A assimetria humana
Um afeto desenhado na sua totalidade, pleno, exposto ao mundo na sua força mais crua e, ao mesmo tempo, na sua maior vulnerabilidade. Um sentimento transbordante, regado por uma paixão que aparenta ignorar a finitude. Mas seria essa completude sustentável?
O perigo de atingir o ápice é a vertigem do vazio que se abre logo em seguida. A inquietude espreita, e o vício pela perfeição transforma-se em um labirinto onde o sentimento, pesado de tão completo, paralisa-se. Torna-se uma estátua de mármore: fria, irretocável e mortalmente inflexível diante do tempo.
Há um terror subjacente nessa utopia romântica que não admite falhas e que exige um estado de êxtase permanente. A perplexidade diante daquilo que não muda, do que permanece engessado na própria idealização, acaba por asfixiar o espírito que, no início, se exaltava com a liberdade da descoberta. Quando o verniz do deslumbramento descasca, a falsa estabilidade desmorona. Aquele afeto, arquitetado para ser o paraíso, depara-se com a solidão das madrugadas. O que resta é o rancor, a náusea de um vínculo que já não encontra eco no outro.
O coração, na sua busca desesperada por uma conexão que rasgue a superficialidade, acaba colidindo com a sua própria ganância emocional. Ele exigiu pulsar em uníssono com o absoluto, e agora observa as suas ruínas, aprisionado por um padrão inatingível. É a tragédia do afeto que se corrompeu pelo excesso, que se sabotou ao doar-se de forma suicida, iludido pela crença infantil de que a voltagem da paixão jamais sofreria quedas de energia.
Na sua caçada pelo irretocável, o sentimento asfixiou-se na própria exigência. E o colapso deixa nos escombros uma lição: o amor que sobrevive não é aquele erguido sobre fundações imutáveis, mas o que tem a humildade de fluir e a coragem de abraçar a assimetria humana.


