• Artes & Narrativas

    O caixote

    A pesada porta de madeira cedeu com um rangido arrastado, revelando as entranhas de um teatro abandonado. Eu não fazia ideia de como havia chegado ali, mas o cheiro de poeira suspensa e veludo mofado era inconfundivelmente real. Como de costume, entrei de cabeça baixa. Meus olhos rastreavam o chão, os rodapés e as pontas dos meus próprios sapatos. Era um vício antigo: caminhar encolhido, como se ocupar menos espaço no mundo me garantisse o benefício da invisibilidade. Sentei-me na última fileira, na poltrona mais escura que encontrei. Foi então que as luzes do palco estalaram, rasgando a penumbra. Lá em cima, sob o foco de uma luz amarelada, não…

  • Artes & Narrativas

    A luta entre a voz e o corpo

    Num trabalho de iluminação cênica, precisei projetar uma cena. Descrevi três momentos, cada um com um tipo de luz, e cada um com um estado do ator. Reli três anos depois e descobri que tinha escrito a minha própria biografia sem perceber. O primeiro momento. A cena se inicia com o ator de cabeça baixa, agachado, a se levantar lentamente, olhando fixamente para um ponto na plateia. Luz frontal, até que ele fique completamente ereto. Cabeça baixa. Agachado. Escrevi, sobre mim mesmo, num relato de sonho: entrei de cabeça baixa, os olhos rastreando o chão, os rodapés e as pontas dos meus próprios sapatos, porque era vício antigo caminhar encolhido,…

  • Artes & Narrativas

    Ele foi legião

    Ele não alimentava sonhos fáceis de travesseiro, mas daqueles que exigem vigília crônica: desejos que esticam o corpo para muito além das fronteiras do presente. Entre os seis e os nove anos de idade, ele foi legião. Viu-se executivo, o primeiro e mais fulminante clarão, pastor adornado por dons, bombeiro, militar de todas as fardas, administrador, político, médico e juiz, gari, cantor, estrangeiro na Europa e filósofo. Tantas vidas desfilaram por dentro do seu peito, e diante do espelho inflexível do tempo ele não pôde ser todas elas. Ao cruzar o marco dos quarenta anos, foi assaltado pela vertigem de que a vida correu sem jamais autorizar um pouso. Carrega…

  • Filosofia & Teologia

    Personagens de ventríloquo

    A manipulação raramente se anuncia pelo próprio nome. Ela não veste a farda do tirano: aproxima-se travestida de conselho bem-intencionado, oferecendo a doce e venenosa promessa de aprovação. No calor desses instantes, o alvo dificilmente percebe o ardil, porque são pequenas e sucessivas concessões, microajustes quase imperceptíveis que, milímetro a milímetro, deslocam o sujeito para fora de si mesmo. As sugestões chegam com a naturalidade ensaiada de quem oferece socorro. Você precisa ser mais descolado. Essa roupa é brega, vista-se melhor. Esse cabelo não está legal, faça alguma coisa. Seduzido pela promessa implícita de aceitação, o indivíduo começa a negociar lotes da própria essência. Troca-se o guarda-roupa, ajusta-se a tesoura…

  • Artes & Narrativas

    Quem é nós

    Reli o projeto do meu último estágio e reparei numa coisa que eu não tinha visto. Ele começa em primeira pessoa do singular. Pretendo desenvolver. Pretendo trabalhar. Realizarei oficinas. E no meio do quarto parágrafo, sem aviso, vira plural. Planejamos promover. Acreditamos que o teatro possui o poder. Esperamos contribuir. Nos permite unir a prática teatral com a educação, alinhando nossa vocação artística com a responsabilidade social. Não havia equipe. Não havia coautor. Era um estagiário sozinho, escrevendo um projeto sobre oficinas que ele daria sozinho. Quem é nós? Ninguém. É o plural dos documentos, e ele aparece exatamente onde o texto começa a afirmar coisas grandes. Repare na distribuição.…

  • Pólis & Gestão

    Pontos fracos em seu percurso

    O campo do formulário chamava-se assim: pontos fracos em seu percurso. Era um relatório de autoavaliação de estágio do curso de Teatro, dos que toda licenciatura exige. O aluno descreve o que deu errado, a coordenação lê, arquiva, e o semestre se encerra. Eu respondi com uma lista de marcadores. O retorno presencial depois da pandemia, com todas as demandas que ele trouxe de uma vez. O acúmulo de trabalho deixado por colegas que saíram do meu setor e não foram repostos. Problemas de saúde física e mental. Falecimento de parentes. Dívidas que eu não estava conseguindo pagar. Escrevi tudo isso com marcadores, um embaixo do outro, porque era o…

  • Pólis & Gestão

    O corredor

    Naquela escola, todos me trataram bem. O vigilante do portão me cumprimentou e abriu para o carro entrar. A secretária me atendeu ao telefone, não sabia responder e me orientou a ligar de novo vinte minutos depois. A coordenadora marcou entrevista para a mesma tarde. Anotei tudo isso no diário e usei a palavra cordial quatro vezes em duas páginas. Menos uma vez. Num dia de aula, cheguei e fui procurar o professor de Artes. Entrei no corredor que dá na sala dos professores. E fui abordado por um professor da escola, de maneira hostil, que me questionou, com pouca educação, o que eu estava fazendo naquela área. Expliquei que…

  • Pólis & Gestão

    Tenho como provar

    Naquele relatório de estágio, depois de listar tudo o que havia dado errado no semestre, eu escrevi esta frase: Tenho como provar os contatos que fiz e algumas negativas de escolas. Ninguém tinha me acusado de nada. O formulário não pedia comprovação. Era um campo de autoavaliação, aberto, em que o aluno relata o próprio percurso. E ainda assim eu ofereci provas. Havia motivo. Eu precisava de uma escola para estagiar e não conseguia. Procurei várias, e várias me recusaram. Consegui uma no limite do prazo. Não recebi do polo nenhum apoio prático de intermediação, e o registro disso também está no relatório, escrito com o cuidado de quem mede…

  • Artes & Narrativas

    Por que Birdman

    Numa disciplina que pedia um ensaio sobre teatro e cinema, eu podia escolher qualquer filme. Escolhi Birdman. O filme é de Alejandro González Iñárritu, de 2014, e conta a história de Riggan Thomson, vivido por Michael Keaton. Riggan foi um ator famoso por interpretar um super-herói décadas antes, e agora tenta provar que é artista de verdade montando uma peça na Broadway, adaptada de um conto de Raymond Carver. Ele quer ser levado a sério. Passa o filme inteiro sendo perseguido por uma voz interna, a do personagem que o tornou famoso, que repete que ele é irrelevante, que ninguém liga, que aquilo tudo é patético. E, na cena mais…

  • Artes & Narrativas

    Três refletores

    No projeto de iluminação que entreguei, escrevi uma frase que serve para quase tudo: É necessário estabelecer uma diferença entre o que é proposto como ideal e o que é possível. Nem sempre o ideal para iluminação será possível para realização. O ideal, ali, seriam projetores elipsoidais, que produzem foco definido e recorte limpo. O possível eram três refletores improvisados de cem watts, extensões elétricas puxadas até onde desse, e uma base montada para que alguém pudesse acender e apagar na hora certa. E foi com isso que projetei a cena. O que me interessa, relendo, não é a precariedade. É o que eu fiz com ela. Não escrevi um…