Pólis & Gestão

O corredor

Naquela escola, todos me trataram bem.

O vigilante do portão me cumprimentou e abriu para o carro entrar. A secretária me atendeu ao telefone, não sabia responder e me orientou a ligar de novo vinte minutos depois. A coordenadora marcou entrevista para a mesma tarde. Anotei tudo isso no diário e usei a palavra cordial quatro vezes em duas páginas.

Menos uma vez.

Num dia de aula, cheguei e fui procurar o professor de Artes. Entrei no corredor que dá na sala dos professores. E fui abordado por um professor da escola, de maneira hostil, que me questionou, com pouca educação, o que eu estava fazendo naquela área.

Expliquei que era estagiário e que procurava o professor de Artes.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos. E saiu.

Foi isso. Não houve desculpa, não houve boa tarde, não houve nada. Ele recebeu a informação que precisava, processou por dois ou três segundos, e foi embora sem dizer mais uma palavra.

Escrevi o episódio no diário e imediatamente o neutralizei. A frase seguinte, no documento original, é esta: no entanto, em termos gerais o ambiente para os funcionários parece ser bem cordial e educado.

Um ano depois eu leio aquele parágrafo e vejo o que fiz. Relatei uma hostilidade e, na linha seguinte, tratei de garantir que ninguém pensasse que eu estava reclamando.

Eu tinha trinta e sete anos. Era servidor público federal, coordenava um setor com equipe multidisciplinar, tinha mestrado e vinte anos de púlpito. E ainda assim, ao ser interpelado num corredor de escola sobre o que eu estava fazendo ali, a minha reação foi explicar, e depois defender quem me interpelou.

Não sei por que aquele professor me abordou daquele jeito. Pode ter sido um dia ruim. Pode ter sido protocolo de segurança mal executado. Pode ter sido o que costuma ser.

O que eu sei é o silêncio dele depois da minha explicação. Alguns segundos parado, sem dizer nada, e a saída.

Esse silêncio tem um nome específico. É o som de alguém recalculando quem você é depois de descobrir que você tem permissão para estar onde está.

Já ouvi esse silêncio em outros corredores.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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