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O silêncio que não é meu
Escrevi sobre silêncio mais do que sobre qualquer outra coisa. Escrevi que existe um silêncio que gesta e outro que foge. Que a ansiedade prova que o silêncio também adoece, porque ela nasce na garganta, no limiar exato entre o dito e o não dito. Escrevi que sou o que não disse. Que o pensamento atravessava a sala e o corpo não saía do lugar. Que passei décadas calado não por falta de voz, mas por excesso de temor. Vinte anos de textos, e o silêncio é o assunto de quase todos. Depois estudei educação de surdos, por exigência de disciplina, e levei um tempo para entender o que estava…
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Ninguém ali conhece Oprah
Abra qualquer livro de autoajuda brasileiro no capítulo dos exemplos inspiradores e você vai encontrar as mesmas pessoas. Oprah Winfrey. Nelson Mandela. Malala. Madre Teresa. Steve Jobs. Um monge budista, geralmente Thich Nhat Hanh. São pessoas admiráveis, e nenhuma delas mora aqui. Reparei nisso porque passei o último ano relendo tudo o que escrevi em vinte anos, e os meus exemplos são outros. Um padeiro demitido no morro do Alagoano, que acendeu o forno em casa e passou a vender pão doce pelas frestas de um portão gradeado que nunca abria. Um professor de Artes de escola pública que comprou uma caixa de lápis de cor com mais de sessenta…
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O bem que já está dentro
A promessa central de quase todo livro de autoajuda é esta: o que você procura já está dentro de você. Basta descobrir, acreditar, cultivar. É uma frase bonita, e eu entendo por que ela vende. Ela dispensa qualquer coisa vinda de fora. Não exige pedir, não exige depender, não exige admitir falta. E é o oposto do que eu creio, e do que eu vi. Escrevi, em outro lugar, que a graça não opera no clube dos autossuficientes. Ela opera no solo dos quebrantados. E escrevi que Deus convoca a pessoa na condição de ruína, sem exigir que ela se apresente melhorada primeiro. Isso não é humildade retórica. É uma…
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As perdas rimam
Tenho habitado a convicção de que a sinfonia da vida só atinge a sua plenitude porque não hesita em acolher tanto os acordes dissonantes quanto os suaves. É o entrelaçar dessas notas opostas que confere gravidade ao choro de quem sofre e leveza ao riso de quem celebra. Aceitar a autoria dessa composição implica reconhecer que não nos é dado o luxo de escolher apenas os trechos fáceis. Hoje, enquanto a minha pauta toca acordes irremediavelmente tristes, a memória reverbera em uma simetria impressionante. A notícia dolorosa me alcançou pela voz da minha esposa, ao telefone, enquanto eu estava na minha sala de trabalho. Quando a minha outra avó faleceu,…
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O projeto das cotas
Em 2017 escrevi um anteprojeto de mestrado. A pergunta era esta: como a implementação das políticas de ações afirmativas influenciou as práticas organizacionais e culturais do campus onde eu trabalho? A lei de cotas era de 2012, a implementação nos institutos federais começara em 2013, e eu queria saber o que tinha mudado ali dentro depois disso. Não fiz. O mestrado que defendi, três anos depois, foi sobre a aceitação do sistema eletrônico de ponto pelos servidores. Já escrevi sobre outros projetos meus que não aconteceram. Um sobre arte e formação de subjetividades estéticas. Outro sobre ética e formação cidadã no ensino médio. Outro sobre ler Weber através de um…
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Corredores de autorregulação
Escrevi, no meu trabalho de conclusão de licenciatura em Teatro, que muitas escolas da região onde atuo se estruturam sob uma estética que se assemelha à de uma prisão. Listei o que se vê: muros altos, vigias armados, grades nas janelas, portões de ferro, câmeras de videomonitoramento, portas de vidro. E escrevi uma expressão que eu não inventei, apenas registrei: corredores de autorregulação. É assim que se chama, em algumas escolas, o espaço para onde vai o aluno que se descontrolou. Repare no nome. Ele não diz corredor de castigo, nem sala de contenção, nem lugar onde a gente põe quem atrapalhou a aula. Diz autorregulação, que é uma palavra…
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Só se reconhece depois
Existe um tipo de felicidade que só se reconhece depois. Enquanto está acontecendo, ela não tem nome. É apenas o estado natural das coisas, o ar que se respira sem perceber que é ar. Só mais tarde, quando o tempo a transforma em memória e a memória em saudade, é que ela ganha o seu contorno exato. É só de longe que se vê a forma do que se foi. Meus dias mais felizes foram quando eu ainda não tinha uma imagem ruim do ser humano. Quando acreditava, com aquela crença que não precisa de argumento porque nunca foi testada, que as pessoas são boas. Que o mundo as recebe…
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Ar da vida, ar da morte
Não sou velho, mas a juventude incontestável também já me escapou. Aos 41 anos, encontro-me estacionado nesta exata encruzilhada, forçado a refletir logo após sepultar as minhas duas avós: Arlinda, em 2022, e agora, neste 15 de abril de 2026, a minha avó Arlete. Curioso notar o que a fonética esconde. Ambas traziam no nome o princípio do elemento vital, o fôlego inicial, começando com a sílaba ar. E, numa simetria que quase parece recado, as sílabas finais ecoam os dois extremos da existência: o da de vida e o te de morte. Desde que eu era criança, no meu imaginário, ambas já eram velhas. Talvez, àquela época, nem fossem…
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A rota herdada
Existem dois procedimentos para a mesma morte. O primeiro acontece numa sala de espera e num balcão de cartório. Tem papel amarelo, carimbo, assinatura e um verbo próprio: averba-se. É rápido, é frio e é indispensável. Sem ele, o corpo não é liberado e a vida não é encerrada aos olhos do Estado. Atravessei esse primeiro procedimento na terça-feira, ao lado da minha mãe. O segundo acontece numa igreja. Não libera nada, não registra nada, não produz nenhum documento. E, sem ele, ninguém consegue seguir em frente. O velório é a parte inútil, no sentido exato em que a burocracia entende utilidade. Ninguém precisa cantar para que uma pessoa seja…
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No cimento frio de um portão
O lar, outrora um refúgio seguro de obviedades cotidianas, torna-se um lugar estranho no dia do luto. Dentro de casa, depois que os papéis amarelos são assinados, a burocracia emocional finalmente nos alcança. Minha esposa, numa tentativa terna e inquieta de atenuar o peso do ambiente, tentou preencher o vazio com o som das pequenas coisas. A morte deixa um eco ensurdecedor nas paredes, e nós tentamos, em vão, abafá-lo com os ruídos da normalidade. Mas o cansaço cobrou o seu preço, e ela preferiu recolher-se na quietude do quarto para processar a dureza do dia. Os meus pais chegaram logo depois, trazendo nos ombros a exaustão de uma terça-feira…




























