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A Escada Interior: Memória, Perda e o Descompasso do Destino
Eu ouço um barulho que vem lá do fundo do coração.Quando fecho os olhos, apareço em uma escada. Lá em cima.Minha visão é de cima para baixo, e é para lá que olho. Vejo uma escada preta, com piso preto, corrimão preto; uma casa sem muita iluminação. O que se ilumina é apenas essa escada, que me convida a descer. De olhos fechados, a visão se abre, e eu desço: cada degrau é um ano, um ano de solidão, um ano de caminhada, um ano tentando capturar quem sou no que um dia fui. Ali, onde o eu foge de mim, onde a luz tenta fazer amizade com a escuridão,…
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Não aceite conselhos de pessoas falidas
Boa noite. Estou aqui mais uma vez para refletir sobre uma frase: “Não aceite conselhos de pessoas falidas”. Nesse enunciado, podemos deter-nos primeiro na palavra “não”. Trata-se de uma forma negativa que, neste contexto, assume claramente o sentido de proibição. Quando aceitamos alguma coisa, é como se abríssemos os braços, seja em sentido literal, seja em sentido analógico, e nos tornássemos receptivos. Saímos de um estado ativo para um estado passivo, disposto a receber. Portanto, “não aceitar” é recusar permanecer nessa zona de passividade e de recepção. Aplicando isso à relação com uma pessoa falida, a ideia é que não podemos nos colocar diante dela em um estado de passividade.…
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Quando o ajoelhar levanta a alma
Hoje, domingo, dia 25 de outubro de 2025, ao término da Escola Dominical na Missão Apostólica, chegou um jovem à igreja. Reconheci-o de imediato; cumprimentei-o, e o pastor o convidou a entrar. No refeitório, ofereceram-lhe café. Era alguém que congregara conosco entre 2016 e 2017; aceitara a Jesus nesta igreja e começara a pregar, mas, como chuva temporã, o ímpeto passou, e ele se afastou. Tentamos buscá-lo por meio de visitas, sem êxito. Estimávamos sua mãe e sua família; depois, ele partiu para o interior do Estado, e as notícias diziam que estava desviado. Pensamos que fora “fogo de palha”. Anos depois, voltamos a vê-lo à porta do Supermercado Internacional,…
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A infância dos “eus possíveis”
Ele não falava de sonhos de travesseiro, mas dos que exigem vigília: desejos que esticam o corpo para além do presente. Entre seis e nove anos, viu-se muitas coisas: executivo (o primeiro clarão), pastor com dons, bombeiro, do Exército, da Marinha, da Aeronáutica; administrador, político, secretário; médico, enfermeiro; professor, psicólogo, advogado, juiz; cantor, músico de banda; gari; estrangeiro na Europa; jogador de futebol, nadador; escritor, pregador itinerante; ator, filósofo, educador. Tantas vidas passaram por dentro e ele não foi todas. Aos quarenta, a sensação de que a vida correu sem pouso. Diz ter perdido vinte anos. Feridas de infância. Desde 2008, ápice e queda, vitórias sem celebração, opressões, traços de…
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Crônica de uma queda sem reset
Quando temos restrição de algo, a tendência é colocarmos foco no que não temos e não conseguirmos vislumbrar, ou dar importância, ao que já se tem. É notório: a ênfase no que falta transpassa o estado de pertencimento, e busca-se a quem não se pertence. Nesse estágio, surgem oportunidades pequenas, se comparadas ao que eu almejava alcançar. Na linguagem popular, usa-se a metáfora da escada: “Você não alcançou o topo, mas é de degrau em degrau que se chega ao objetivo.” Diante dessa metáfora, parecia que aquela pequena oportunidade fosse apenas uma fase para chegar a um patamar mais alto, algo passageiro. Encarei como um estepe; mas o que, na…
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Quando a manipulação veste fantasias
A manipulação raramente se apresenta com o próprio nome. Aproxima-se travestida de conselho “bem-intencionado”, oferecendo a promessa de aprovação e pertencimento. Nesses instantes, quem é alvo dificilmente percebe: são pequenas concessões, quase imperceptíveis, que deslocam o sujeito para fora de si. As sugestões chegam com naturalidade e tom de ajuda: “Você precisa ser mais descolado.” “Essa roupa é brega; vista-se melhor!” “Esse cabelo não está legal; faça alguma coisa.” Sob a promessa implícita de aceitação, a pessoa começa a negociar partes de si. Troca-se a roupa, ajusta-se o cabelo, remodelam-se hábitos. Aos poucos, instala-se uma identidade que antes não era desejada nem reconhecida. Para agradar alguém, ou um recorte social,…
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Na entrada de Spagnol
No meu mundo, ao adentrar aquela rua de paralelepípedos, com tons amarelos e alaranjados — tingidos pelo barro que escorria da encosta de pedra à direita —, naquela rua, na quebrada à direita, entre a saída da Vila Batista e a entrada de Pedra dos Búzios, foi ali, exatamente ali, que me empolguei. Parecia que eu havia cruzado um limiar, inaugurando um ciclo de novas possibilidades. Fui para lá a pé, com meus pais, para morar numa casa. Avançamos para além. Fomos mais fundo, onde a rua se estreitava num beco. Foi lá — lá no fundo — que ouvi pela primeira vez o nome Spagnal. Um som que não…
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O miolo da vizinhança
Quando nos reuníamos na Assembleia de Deus do Alagoano, por um tempo celebramos em frente à casa de Dona Rosa (em memória) e à casa do Natalino, o Natal. A igreja também se encontrava na casa de Dona Menininha, suponho que fosse apelido. Havia uma escadaria: saíamos da rua principal que contornava o campo de futebol, descíamos alguns degraus e, logo ali, à direita, ficava a casa da Dona Menininha; à esquerda, a de Dona Rosa, que tinha grande apreço pelo meu pai. Se seguíssemos mais, a escada virava caminho de terra batida. À beira dele, uma casa de portão gradeado: diziam que ali morava um padeiro demitido, mas que…
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Eu Buscava
Eu busco.E quando criança, já buscava. Sentado no quintal da minha casa, no bairro Grande Vitória, com o chão de areia que meu pai e minha mãe carregaram em baldes, transformando o presente de meu bisavô, um terreno outrora manguezal, em solo firme. De carrinho em carrinho, o barro se tornou quintal, e o quintal, o meu mundo. Ali eu brincava. E ali mesmo eu buscava. Buscava algo que não sabia nomear, mas que já me habitava. A palavra executivo, não sei de onde veio, mas sei que estava em mim. Não era comum ouvi-la. Falo dos anos de 1991, talvez 1992. Mas ela saiu da minha boca como quem…
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O Palco na Rua
O Palco na Rua Era um dia de junho, provavelmente um sábado, por volta das seis e meia da tarde. A rua era a da casa da minha avó, mas naquela tarde eu a reconhecia como sendo a rua da casa da minha tia Preta. Estávamos na década de 90. No meio da rua, bem em frente à casa, um palco havia sido montado. Era um palco simples, improvisado. Dois homens faziam a passagem de som. Eu fiquei empolgado. Nunca tinha visto um palco de perto. E ali estava ele, como se tivesse vindo até mim. Não havia luzes fortes nem grandes equipamentos. Mas havia encantamento. Dois homens, cujos nomes…






















