveis para examinar as engrenagens do mundo físico, exclui o sagrado porque o divino escapa aos recortes das suas observações. Isso não é falha do método: é o próprio método. Deus não é um objeto para ser dissecado em uma bancada de laboratório. Ele é a Fonte que sustenta o sujeito que O observa. Qual é o sentido de demandar prova material de uma Presença que atua como premissa de toda a realidade?

Há também o argumento da antropologia. A religiosidade é um fenômeno universal: não se conhece cultura humana sem ritos, sem sagrado, sem ânsia de redenção. Essa sede não é mera coincidência cultural. A consciência moral, a repulsa ao caos e o sentimento inato de eternidade são impressões digitais deixadas na nossa essência.

É exatamente onde a ciência esgota as suas hipóteses que a revelação se faz necessária. As Escrituras não são produto de mentes especulativas tentando adivinhar o cosmos: são a comunicação perene do Eterno, que teve a condescendência de descer à fragilidade da linguagem humana.

Reduzi-las a mito é tentar medir o oceano com uma régua escolar.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

4 Comments

    • Tiago Rizzolli

      Olá, Danielle! Muito obrigado pelo carinho e pelo tempo dedicado a essa leitura. Quando uma reflexão tão densa consegue tocar alguém a ponto de deixar ‘sem palavras’, eu sinto que a verdadeira missão da escrita foi cumprida. Fico imensamente feliz e grato que o texto tenha ressoado de forma tão positiva em você. Um grande abraço!

    • Tiago Rizzolli

      Olá! Muito obrigado pela leitura atenta e pelo comentário. O texto é de minha autoria, mas a reflexão bebe de uma longa e riquíssima tradição filosófica e teológica cristã (que critica o reducionismo de Kant e defende a autoconsciência como reflexo do divino). Olavo de Carvalho foi, sem dúvida, um dos grandes leitores e difusores dessa tradição no Brasil, resgatando pensadores clássicos que abordam exatamente isso. É muito natural e gratificante que essas grandes ideias ecoem e se cruzem por aqui! Um grande abraço.

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