• Filosofia & Teologia

    Ler Weber por um brasileiro

    Em um projeto de pesquisa não tinha pesquisa dentro. Mas tinha uma intuição, e a intuição era boa. A ideia era ler Max Weber através de Mário Ferreira dos Santos. Weber é o autor central da minha área. Racionalização, desencantamento. Mário Ferreira dos Santos é um filósofo brasileiro, gaúcho, que morreu em 1968 depois de produzir uma obra de dimensões quase impossíveis, incluindo uma enciclopédia filosófica escrita praticamente sozinho. Ele está fora do cânone universitário brasileiro. É pouco citado em programas de pós-graduação, quase não aparece em bibliografia de disciplina, e circula sobretudo fora da academia. E a ideia de ler um clássico europeu através de um pensador brasileiro é…

  • Artes & Narrativas

    Economia dos meios

    Entre os princípios técnicos do trabalho com bonecos, anotei este: Economia dos meios. A precisão é mais poderosa que a quantidade de ações. E depois listei os outros: o foco, a indicação pelo olhar, a triangulação que busca o diálogo, a manutenção do nível do boneco em relação a um ponto fixo, e a respiração. Todos são formas de fazer menos. Um boneco que se mexe o tempo todo não está vivo. Está agitado, que é outra coisa. O que produz a ilusão de vida é o contrário: um gesto por vez, na hora certa, e depois a quietude. É a pausa que faz o público acreditar, porque é na…

  • Artes & Narrativas

    Ler é muito divertido

    Há uma forma de espera que não se admite. A espera que se disfarça de presença. O corpo na sala, o livro na mão, os olhos fingindo que leem enquanto na verdade apenas aguardam. Aguardam um som, um movimento, um sinal de que ela acordou, de que se levantou, de que o dia finalmente começou de verdade. Porque há dias que só começam quando ela aparece. Esse é um dado que o orgulho recusa registrar, mas que o corpo anota com precisão contábil. Ela me influenciava. Eu sabia disso. Saber não ajudava. O som veio da sala. Ela estava ali, deitada em cima do sofá vermelho, naquela pequena sala que…

  • Filosofia & Teologia

    Os sinais que o universo envia

    Há uma frase que se tornou comum e que me faz parar toda vez: Preste atenção aos sinais que o universo envia. Ela aparece em livros de autoajuda, em legendas de rede social, em conversa de mesa e, cada vez mais, dentro de igrejas evangélicas. Eu sou ministro do Evangelho. Prego há mais de trinta anos. E a primeira vez que ouvi essa frase num culto, levei alguns segundos para entender o que estava errado. O universo não envia nada. Não é uma questão de gosto nem de rigor doutrinário. É uma questão de gramática teológica. Na fé que eu professo, existe Alguém que fala, e esse Alguém tem nome,…

  • Filosofia & Teologia

    Crenças limitantes

    Existe uma expressão que atravessa toda a literatura de autoajuda e que eu gostaria de examinar com calma: crenças limitantes. A ideia é conhecida. Aquilo que impede uma pessoa de chegar onde quer não está fora dela, está na cabeça dela. São pensamentos negativos, ideias herdadas, convicções sobre a própria incapacidade. Identifique essas crenças, substitua por outras, positivas, e o caminho se abre. Parte disso é verdadeira, e eu sou testemunha. Passei décadas com vergonha do próprio rosto, da voz, do corpo, do sobrenome e da casa. Nada daquilo era descrição da realidade. Era uma sentença que eu repetia sozinho, e ela me custou coisas que não voltam. Nesse ponto,…

  • Artes & Narrativas

    Pertence a Tiago

    Há objetos que operam como cápsulas do tempo, fendas que nos arremessam, sem aviso, para versões de nós mesmos que mal reconhecemos. Resgatar um livro da estante, com as bordas denunciando o amarelado inevitável e a oxidação pontuando o papel, é um desses encontros. Ao abrir a folha de rosto de Palavra de vitória 2, de Silas Malafaia, o impacto silencioso não emana da tipografia nem da autoria, mas do rastro da tinta azul. Ali, numa caligrafia que mescla pressa e afirmação, lê-se: “Pertence a Tiago Teixeira Vieira. 14/07/2011.” É fascinante essa urgência humana em demarcar propriedade. Aquele “pertence a” é o registro fóssil de um instante e de uma…

  • Artes & Narrativas

    Nem toda brincadeira é jogo

    Numa atividade da licenciatura, escrevi uma distinção que continuo achando certa. Nem toda brincadeira é jogo. E entretenimento não é jogo. O jogo do faz de conta reúne quatro coisas: improvisação, enredo, cenário e uma estrutura lógica de execução. A criança assume um personagem, define um espaço e sustenta uma regra. Isso é teatro, ainda que ninguém ali saiba a palavra. O entretenimento não pede nada disso. Ele chega pronto, com enredo, cenário e personagem já decididos por outra pessoa, e o que se espera de quem recebe é atenção. A diferença é de posição. Numa, você é autor. Na outra, você é destinatário. E aqui eu preciso confessar de…

  • Filosofia & Teologia

    Lombada de couro

    Houve uma época em que a memória operava como uma biblioteca meticulosamente organizada. Até o limiar de 2008, cada lembrança minha possuía uma lombada de couro com o ano gravado a ouro. Eu podia caminhar por esses corredores mentais, retirar um volume da prateleira e saber exatamente onde cada evento começava e terminava. O tempo era uma estrada reta, e eu, um caminhante com um mapa confiável nas mãos. Mas, a partir de 2010, alguma coisa entrou em colapso. Não sei dizer em qual curva o ponteiro quebrou. Parece que o tempo deu um salto e, ao aterrissar, espalhou todas as folhas dos meus arquivos pelo chão. Os anos deixaram…

  • Artes & Narrativas

    Cada degrau é um ano

    Ouço um ruído surdo que ecoa lá do fundo do peito. Quando fecho os olhos, materializo-me no topo de uma escada. A minha visão projeta-se de cima para baixo, e é para o abismo que eu olho. Vejo uma escada preta: o piso de pedra escura, o corrimão absorvendo as sombras, uma casa desprovida de iluminação. A única coisa que emite alguma claridade é a própria escada, e ela me convida à descida. De olhos fechados, a visão se expande, e eu desço. Cada degrau é um ano. Um ano de solidão, de caminhada tateante, na tentativa de capturar quem sou nos escombros do que um dia fui. Lá embaixo,…

  • Filosofia & Teologia

    Roberto e Clarisse

    Terminei o trabalho de conclusão da licenciatura em Teatro. Quase cem páginas sobre o corpo silenciado e o corpo percebido, com dez estudantes, um semestre de encontros e uma peça apresentada. Ao longo do trabalho inteiro, cinco estudantes falam. Chamei-os de Ana, Lucas, Júlia, Joana e Luiza, nomes fictícios, como declarei numa nota. E no penúltimo parágrafo aparecem mais dois. Roberto, dizendo que nunca tinha prestado atenção no que o outro sentia enquanto atuava. Clarisse, dizendo que o corpo começou a falar sozinho. Roberto e Clarisse não existem em nenhum outro lugar do trabalho. Não estão na metodologia, não estão na análise, não estão na tabela de categorias, não estão…