Deus não concorre com a nossa agenda
O conforto não produz descrença. Há crentes com a vida inteira resolvida e há quem não tenha nada e não creia em coisa alguma. O que o conforto produz é a desnecessidade.
Quando o cenário ao redor é confortável, quando a conta bancária traz segurança e o amanhã parece apenas uma repetição lógica do hoje, o milagre não chega a ser refutado. Ele deixa de ser requerido. A realidade está domada, ao alcance das mãos, e ninguém pede socorro de dentro de casa.
Mas o que acontece quando a vida, em suas reviravoltas implacáveis, nos empurra para fora do nosso domínio? É no exato milissegundo em que o chão cede que o véu da autossuficiência se rasga. E é ali, no território do desamparo, que o milagre e a fé encontram terreno fértil.
Confesso que nem sempre abriguei certezas inabaláveis sobre o sobrenatural, embora ele tenha insistido em cruzar o meu caminho repetidas vezes. Mas precisei admitir uma verdade incômoda: a minha fé só ganha músculos quando o controle me escapa das mãos. É a cegueira do planejamento frustrado que obriga a alma a enxergar no escuro.
Acredito que o Eterno mantém o desejo constante de intervir na nossa história, mas nós sofremos de um mal crônico: não deixamos espaço para Ele agir. A nossa obsessão por previsibilidade lota todos os cômodos da nossa existência. Ocupamos tanto tempo gerenciando riscos e tentando prever o futuro que bloqueamos a porta para o inesperado.
Deus não concorre com a nossa agenda.
O milagre é, por definição, uma invasão. É o extraordinário rompendo a tirania da razão. Mas essa dimensão só se torna visível para quem tem a coragem de esvaziar as próprias mãos.
Dizer que “o Senhor é o meu Pastor e nada me faltará” não é um feitiço para evitar as dores do mundo, mas a rendição madura de quem entendeu que não é mais o dono da própria rota.


