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A Teologia do Portão: A Prece Cruzada e a Solidariedade de Trincheira
O lar, outrora um refúgio seguro de obviedades cotidianas, torna-se um palco estranho e hostil no dia do luto. Dentro de casa, depois que os papéis amarelos são assinados, a burocracia emocional finalmente nos alcança. Minha esposa, numa tentativa terna e inquieta de atenuar o peso esmagador do ambiente, tentou preencher o vazio com o som das pequenas coisas. A morte deixa um eco ensurdecedor nas paredes, e nós tentamos, em vão, abafá-lo com os ruídos da normalidade. Mas o cansaço da alma cobrou o seu preço; ela preferiu se ausentar, recolhendo-se na quietude do quarto para encontrar os seus próprios contornos e processar a dureza do dia. Os meus…
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O Peso do Quase e o José de Arimatéia Moderno: A Burocracia do Fim
Hoje, exatamente hoje, a morte atravessou a minha sala. Meus olhos arderam, as bochechas contorceram-se num reflexo involuntário da alma, e as lágrimas, pesadas, traçaram o caminho inegável da perda. Minha avó cruzou a porta. Passou pelo rio, passou pelo mar. Foi desaguar em um oceano onde o meu alcance humano já não existe. A dor maior, o espinho que fica cravado na garganta, é o peso do “quase”. Eu havia desenhado na mente um roteiro de afeto e redenção: queria pegá-la pelo braço e levá-la a lugares onde os seus pés cansados nunca haviam pisado. Minha intenção era surpreendê-la com algum conforto material, um bom plano de saúde, alguém…
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O Oceano e o Iceberg: A Técnica e a Planilha dos Nossos Afetos
A chuva espancava a janela com uma cadência que, de certa forma, emulava o tique-taque inflexível de um relógio. Da minha cadeira, eu observava a coreografia da rua lá embaixo: o fluxo contínuo dos carros, os semáforos alternando as suas cores com uma precisão milimétrica, os guarda-chuvas que desabrochavam quase em uníssono ao primeiro sinal do temporal. A mente, sempre viciada na concretude tátil do mundo, logo sussurrou a palavra mais óbvia e preguiçosa para descrever o cenário: máquinas. É assustadoramente fácil olhar para o nosso tempo e transferir a culpa para o aço, para o silício e para os motores. Crescemos condicionados a acreditar que a tecnologia é apenas…
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A Métrica da Cegueira: O Homem na Prisão dos Gráficos
O escritório de Inácio cheirava a café oxidado e papel carbono. Sobre a sua mesa, relatórios empilhavam-se em torres cinzentas que ameaçavam desabar a qualquer instante. Ele ocupava a cadeira de Analista Chefe do Departamento de Medição do Progresso, um cargo que, segundo a cúpula do governo, era o coração pulsante da nação. Para Inácio e os seus pares, o mundo era de uma assepsia reconfortante: o “progresso técnico” reduzia-se a uma linha em um gráfico que tinha a obrigação moral de apontar sempre para cima. E como se mensura tal grandeza? Com toneladas de aço escoadas, sacas de grãos empilhadas e a fúria rítmica das linhas de montagem. Naquela…
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O Teatro das Sombras e a Coragem da Horizontalidade
A pesada porta de madeira cedeu com um rangido arrastado, revelando as entranhas de um teatro abandonado. Eu não fazia ideia de como havia chegado ali, mas o cheiro de poeira suspensa e veludo mofado era inconfundivelmente real. Como de costume, entrei de cabeça baixa. Meus olhos rastreavam o chão, os rodapés e as pontas dos meus próprios sapatos. Era um vício antigo: caminhar encolhido, como se tentar ocupar menos espaço no mundo me garantisse o benefício da invisibilidade. Sentei-me na última fileira, abrigado na poltrona mais escura que encontrei. Foi então que as luzes do palco estalaram, rasgando a penumbra. Lá em cima, sob o foco de uma luz…
