• Pólis & Gestão

    Corredores de autorregulação

    Escrevi, no meu trabalho de conclusão de licenciatura em Teatro, que muitas escolas da região onde atuo se estruturam sob uma estética que se assemelha à de uma prisão. Listei o que se vê: muros altos, vigias armados, grades nas janelas, portões de ferro, câmeras de videomonitoramento, portas de vidro. E escrevi uma expressão que eu não inventei, apenas registrei: corredores de autorregulação. É assim que se chama, em algumas escolas, o espaço para onde vai o aluno que se descontrolou. Repare no nome. Ele não diz corredor de castigo, nem sala de contenção, nem lugar onde a gente põe quem atrapalhou a aula. Diz autorregulação, que é uma palavra…

  • Pólis & Gestão

    Foucault virado do avesso

    Escrevi um projeto de pesquisa sobre distribuição de poder no instituto federal onde trabalho, e usei Michel Foucault como referencial teórico. Reli e encontrei frases como estas. Que as técnicas de si são incorporadas de maneira transversal no plano de desenvolvimento institucional. Que o plano define as práticas e técnicas que moldam o comportamento dos estudantes, promovendo a autonomia e a responsabilidade de cada membro. Que a subjetividade dos estudantes é moldada pelas interações educacionais, enquadrando-a dentro de parâmetros desejados que visam à formação de profissionais capacitados. Que essas técnicas de poder são aplicadas para garantir a efetivação das políticas estabelecidas. Tudo isso escrito em tom aprovador. E aqui está…

  • Filosofia & Teologia

    Os sinais que o universo envia

    Há uma frase que se tornou comum e que me faz parar toda vez: Preste atenção aos sinais que o universo envia. Ela aparece em livros de autoajuda, em legendas de rede social, em conversa de mesa e, cada vez mais, dentro de igrejas evangélicas. Eu sou ministro do Evangelho. Prego há mais de trinta anos. E a primeira vez que ouvi essa frase num culto, levei alguns segundos para entender o que estava errado. O universo não envia nada. Não é uma questão de gosto nem de rigor doutrinário. É uma questão de gramática teológica. Na fé que eu professo, existe Alguém que fala, e esse Alguém tem nome,…

  • Filosofia & Teologia

    O hábito

    Hume tem um argumento que, quando entendido, não sai mais da cabeça. Ele pergunta por que acreditamos que o sol vai nascer amanhã. Ou que o pão vai nos alimentar. Ou que o fogo queima. A resposta óbvia é que a experiência ensinou. E ele mostra que a experiência não ensina isso. A experiência mostra o que aconteceu até agora. Para ir de aconteceu sempre até acontecerá de novo, é preciso supor que o futuro se parecerá com o passado, e essa suposição não pode ser provada sem se apoiar em si mesma. Não observamos causa. Observamos uma coisa seguida de outra, repetidamente. A ligação entre elas é acrescentada pela…

  • Filosofia & Teologia

    Um pastor lendo Nietzsche

    Escrevi, num resumo de disciplina, que a verdade é uma construção social, subjetiva e relativa, que varia conforme o contexto cultural e histórico, e que reflete as ideologias e os valores de uma determinada época. Escrevi isso oito vezes, com palavras diferentes, ao longo de duas páginas. E entreguei sem nenhum desconforto. Sou ministro do Evangelho. Prego há mais de vinte anos numa tradição em que alguém diz, em João 14, que é o caminho, a verdade e a vida. Não é possível sustentar as duas coisas ao mesmo tempo sem que aconteça alguma coisa, e não aconteceu nada, porque eu não reparei. Isso é o que a linguagem acadêmica…

  • Filosofia & Teologia

    Contaminação

    Existe uma palavra que a pedagogia das artes usa com carinho e que eu já não consigo mais ouvir do mesmo jeito. Contaminação. No vocabulário da arte-educação e do teatro, contaminar é bom. Significa a passagem de uma linguagem para dentro de outra, a mistura fértil, o transbordamento que impede que cada disciplina fique trancada no próprio quadrado. Uma aula de dança contaminada de teatro. Um texto contaminado de música. Um corpo contaminado pelo espaço em que está. A palavra foi escolhida justamente por ser transgressora. Ela vinha da biologia, do campo da doença, e era trazida para a arte de propósito, como quem rouba um termo do inimigo e…

  • Filosofia & Teologia

    Sentido único

    Escolhi, numa atividade de disciplina, refletir sobre a palavra sentido. Escolhi porque ela me remetia ao verbo sentir. Escrevi que, quando uma coisa faz sentido, é porque ela consegue mexer com a gente, e que esse mexer não é biológico nem físico: é um sacudir das estruturas internas. Algo faz sentido quando nos move. Move a estrutura. Abala. E depois passei o resto do texto descrevendo, sem perceber, o terceiro significado da palavra. Porque sentido, em português, quer dizer três coisas. Quer dizer significado, como em fazer sentido. Quer dizer sensação, como nos cinco sentidos. E quer dizer direção, como em sentido único, mão e contramão, sentido horário, siga em…

  • Filosofia & Teologia

    O útero do silêncio

    A articulação da voz é um rito, uma arte capaz de costurar abismos. Cada sílaba que soltamos no ar funciona como extensão física de quem somos, uma radiografia do que carregamos no peito. Quando verbalizamos um pensamento, damos contorno àquilo que até então era apenas um fantasma na mente. O verbo é, na raiz, um gesto de gênese: a capacidade de moldar o invisível e erguer realidades que jamais existiriam sem o sopro da nossa voz. Contudo, romper o silêncio cobra um preço. É uma responsabilidade que exige compreender a balística de cada som que emitimos, porque o impacto não reside apenas no conteúdo, mas na forma. As nossas sentenças…

  • Filosofia & Teologia

    Ler, ouvir e guardar

    “Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo.” (Apocalipse 1:3) O Apocalipse é um dos territórios mais insondáveis das Escrituras. Mais do que um compêndio de mistérios escatológicos, é a revelação de Deus sobre o que foi, o que é e o que está por vir. Cada versículo carrega não o peso do medo, mas a promessa de edificação e de consolo. E, logo na abertura, o texto convoca a três posturas: ler, ouvir e guardar. O primeiro verbo chama à felicidade que brota do contato direto com a Palavra. A leitura bíblica…