Destituir a carência do trono
Sentir pena de si mesmo é possivelmente o vício emocional mais letal que a alma pode cultivar. Ele nos aprisiona numa espiral onde, em vez de reconhecermos a solidez do que já construímos, ficamos hipnotizados pela miragem daquilo que julgamos faltar.
Schopenhauer capturou isso nos seus aforismos: raramente pensamos sobre o que temos, mas sempre sobre o que nos falta. Essa tendência a focar na carência rouba o fôlego para habitar o presente e inviabiliza qualquer apreciação das vitórias cotidianas.
A autopiedade canaliza os nossos holofotes mentais para as deficiências, tornando-nos cegos para as próprias forças. E paralisa: enquanto a mente se ocupa em lamentar a sorte, negligenciamos o imperativo de explorar o que já temos em mãos. A vitimização nos joga numa poltrona passiva, de onde assistimos à vida como se os problemas fossem tiranos indomáveis.
O antídoto não é otimismo cego nem negação dos obstáculos. É uma lucidez que os pesa na mesma balança em que repousam os nossos triunfos.
Logan Pearsall Smith escreveu que há duas coisas a buscar na vida: primeiro conseguir o que se quer, depois desfrutá-lo, e que apenas os mais sábios alcançam a segunda. Sem essa apreciação, o troféu perde o brilho no exato instante em que é erguido, e o homem condena-se à esteira de uma busca insaciável.
O primeiro movimento é destituir a carência do seu trono e reconhecer tudo o que já nos foi entregue e forjado: as habilidades lapidadas, as tormentas superadas, as relações que nos sustentam.
A verdadeira plenitude nunca morou apenas na conquista final. Ela reside no assombro diário diante do que já foi alcançado.