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A Criatura Estava Viva no Veículo. O Que Fiz a Seguir Explica o Medo Humano
A rua parecia ser a mesma de sempre, mas havia um desalinho sutil na arquitetura da realidade. O carro estacionado em frente à casa não pertencia a ninguém, assim como a própria casa do vizinho era uma invenção daquela noite. Dentro do veículo, o absurdo repousava em silêncio: um animal de grande porte, um híbrido monstruoso de boi e cavalo. Era feito de carne e osso, mas carregava a frieza rígida das estátuas. Estava paralisado, mas, de uma forma que a razão se recusa a alcançar, pulsava de vida. Eu o observava esmagado pelo peso de uma decisão inevitável. Havia em mim uma certeza muda e absoluta, quase um dogma…
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Eleições da CADEESO 2026: Entre o Discurso de União e a Realidade da Concentração
A atual corrida eleitoral para a Mesa Diretora da CADEESO tem mobilizado lideranças e ampliado o debate sobre o futuro da nossa convenção. Ao analisar as propostas e, sobretudo, a composição das chapas, em especial a encabeçada pelo respeitado Pr. Kemuel Sotero, deparo-me com reflexões que exigem ser compartilhadas com honestidade e rigor. O peso de um nome é, sem dúvida, importante, mas a solidez de uma instituição exige um plano de governança claro e propostas reais que saiam do papel. Embora a referida chapa levante frequentemente a bandeira da “união”, a sua estrutura revela uma contradição prática. Caso seja eleita, teremos dois pastores da mesma igreja local (AD Aribiri)…
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A Escada Escura: O Porão da Memória e os Trilhos do Destino
Ouço um ruído surdo que ecoa lá do fundo do peito. Quando fecho os olhos, materializo-me subitamente no topo de uma escada. A minha visão projeta-se de cima para baixo, e é para o abismo que eu olho. Vejo uma escada preta: o piso de pedra escura, o corrimão absorvendo as sombras, uma casa desprovida de iluminação. A única coisa que emite uma leve claridade é a própria escada, exercendo uma gravidade íntima que me convida à descida. De olhos fechados, a visão se expande, e eu desço. Cada degrau é um ano. Um ano de solidão, de caminhada tateante, na tentativa desesperada de capturar quem sou nos escombros do…
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A Curadoria do Fracasso: A Fronteira entre Aprender e Aceitar
Há uma máxima que circula frequentemente nas rodas de conversa e de negócios: “Não aceite conselhos de pessoas falidas”. Para compreendermos a profundidade dessa advertência, precisamos ir além do clichê e desmontar a própria linguagem do enunciado, começando pela palavra mais incisiva: o não. Neste contexto, o “não” é uma trincheira. Quando aceitamos algo, seja um presente, uma ideia ou uma direção, fazemos um movimento, literal ou analógico, de abrir os braços. Ao fazê-lo, abandonamos o nosso estado de vigilância ativa e entramos em uma zona de passividade e recepção. Portanto, “não aceitar” é recusar a permeabilidade; é negar-se a ser um recipiente vazio para as ideias alheias. Aplicando essa…
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A Arqueologia da Graça: O Supermercado, o Altar e a Coragem de Voltar
Neste domingo, enquanto o eco da Escola Dominical ainda preenchia a Missão Apostólica, o passado cruzou a porta da igreja. Reconheci-o de imediato. Um cumprimento rápido, um convite pastoral e, logo em seguida, o acolhimento ao redor do café no refeitório. Era um jovem que congregara conosco entre 2016 e 2017. Naquela época, ele havia aceitado a fé sob o nosso teto e logo começara a pregar. Mas, como uma chuva temporã que umedece a terra e logo evapora, o ímpeto passou, e ele se deixou levar pela correnteza dos dias. Tentamos resgatá-lo, batemos em portas, buscamos pela família, mas o esforço esbarrou no silêncio. Ele partiu para o interior…




























