Roberto e Clarisse
Terminei o trabalho de conclusão da licenciatura em Teatro. Quase cem páginas sobre o corpo silenciado e o corpo percebido, com dez estudantes, um semestre de encontros e uma peça apresentada.
Ao longo do trabalho inteiro, cinco estudantes falam. Chamei-os de Ana, Lucas, Júlia, Joana e Luiza, nomes fictícios, como declarei numa nota.
E no penúltimo parágrafo aparecem mais dois.
Roberto, dizendo que nunca tinha prestado atenção no que o outro sentia enquanto atuava.
Clarisse, dizendo que o corpo começou a falar sozinho.
Roberto e Clarisse não existem em nenhum outro lugar do trabalho.
Não estão na metodologia, não estão na análise, não estão na tabela de categorias, não estão na transcrição da roda de conversa. Aparecem uma vez, na última página, com duas falas que fecham o argumento com precisão.
Não sei dizer com certeza se foram inventados ou se sobraram de uma versão anterior. Sei que não tenho de onde tirá-los, e que precisam sair.
O que me interessa é o lugar onde eles apareceram.
Não foi no meio da análise, onde o dado é confrontado. Foi no fecho.
Todo trabalho longo chega a um ponto em que já se sabe o que se quer dizer. A tese está formulada, o argumento está montado, e falta só a última página, aquela em que tudo se amarra.
É o momento mais perigoso, e ninguém avisa.
Porque ali a conclusão já está pronta na cabeça de quem escreve, e o que se busca não é mais entender o que aconteceu. É encontrar a frase que confirma.
E, quando se procura confirmação, ela aparece.
Às vezes aparece como uma citação lembrada de memória e não conferida. Às vezes como uma fala que alguém disse em outro contexto e que encaixa melhor aqui. E às vezes, aparentemente, como dois nomes que a mão escreveu sozinha.
Descobri, revisando anos de arquivos, que isso me acontece.
Num relatório, atribuí a mim uma leitura que não fiz. Noutro, apliquei a três filósofos incompatíveis a mesma conclusão, porque era a conclusão que eu tinha na mão. Noutro ainda, escrevi uma seção de resultados que era cópia da seção de métodos, e terminei afirmando que os achados confirmavam a hipótese.
Em nenhum desses casos houve intenção de enganar. Houve um parágrafo final que precisava fechar.
E a lição é chata e não tem atalho.
O último parágrafo é o que exige mais verificação, e é justamente o que recebe menos, porque é escrito quando a pessoa já está cansada e já acha que terminou.
Roberto e Clarisse saíram do meu trabalho.
Registro aqui que existiram por um tempo, para não esquecer o que eu sou capaz de fazer às onze da noite de um domingo, com prazo vencendo.


